A Felicidade do Outro

Com a minha idade, meus pais já criavam dois filhos e eu ainda estou deixando plantinha morrer porque me esqueci de colocar água. Perceber isso colocou tudo em perspectiva. Fez encarar meu papel como filho, como possível pai, mas principalmente, como alguém que ainda precisa aprender a amar completamente.

Chegar à idade que meus pais tinham quando eu nasci foi a melhor forma de lhes dar um desconto. De entender os erros, apreciar os acertos. Pensar na responsabilidade que é criar outra pessoa, lhe educar sobre si mesma e sobre o mundo. Ensinar a aprender. E que cada passo errado desta pessoa pode ser uma queda de cabeça.

O primeiro ponto parece ser tirar a capa de super-herói dos pais. Encará-los como humanos. Sobram apenas pessoas que tem como parte de sua responsabilidade regar plantinhas, diariamente. E que às vezes elas esquecem. E que às vezes não podam as folhas secas ou não sabem admirar as flores. Mas quem o faz todos os dias, sem falhar?

Passei boa parte da minha vida pós-adolescência tentando entender o que é me amar e me aceitar completamente. Entender que eu sou meu próprio, pessoal e intransferível projeto individual e que falhar comigo seria a falta mais grave que eu poderia cometer. Eu estava errado. Essa postura egocêntrica de felicidade não só me deixou frustrado, mas se tornou impraticável. Era só sair da conchinha para perceber que há muito mais areia que água nessa praia. Que quando um amigo está deprimido, me sinto sem braços. Quando minha mãe chora, eu choro junto antes de saber por quê.

Pais, mães, madrastas, padrastos são algumas das pessoas que melhor podem me ensinar sobre amar completamente. Quero entender que quanto mais eu rego a plantinha, mais ela cresce. E que ela não precisa ser minha para ser bonita. Que o sorriso não precisa estar no meu rosto para me deixar contente. Que às vezes é preciso focar menos em autoestima e mais compaixão.

É como se essa tal de felicidade não pudesse morar apenas dentro de mim. Simplesmente porque ela não caiba e só exista em tamanho que pode ser notado quando compartilhada. Não se trata de amor incondicional ou amor romântico, mas em se empenhar por tornar as pessoas com quem você se importa mais felizes e aprender a perceber a felicidade que isso traz.

Eu sei que muitas vezes vou falhar, me sentir frustrado, incompreendido e injustiçado. Como tenho certeza que meus pais se sentiram inúmeras vezes em relação a mim e continuaram seguindo em frente. E que eu não seria feliz sem ou se não fosse por eles.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated felipe luno’s story.