Precisamos falar sobre a putaria no WhatsApp.

Será que nossa troca “inocente” de pornografia não incentiva crimes?

Se já não fosse arrasador o bastante pelo ato em si, o estupro coletivo de uma adolescente no Rio ainda nos colocou de frente com uma outra realidade bem presente hoje em dia: a troca de conteúdo sexual não autorizado pelos meios digitais. Tão horroroso quanto a violência, foi a pressa dos criminosos de espalharem, por redes sociais e no WhatsApp, as fotos e vídeos do ataque. E, aí, uma questão muito séria piscou na minha cabeça, igual um daqueles alertas que aparecem o tempo todo nos nossos celulares: será que a possibilidade de “vazar” esse tipo de conteúdo não está estimulando novos crimes e novas gravações?

A pornografia não nasceu com os meios digitais. Basta ver a foto que ilustra esse post. Mas não dá pra discordar da força que ganhou depois do aparecimento da internet. Força no sentido de alcance e facilidade de acesso. Para se ter uma idéia do poder dessa indústria, as tecnologias de pagamento e segurança digitais mais avançadas são sempre lançadas pelos sites de pornografia. Antes mesmo da indústria bancária. Tudo pra facilitar o consumo e proteger os dados dos consumidores. Claro que existem exceções, mas a diferença é que no mercado pornográfico existe o consenso das pessoas que estão participando das fotos e vídeos. É a profissão delas (e deles). E acho que aí está a diferença que a gente precisa discutir. A parte “não autorizada” da putaria trocada todos os dias.

Não dá pra ser hipócrita: a pornografia vai sempre existir e nós, homens, nunca vamos parar de consumí-la. O WhatsApp virou o grande playground pra isso. Ninguém precisa mais ir atrás de pornografia. Ela chega de minuto em minuto no nosso celular. Sei que a analogia é péssima, mas, assim como acontece o consumo consciente de alimentos, acho que a gente vai ter que buscar um consumo consciente da putaria. Quem discute a objetificação das mulheres vai dizer o contrário, que nenhuma pornografia pode ser aceita moralmente. Mas as que trabalham nessa indústria — mais uma vez, a maioria delas — estão ali porque querem. Acredito mesmo que, por causa das conquistas femininas dos últimos 40 anos, as mulheres não sejam mais EMPURRADAS pra esse mercado. Ao contrário, estão sendo ATRAÍDAS. Até mesmo quem não é profissional, e gosta de se exibir, está entrando nessa onda e ganhando dinheiro com isso. Essa semana esteve no Brasil a Cindy Gallop, criadora do MakeLoveNotPorn.tv, que publica— e remunera — vídeos pornográficos de pessoas comuns, desde que não sejam em nada parecidos com os vídeos profissionais. E, PRINCIPALMENTE, que sejam consensuais.

Mas, voltando ao assunto do estupro, a violência não foi suficiente para os animais que a cometeram. A grande punição era mostrar a humilhação da garota para o maior número possível de gente, com a ajuda dos vídeos e fotos. Em um nível diferente de maldade, recebemos, quase diariamente, fotos e vídeos eróticos de ex-namoradas gravadas por seus parceiros. Em geral, as fotos vem com a “justificativa” de que os homens resolveram se vingar de alegadas traições publicando o conteúdo em grupos de WhatsApp. Nenhuma dessas mulheres e meninas fez esses vídeos e fotos para serem compartilhados. E, cada vez que damos o forward nessas mensagens, estamos criando um canal ilegal e perigoso para novas histórias. Exagero? Não acho que seja. Das piadinhas à troca de fotos, a chamada “cultura do estupro” também se manifesta nos atos mais bobos e “inocentes”. O problema não é só se tivemos ou não a intenção de espalhar essa cultura. Então, na dúvida, melhor não apertar o send do que ter qualquer cumplicidade com ela.

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