
O Todo medido com uma régua de nada
Álvaro de Campos e J. Alfred Prufrock, um dia, se encontram em minha cabeça. Eles, que são uma espécie de máscara de Fernando Pessoa e T.S.Eliot, respectivamente, são tipos humanos muito, muito parecidos: indecisos. Frágeis diante da vida. Paralisados. Sofrem de uma espécie de inércia.
“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”, disse Campos em seu Tabacaria.
Ele vê em si algo como uma nulidade ao mesmo tempo em que tem “todos os sonhos do mundo”. Que tensão brotará daí! Reconhecer-se limitado, tão limitado ao ponto de asseverar-se um nada no mesmo e exato momento em que sonha, ambiciona “tudo no mundo”.
O Prufrock de Eliot também sofre essa tensão entre “o que sou e o que gostaria de ser”. Ele diz sempre ter medido a própria vida com uma colher de café. “For I have known them all already, known them all: Have known the evenings, mornings, afternoons,I have measured out my life with coffee spoons”.
Conhece tudo! Todos! As noites, manhãs e tardes! Tudo isso, todo esse conhecimento, toda essa experiência medida, e bem medida, e sempre…com uma colher de café: a ambição de um Todo medida com uma régua de nada.
Então? Como deveria ele prever, achar, conjecturar algo? Como deveria ele presumir? E não à toa ele pergunta: “So how should I presume? (…) And in short, I was afraid”. Ele teme, resumindo.
Sim! Ele teme! Ele fica, de novo e de novo, se perguntando se ele ousará; se ele ousaria perturbar o universo, se ele ousaria comer um pêssego! “Do I dare Disturb the universe? (…)Do I dare to eat a peach?”.
A ambição de um Todo medida com uma régua de nada.
E entre uma pergunta e outra, Prufrock consegue reconhecer que em um minuto, em apenas um minuto, há tempo para decisões e revisões que, um minuto apenas, reverterá. E pergunta se deve repartir o cabelo (que está rareando), e pergunta se valeu a pena tantas coisas, e se deveria, depois do chá, dos bolos, do gelo, ter a força necessária para forçar o momento na direção da sua crise, do seu colapso.
Ele ousará?
Valerá a pena?
A ambição de um Todo medida com uma régua de nada.
Todos os dois estão vencidos: Campos e Prufrock: “Estou vencido”, diz aquele: “Vencido como se soubesse a verdade”. Como Prufrock, que já conhece todos! Tudo! Conheceu noites, manhãs e tardes; vozes, olhos, braços. Ele os conheceu! Toda a verdade…
E os olhos que conheceu, por exemplo, os alfinetaram fixamente com frases feitas, e ele, assim moldado, preso a uma parede com aqueles alfinetes, preso, pergunta: “Assim, como poderia começar a cuspir os restos dos meus dias e maneiras?”.
Prufrock, como Campos, poderia dizer: “Fiz de mim o que não soube, E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido”.
Olhos que nos afixam em frases feitas como alfinetes afixam borboletas mortas…Máscaras pegadas à cara…
- And indeed there will be time to wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”, afirma o iludido Prufrock.
- Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso?, pergunta Campos.
Ousar ou não ousar? Ser ou não ser?
Mas a resposta já está dada. E Prufrock reconhece que “No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be”.
Campos se vê a si mesmo e diz:
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
E Prufrock, que se sabe um não-Hamlet, se reconhece como apenas um “assistente de senhor”, ainda que tão indeciso quanto o próprio Hamlet; um assistente que vai “aconselhar o príncipe (…) ser deferente, político, cauteloso, meticuloso, cheio de sentenças elevadas, mas um pouco obtuso; na realidade, e às vezes, quase ridículo , quase, às vezes, o Bobo”.
Napoleões sonhados, Cristos hipotéticos, Kants jamais realizados, cheios de bravatas inteligentes, mas fundamentalmente estúpidos: Bobos! São dois Bobos, Campos e Prufrock.
“O mundo é para quem nasce para o conquistar, e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão”, reconhece Campos. “Do I dare disturb the universe? In a minute there is time for decisions and revisions which a minute will reverse”, pensa Prufrock.
E não conquistam. Nada conquistam. E Campos tenta se convencer:
“Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa”.
E, lá embaixo, na sala da casa do careca e magro Prufrock, “the women come and go, talking of Michelangelo”.
Assim como Prufrock conheceu noites, manhãs e tardes; vozes, olhos, braços, Campos viveu, estudou, amou e até creu: “E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”. A inveja do mendigo é um desprezo por si mesmo; desprezo como o que Prufrock pensa terem as sereias por ele, que as ouviu cantar entre si.
Mas ele diz que “do not think that they will sing to me”.
Pois ele não é Ulisses! Nem ele nem Campos são heróis de epopeias gregas.
O pobre do Campos -ó Campos! - é o que fica apenas “defronte da Tabacaria de defronte, calcando aos pés a consciência de estar existindo, como um tapete em que um bêbado tropeça ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada”.
E todos os dois poemas, como as ruas descritas por Prufrock, seguem como tediosos argumentos, de intenções traiçoeiras, que nos levam a uma pergunta esmagadora…A uma esmagadora pergunta…
Mas… “Oh, do not ask, ‘What is it?’,
Let us go and make our visit”.
Haverá tempo…
