“As vozes proféticas do passado ensinam-nos a interpretar a nossa situação…”

Os Profetas sopram as cinzas

Entre 1941 e 1942, Otto Maria Carpeaux, que chegara ao Brasil em 1939, publicou diversos ensaios no jornal Correio da Manhã. Em julho de 1942, os textos foram reunidos e publicados no livro A Cinza do Purgatório, cujo prefácio assim começa: “As vozes proféticas do passado ensinam-nos a interpretar a nossa situação…”.

Baixo então o livro, marcando a página com meu indicador:

- Onde já li essa afirmação? –, me pergunto intimamente. E enquanto no silêncio agitado do meu espírito tento recordar, volto a abrir o grosso volume 1 dos “Ensaios Reunidos”, de onde sorvo aquela Cinza:

“As vozes proféticas do passado ensinam-nos a interpretar a nossa situação; interpretação que equivale a um julgamento do mundo [e aqui me lembro, num instante, onde vira afirmação tão similar; mas sigo lendo, contente] e de nós mesmos, a um exame de consciência. É só a luz interior que pode iluminar o caminho pelas trevas, para conferir um sentido moral ao purgatório dos nossos dias, para acender, na cinza do que foi, a vacilante luz de uma nova esperança”.

E enquanto nas linhas do Prefácio que se seguem Carpeaux vai agradecendo figuras como Álvaro Lins, Augusto Frederico Schmidt, Aurélio Buarque de Holanda, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rego, San Tiago Dantas, “cada palavra de Manuel Bandeira”, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Octavio Tarquinio de Souza, Sérgio Buarque de Holanda, Vinicius de Moraes, e outros — colegas e amigos que tanto o ajudaram no seu exílio e no esforço para apagar um pouco do “travo amargo da cinza do purgatório”, e construir “a aurora duma vida nova” no Brasil — enquanto ele os agradece, eu corro ao “Futuro do Pensamento Brasileiro”, de Olavo de Carvalho; pois foi lá, entre aquelas páginas, que li as palavras cujos ecos foram despertados pelas de Carpeaux:

“Antigas tradições tiveram sempre consciência de um dever para com nossos mortos (…) As velhas tradições não tinham a pretensão de saber sobre os mortos mais do que eles mesmos sabiam; menos ainda a de julgá-los do alto de uma plenitude dos tempos, de explica-los em função de tal ou qual teoria da História, de tal ou qual método sociológico. Para elas, não se tratava jamais de vasculhar pelas costas deles as suas motivações secretas, de reduzi-los a fantoches movidos por forças inconscientes, de fazer deles, em suma, objetos. Elas os respeitavam escutavam seus conselhos, obedeciam-nos, às vezes, longo tempo após eles terem se retirado deste mundo. Eles eram presenças humanas, eles tinham direito de cidade entre os vivos e faziam escutar suas vozes nas assembleias (…) Se nossa preocupação de objetividade é algo mais do que um simples desejo de reificação do passado, não se trata só de saber o que pensamos de Platão ou de Descartes, mas também o que Platão e Descartes teriam pensado de nós”.

Eis “Os Mais excluídos dos excluídos” falando também das “vozes proféticas do passado”; vozes que nos ensinam a interpretar a nossa situação; interpretação que é julgamento do mundo e de nós mesmos; interpretação e julgamento que são um exame de consciência.

Em silêncio, então, examinemos as nossas consciências…

O que ela te disse?

O que será que ela disse àquele?

O que ela me diz?

Ela me diz que abrir e ler “A Cinza do Purgatório” é abrir uma porta, muitas portas, e deixar — se as deixarmos — as vozes proféticas nos perscrutarem, nos explicarem, nos interpretarem, nos julgarem e separarem luz e trevas enquanto o espírito delas paira sobre a face agitada e turva das águas do agora.

É, também, incluir essas excluídas, mas não para sermos reconhecidos, aplaudidos, aclamados como “inclusivos”, “democratizantes”, “multiculturais”; mas por que, “ora porra!” (como talvez exclame a voz de Carvalho), eles sabem e, nós, não; não é, portanto, um favor que fazemos a elas deixando-as entrar, tirarem os sapatos, sentirem-se à vontade; é, bem ao contrário, um favor que cada um faz a si mesmo. Pois como afirma aquela mesma voz de Carvalho, “a pequenez das consciências mede-se pela grandeza do que elas não enxergam”.

E para percebermos isso, claro que de uma forma tênue, para percebermos os efeitos dessas vozes proféticas soprando a cinza deste nosso Purgatório, basta fazermos alguns exercícios. Perguntando-nos, por exemplo, o que Jacob Burckhardt diria sobre o nosso mundo? Sobre o Brasil? O que Goethe teria para dizer sobre nós? Sobre o ano de 2017? O que diria sobre tudo isso Santa Tereza D’Ávila?

Esses são os três personagens dos três primeiros ensaios do livro. E o que Carpeaux nos mostra deles acaba por nos mostrar a nós mesmos. Comecemos, por ordem cronológica, tomando a “Lição de uma Santa”.

Nesse ensaio, Carpeaux conta uma anedota que termina com a seguinte exclamação: “Sinto muito, mas a grande Santa Tereza já não é moderna!”. A frase, dita por uma jovem na década de 1940 em uma livraria, sintetiza o que Carpeaux e Carvalho nos disseram nos textos acima: muitas e muitas vezes calamos as vozes que não julgamos “modernas”, ou “pós-modernas”, ou o que quer que seja. E Carpeaux nos diz: “A invasão do moderno nas regiões da eternidade, sintoma tão grave aos nossos olhos, teria sido para a santa um novo impulso de atividade: são os santos que transformam o mundo”.

E ele então retraça brevemente a transformação provocada por Santa Tereza.

Mas, antes de falar sobre isso, uma questão: quem, hoje, julgaria um “sintoma grave” essa invasão do moderno nas regiões eternas? Quem, hoje, pensa na eternidade? Quem a leva em consideração no dia a dia, no trabalho, fazendo compras, educando os filhos, se educando, assistindo TV, namorando, casando? Quem, nas missas, nos cultos, a tem em mente?

“A pequenez das consciências mede-se pela grandeza do que elas não enxergam”.

E, como a moça da anedota, poderíamos dizer: “Sinto muito, mas a eternidade já não é moderna”. Por isso não a encontramos despida, gritada, frequentando os cafés, exposta cruamente nas livrarias.

Mas os santos, e a atenção que devotaram à eternidade, não são “acessórios de crenças passadas, nem figuras de gesso inexpressivas”: podem ser esquecidas, e, se parecem não nos dizer nada, é nossa a pequenez por não nota-los; uma pequenez de distraídos, dispersa, divertida. “O santo é o homem que possui a graça de levar o mundo mais a sério do que ele o merece; tão à sério que seu caminho para o céu passa necessariamente por este mundo. Levar o mundo à sério é a lição dos santos”, diz Carpeaux.

E Santa Tereza, levando o mundo à sério — e sendo por isso tantas vezes considerada histérica — torna-se, com a sua mística e com a sua psicologia, a criadora da “terminologia psicológica empregada pelo sentimentalismo do século XVIII e em seguida pelo romantismo”.

Tereza é o Agostinho da psicologia moderna, nos diz Carpeaux: “A antiguidade não conheceu o valor da alma individual. Depois do desmoronamento do mundo antigo, Agostinho encontra sua alma sozinha com o Criador. A alma humana é o que há de mais valor sobre a terra”.

Tereza, despertada por Agostinho, desperta ela mesma D. João D’Áustria, Frai Luis de Leon, Cervantes, El Greco, Francisco de Sales, Kierkgarden, Carl Schimidt…E despertou, despertou, despertou…Carpeaux, que nos desperta em sua “Lição”.

Ela conquistou o mundo, diz Carpeaux. “Conquistou-o, porém, contra o mundo. A voz de Santa Tereza venceu o barulho insensato de uma época. A alma está com ele. ‘Sola con el solo’ ”.

A insensatez! Eis algo plenamente moderno. E pós-moderno. Nossa ubíqua contemporânea, a insensatez! Parte da nossa história. Mas a história não se faz apenas com armas, diz Carpeaux; ou com tesouros, diz Carpeaux: “Não é o teatro dos generais e dos diplomatas. A verdadeira história passa despercebida, tranquilamente, no centro da alma humana”. A insensatez: ubíqua contemporânea na nossa alma.

E, hoje, neste mundo cheio de todo o mundo, onde está a nossa alma? “A alma humana já não é mais moderna”.

Claro! Soprada a eternidade, por que falar de ‘alma’?

Mas o “último tereziniano”, Charles Morgan, diz: “Muitos homens se deixam convencer pelo desespero de não ter remédio contra a violência presente, exceto a fuga ou a destruição. Mas há outro remédio que está ao alcance de qualquer, da mãe, do sábio, do marinheiro, do camponês, dos jovens e dos velhos. O remédio é esta concentração do espírito ativo que o pensamento humano conservou através de tantas tiranias e que a preserva ainda”.

E todas essas palavras — preservou, conservou — nos convidam a lembrarmos das vozes dos profetas que nos explicam; lembrarmos das “mais excluídas dos excluídos”; essas vozes que falam à nossa alma, ainda que não acreditemos em nossa alma.

Continua Morgan: “Essa concentração espiritual a que Jesus chamou de a pureza de coração e que é o gênio do amor, da ciência e da fé. À semelhança de um rio faiscante, indomável e inflexível como o zelo dos santos. Chamam os santos de fanáticos e realmente eles não permitem que ninguém os desvie de seus objetivos. Mas é no caos da política que através deles chegamos à ventura e ao milagre de ser um homem”.

Ser um homem: ventura e milagre (e aquela vozinha ecoa: “O milagre, senhor, já não é moderno”). A ventura e o milagre de ter uma alma; de reconhecê-la — e à eternidade — no sopro da cinza do purgatório pelo fôlego profetas.

Mas, sim, precisamos atravessar, queiramos ou não, o “caos da política”. Mais ainda em um mundo onde tudo é “politizado”, e ainda que a realidade não seja partidária. (“A realidade, senhor, já não é moderna”). E como fazer essa travessia?

Jacob Burckhardt pode nos ajudar.

“A guerra é o auge dessas convulsões que sacodem periodicamente a humanidade: as crises. Burckhardt é, sobretudo, o criador da noção moderna de crise à qual se subordinarão todas as teorias posteriores. A crise é a passagem das massas por um período de soberania; massas incapazes de compreender e de conservar o que foi; incapazes de conceber e de construir o que será. A crise é uma fase intermediária entre a democracia nascente e a democracia abolida, única época da democracia realizada, segue-se o despotismo que reestabelece a ordem dos cemitérios; cemitério daquilo que não voltará nunca. Foi Burckhardt quem primeiro descreveu a hora decisiva quando a crise explode”, diz Carpeaux.

E eis o que acontece: de repente, um processo que era subterrâneo se desenvolve com “terrível rapidez”; evoluções que talvez levassem séculos a se realizarem eclodem em “um mês, uma semana, como fantasmas. Soa a hora e a infecção se espalha em um instante sobre centenas de milhas e sobre as populações mais diversas que não se conhecem umas às outras. Aos protestos acumulados contra o passado juntam-se terrores imaginários, e a vontade de tudo mudar se junta à vontade de vigar-se dos vivos em lugar dos mortos, os únicos inacessíveis”.

Vontade de tudo mudar. Vingar-se dos vivos. Estabelecimento da ordem dos cemitérios; cemitérios daquilo que não voltará nunca. Fantasmas, infecções, protestos, despotismo…

“As crises, senhor, estas são modernas”.

E o homem em meio a esse caos da política? (O homem que é “ventura e milagre”).

“O grande homem não é absolutamente o exemplo, o modelo, ele é a exceção. Ninguém é insubstituível, diz o provérbio. Mas aquele que ninguém pode substituir, esses são grandes”, diz Burckhardt.

Sim, pois rara — rara, não! “Raríssima”! — “é a grandeza de alma pronta a renunciar às vaidades criminosas, a grande tentação dos poderosos: o poder pelo poder”.

Se a alma, a eternidade, o milagre, a grandeza “já não são modernos”, tampouco o é “ser homem”. Ser “o grande homem”, quero dizer. Restam os pequenos vaidosos, criminosos, tentados, decaídos, poderosos. Modernos, demasiado modernos: pós-modernos!

- É por essa razão que o poder não melhora os homens –, sopra Burckhardt — O mal como mal domina frequentemente sobre a terra. E por muito tempo. E a doutrina verdadeiramente cristã chama Lúcifer de príncipe deste mundo. E diz, sobretudo, que todo poder é mau -, completa.

- Todo poder é mau: aqui está o centro de toda a doutrina de Burckhardt –, nos sopra Carpeaux.

(“Lúcifer? Lúcifer, senhor, já não é moderno”).

Atravessar o caos político é vivermos os nossos “destinos históricos”; e são as nossas “reações invariáveis” diante desses destinos o que Burckhardt justamente buscava, diz Carpeaux.

E o que devemos esperar dos nossos “destinos históricos”?

Carpeaux dá um passo além e, da citação dos livros, passa à das expressões íntimas de Burckhardt: suas cartas, “comentários indispensáveis”, confissões do sábio, do aristocrata tímido aos seus raros amigos. São, nas palavras de Carpeaux, “receios apocalípticos”. (Creio que, aqui, a nossa mocinha não diria que o apocalipse não é moderno. Afinal de contas, quem é que não sabe que o “mundo está perdido”?).

“Um terrível despertar está reservado aos homens de bem que, em vista dos grandes inconvenientes reais, participaram do jogo da oposição. Eles verão horrorizados surgir aquele de quem eram cúmplices”.

“O terrível despertar” de quem se iludiu, por exemplo, com um partido. Com os integrantes do partido. Ou de um movimento. Ou de grupo qualquer que seja. Idiotas úteis que, se conscientes de o terem sido, e de terem sido cúmplices, não deixarão de tê-lo sido, mas tornar-se-ão menos idiotas e menos úteis às causas nefastas, aos líderes monstruosos.

“De há muito sei que o mundo está sendo levado para uma alternativa entre a democracia perfeita e o despotismo perfeito. Mas este não mais será exercido pelas dinastias, demasiado fracas, mas por destacamentos militares soi disant republicanos”.

“De acordo com a lógica”, diz Burckhardt, mas também seu pressentimento o diz, o Estado Militar será um grande industrial; e as massas, nas cidades e nas usinas, não serão deixadas, miseráveis e livres em seus desejos; a miséria terá um “certo grau” que será fixado e controlado pelas autoridades.

A miséria e a escravidão “fixadas e controladas” pelas engenharias sociais, talvez?

Autoridade. Sobre ela, eis o que Burckhardt nos tem a dizer: “Os povos transformaram-se em um velho muro onde não se pode mais fixar um prego, pois não fica seguro. É esta a razão por que, no agradável século XX, a autoridade reerguerá a cabeça, e será uma cabeça terrível”.

Foi no “agradável” século XX que os povos sofreram com a 1ª e a 2ª Guerras, com a “Guerra Fria” e as muitas ‘guerras quentes’ a ela atreladas, com os totalitarismos nazistas, fascistas e comunistas; foi naquele “agradável” século que o genocídio, o democídio, os gulags, os campos de concentração, enfim, a miséria e a escravidão fixadas e controladas encontraram terreno fértil. E esse terreno foram os corações e as mentes de pessoas que torturaram, prenderam e assassinaram mais de duas centenas de milhões de pessoas. E dos corações e mentes das que pensaram nisso. Cada um deles com uma alma, aquela “parte mais importante do homem”, como disse Carpeaux. Daqueles corações e mentes é que se ergueu a cabeça terrível da autoridade.

Só os profetas enxergam o óbvio, disse Nelson Rodrigues.

E essa cabeça? Ela encontrou um travesseiro para adormecer por algum tempo e nos deixar tomar fôlego? Ou encontrou o seco fundo de algum caixão dentro da qual ser enterrada?

É terrível, mas ela…Ela está no meio de nós: chama implacável do nosso purgatório; Mãe de tantas das cinzas que se acumulam.

Precisamos de um refúgio. E, como Carpeaux, nos refugiaremos em Goethe.

Carpeaux se refugia no autor de Fausto seguindo recomendação de Benedetto Croce: “Desejais fugir da baixa atualidade e ficar sempre atual? Refugiai-vos naquilo que jamais teve atualidade”. (Imagino aquela mocinha da livraria tremer ao escutar essas palavras que sentam a pua em sua “modernidade”).

“É o supremo modelo da existência espiritual nestes tempos”, diz Carpeaux.

Modelo, não! Exceção. Insubstituível! Grande!

“Realmente?”, pergunta Carpeaux, colocando em stand by aquela certeza. E se ele mesmo diz hesitar em responder, devemos nós segui-lo, silenciosamente (ao menos por enquanto).

Carpeaux pergunta onde está o fogo, o entusiasmo, a coerência de Goethe? Principalmente a coerência. E vai sobrevoando a imensa obra em 45 volumes em que com “os mais belos poemas da língua alemã” convivem, encadernados, “mil futilidades em versos inábeis”; fala em “única poesia digna da antiguidade” ao lado de “penosas imitações classicistas”. Fala ainda em sabedoria sonora, fraqueza, tempestade juvenil, comédias ridículas, grande paixão, sentimentalismo insuportável, romance “ilegível por sua técnica antiquada”, mistérios sublimes e futilidades.

“Onde está a unidade de tal obra?”, repete Carpeaux.

Em Goethe, a unidade não está em sua obra; está em sua vida, “cúmulo da inatualidade”; fuga da “baixa atualidade”.

Mas não, claro, sem erros: ele fez de si mesmo um monumento e, ainda que respirando, já estava morto, diz Carpeaux: “A renúncia à vida mata o espírito. O amador de fósseis torna-se fóssil”.

Alerta importante para nós, os que falamos de Profetas, e tradição, e conservação.

Goethe, afirma Carpeaux, é “espírito apolítico e egoísta, não compreendeu o maior acontecimento do seu tempo, a Revolução Francesa”. Ele traiu! Traiu a humanidade! Traiu a arte! Traiu a si mesmo…Seu humanismo é “puramente estético, desumano (…) pairando acima do formigueiro dos homens desprezados”. Traiu a arte por não compreender o Romantismo, e traiu uma vez mais a humanidade, a arte e “sua própria dignidade” quando, diante de Napoleão, ajoelhou-se e, adulando-o, adulou “aquele que deveria se tornar o modelo de todos os déspotas”; a semente da “terrível cabeça erguida da autoridade”.

A essa altura, é sensato nos perguntarmos se deveríamos seguir seguindo com Carpeaux. Buscar refúgio em Goethe? Buscar refúgio num “inimigo da humanidade, traidor da arte e adulador de déspotas”? Parece-me que hoje já são muitos os dessa estirpe a viver, lucrar e falar onde é possível falar e ecoar qualquer ruído da “baixa atualidade”.

- Sim, mas creio que é aí, precisamente aí, nessas três fraquezas — Carpeaux nos diz — é aí que reside a sua verdadeira grandeza.

E paramos estarrecidos (eu ao menos paro):

- Sim! São esses três fatos que o tornam exemplar, especialmente para nós, e que constituem a presença de Goethe -, diz Carpeaux, e deixa o alemão falar:

- Antes a injustiça do que a desordem! — diz Goethe.

Terrível indiferença moral? Não! É um conselho, nos diz Carpeaux; aconselha a não punir os crimes dos revoltosos; conselho que comprova: para Goethe, o humano continua acima do político. Sim! Conservantista, ele é inimigo das violências, não quer “perturbar o mundo em seu sono”; não quer as forças desordenadas despertas:

“É a atitude de um verdadeiro sábio, que não trai, fazendo coro com a política”, diz Carpeaux.

E eis o ponto central: Goethe jamais engrossava o Coro, buscando, antes, a afinação da sua personalidade, o entalhe do seu espírito. “O mundo perdeu a cabeça, porém Goethe deseja conservar a sua”. Carpeaux diz que ele não conhecia bem o seu papel, por isso não fazia coro.

Mas os que engrossam o coro não são exatamente os que não conhecem o seu papel, o seu personagem? Sim! Mas os pobres diabos não sabem disso. Ao contrário, julgam saber tudo, pois o Coro tem sempre um “programa”; o Coro tem sempre um “sistema”. E justamente por não ter nem sistema nem programa Goethe se apura: “falta preciosa numa época em que os sistemas da ciência [ou da pseudociência] servem a programas criminosos”, diz Carpeaux. Programas criminosos que, dentre outras coisas, “fixam e controlam as misérias e as escravidões”, como previu Burckhardt.

Goethe é exemplar, pois se preserva de qualquer conformismo, de qualquer espírito partidário. Ele, como Burckhardt, é pessimista: “a História é o quadro dos crimes e dos infortúnios da humanidade”.

O pessimismo quanto ao Mundo é um traço dos profetas. Mas também o é a capacidade de transcendência: Goethe não tem uma sabedoria apolítica, mas sim suprapolítica: defende a independência, a sinceridade e a liberdade da criatura humana; defende, em suma, “a catedral invisível do espírito” cujo inimigo, a política, jamais pode destruir (a não ser que o espírito se submeta a ela). O que parece “indiferença” em Goethe é, na verdade, a compreensão de que “transtornos históricos são passagens inevitáveis”.

“É no caos da política que através deles chegamos à ventura e ao milagre de ser um homem”.

No entanto, algumas linhas depois Carpeaux fala “que nunca um grande homem foi tão consciente de seu papel”.

Afinal Goethe tinha ou não consciência de seu papel?

Ele, creio, a adquiriu. E foi longe do Coro, pois seu papel foi o de “ser príncipe do reino do espírito”. Ele realiza uma obra de libertação. E Carpeaux vê apenas um rival na vida de Goethe: Napoleão, que disse o seguinte ao conhecer o poeta alemão: “Eis um homem”.

Goethe amou-o, “mas soube subtrair-se ao imperador deste mundo”, diz Carpeaux: “é um clérigo que não trai, não serve”, e vê Napoleão como o lado noturno, demoníaco de sua própria existência.

Napoleão é a encarnação do demônio no sentido socrático do termo: o lado perigoso do espírito; perigoso e necessário à dialética da História. E a “suprema sabedoria” de Goethe, diz Carpeaux, chega, enfim, a ser expressa em seu poema ‘Cinco palavras órficas’, escrito já “na idade do salmista”.

Nele, Goethe lista e descreve as relações das forças primordiais deste mundo; forças que “jamais tiveram atualidade” e, portanto, transcendem a “baixa atualidade”.

Eis o esquema: a Tyche (força das contingências que nos cercam e movimentam) se opõe à Natureza (a força do Universo): “a criação perde a inocência do primeiro dia e torna-se motivo de nossa dor”. O Demônio (força interior do homem) se opõe à Tyche: “o demônio em nós é mais forte do que as contingências, e transforma o mundo”. O homem domina a Natureza e, transformando a Tyche, cria a Ananke (ordem humana), que domina o Demônio: “é necessário que o homem se curve”.

A consequência desse esquema é que “desde então, somos prisioneiros da necessidade que criamos”. Prisioneiros, mas não escravos, e “ainda existe, em nós, um resto de Demônio, resto de paraíso perdido e promessa de liberdade: é nossa última deusa, Elpis, a Esperança”.

Resto de Paraíso Perdido. Promessa de liberdade. Esperança. Como alcança-las? Como alcança-las metidos que estamos entre a Tyche, a Ananke, a Natureza? Como, em meio ao “caos da política”? Como, frente a “terrível cabeça da Autoridade”?

Lembremos da Lição de uma Santa: “sola con el Solo”; só com o Só. “Solitários com a verdade solitária”. E a Verdade, ela nos libertará…No instante em a permitimos, até que Tyche, e Ananke, e Natureza, e o “caos da política”, e a Autoridade nos venham novamente tocar o ombro, imobilizar os braços, atar os punhos, pisar gargantas, produzindo suas cinzas.

E, ainda assim, não podemos esquecer a voz dos Profetas Excluídos: seguimos “solo con el Solo”.

Basta um sopro.