Quando a luz acaba

Quando a luz acaba, à noite, tudo fica em paz e o mundo se revela. Não digo luz, exatamente, mas energia elétrica. É que esta coisa artificial está tão enraizada em nós que já a confundimos com a realidade mesma, a ponto de chamarmos a energia elétrica simplesmente de luz, como se ela fosse a verdadeira luz, como se fosse normal à noite ser tão iluminada quanto o dia. É tamanho o deslocamento a que chegamos que as coisas fabricadas por nós mesmos vão aos poucos adquirindo o nome das coisas mais naturais possíveis, como se elas sempre existissem, como se sempre estivessem ali.

Você já tentou escrever no escuro, à luz de velas? Faço isso neste momento de escuridão, tarefa difícil para um novato, acostumado à luz elétrica. As sombras surgem de todos os lados, não há velas suficientes para iluminar a página de um caderno; fugindo de sua sombra você se vira de um lado e depois de outro, muda às velas de lugar ou eleva-as a um lugar mais alto, na esperança de que iluminem como uma lâmpada. Elas brilham amareladas, as chamas vão enfraquecendo e temos que derramar a cera derretida que se acumula para que elas brilhem com força novamente. Você fica perdido, pensando o que exatamente está escrevendo no caderno; nada aparece de forma clara, tudo fica difuso e incerto, amarelado e enegrecido. Não é um bom momento para escrever, não é um bom momento para se fazer nada que se precise ver; mas é um bom momento para o que se precisa pensar, ou ouvir, ou sentir.

É quando a luz acaba que sentimos o quanto é ruim estarmos sozinhos. Não há internet, TV ou coisa brilhante para nos distrair; não há nada que possa concentrar nossa atenção a ponto de esquecermo-nos de nós mesmos. A luz das velas não é suficiente para iluminar decentemente um livro. Nossos olhos tentam ler e se esforçam e se cansam e desfalecem e logo sentimos que precisamos parar. As velas não revelam a forma das coisas claramente, deixam sempre um tom de mistério e incerteza em tudo. Quando não podemos fazer nada que depende de nossa visão para ser feito, percebemos claramente a separação que há entre nós e o mundo, como se em todo tempo nós nos confundíssemos com o ato de ver. Aqui estou eu, o mundo ao meu redor escureceu, apagou-se em mim aquilo que não me deixava perceber.

Quando a luz acaba é que é um bom momento para conversar. Pois quando ela se vai só sobra o contorno escuro de coisas e pessoas, que se acentua enquanto a noite avança; ficamos protegidos na escuridão que nos permite, finalmente, nos achegarmos a outro ser humano sem que tenhamos que nos mostrar por completo. É um contato de voz, um contato de presença. Nada mais importa se não o estar presente e o que se tem a dizer. Fica mais fácil sermos quem somos; mesmo diante dos outros. As velas são fracas demais para realçar nossos defeitos e vergonhas, não há distrações eletrônicas e tudo que nos resta é outro ser humano a nossa frente, envolto em mistério. A voz é a única coisa que tem vida no meio desta escuridão, ela atravessa o que não se vê e nos liga ao outro; tudo o mais é vulto e sombra, mistério e incerteza.

Há também alivio. Quando a luz acaba você não se sente obrigado a mais nada. Pode até querer, mas sente que deve parar. Estamos tão habituados à luz artificial que quando ela se vai é como se estivéssemos em um evento único, extraordinário, e nos sentimos obrigados a sair daquele círculo vicioso da rotina para prestarmos a atenção em algo que não vemos direito. Sentimos a necessidade de irmos à janela para ver o mundo lá fora, com o único interesse em ver; justamente nesta hora de escuridão em que não vemos nada além de contornos e sombras. E podíamos fazer isso todos os dias, mas a luz artificial tudo empalidece ao mesmo tempo em que revela. Justamente por tudo estar sempre tão visível é como se fosse invisível. Daí a impressão de leveza, a vontade de descansar que a escuridão proporciona; aquela luz branca, forte, onipresente na modernidade, nos mantém sob um foco artificial constante; estando tudo sempre revelado nada mais há de interessante, nada há de misterioso.

Falta-nos a densidade das trevas. Não das trevas da maldade, mas do mistério. O mistério se foi, apagado pelo clarão artificial que apaga as estrelas nas grandes cidades. Não há mistério na noite do homem comum moderno, tudo está sob o holofote da iluminação pública. Tudo está revelado, como um corpo nu a um clique de distância; mas não é um nu belo, que se revela à medida que verdadeiramente nos envolvemos com o mistério, muito menos um nu verdadeiro, que se nos mostra para vermos como são as coisas, é a nudez que se pôde achar nas ruas, é a nudez da vulgaridade das coisas, que é o que se pode revelar da escuridão por uma luz no seu sentido mais físico possível. É essa luz física que ofusca a nossa visão e nos faz acreditar que não há nada mais a ser revelado. Eis as duas dimensões ofuscadas pela onipresente luz artificial: a profundidade do horizonte enegrecido pelo mistério e a altitude das estrelas que brilham no céu.

Eu fico em meio a tudo isso, entre a luz e a escuridão. Posso ver, de minha janela da cozinha, o bairro do Pilarzinho iluminado, e da janela da sala o São João às escuras; situação irônica, os santos andam meio apagados ultimamente. De um lado a cidade iluminada, estrelada por postes de luzes brancas, amarelas e azuis, como um colar de pedras reluzentes cujo brilho doura a barriga de nuvens dormentes. Essa cidade iluminada não tem contornos, a luz embaça os olhos com o brilho tremulante das falsas estrelas de rua, que piscam junto ao som metálico de mina de carvão da cidade. É tudo um espetáculo resplandecente e barulhento, de formas e cores que se revelam no pouco negro ofuscado das vias iluminadas. Do outro lado o negror absoluto, o bairro do São João dorme um sono profundo, onde o máximo que se pode distinguir é o contorno de pinheiros, arbustos e raros traços de telhados, que divisa fazem com as escuras nuvens azuladas, que navegam no silêncio assobiado pelo vento. Lá longe, bem longe, um pequeno brilho amarelo, como de uma candeia, ondula como o mato ao vento. No meio de tudo o homem, dividido entre o ruído e o silêncio, seduzido pelas luzes peroladas de um lado, imerso na imensidão do negror do outro.

Quando a luz artificial acaba e ficamos em meio à escuridão temos sossego. No 11 de setembro de 2001, na noite daquele dia enegrecido, a energia elétrica foi cortada no sul de Manhattan. Era para evitar incêndios gerados por curtos-circuitos na rede elétrica da região subterrânea ao World Trade Center; mas para as pessoas que ao redor viviam foi uma pausa para fechar os olhos em meio a dor que sentiam, foi um momento para calar o irritável barulho dos noticiários, um tempo para os nova-iorquinos meditarem no que havia acontecido. Você consegue imaginar, todos aqueles arranha-céus, todas as avenidas sempre congestionadas, todo aquele lugar cheio de vida noturna, completamente no escuro, em silêncio, em espanto, em dor, somente à luz de velas e lanternas? A escuridão que nos isola no momento de dor é como um suspiro; é um fechar de olhos quando se está doente.

É bom quando a luz acaba e estamos cansados. Parece que junto com a luz elétrica vai embora uma multidão de sentimentos que nos confundem, uma multidão de coisas que ficam o tempo todo apitando e gritando, gemendo e chorando, tirando a nossa força e a nossa atenção; parece que só na escuridão e no silêncio podemos identificar nossos sentimentos verdadeiramente, podemos ouvir só a nossa voz; não vemos nada para fora, mas percebermos muito por dentro.

Não importa quão pobre e ignorante uma pessoa seja, quando a luz acaba uma percepção do transcendente cai sobre todos nós. Nada mais podemos discernir direito e apesar disso tudo permanece e continua existindo, nós continuamos existindo e sentimos que há algo além daquilo que não podemos ver, de que não podemos definir, de que não podemos nomear; nosso horizonte se abre na vertical, sem que nada vejamos. No final das contas o que não cabe dentro de nossa mente racional é a escuridão profunda e não a luz da ciência.

Dói para o costumaz digitador escrever a mão. Vou aos poucos perdendo as antigas habilidades que conquistei na infância, tudo vai se esvaindo e sendo esquecido, tudo vai se perdendo nesse mundo tão iluminado.

Olho pela janela, o condomínio está às escuras. Parece dormir; as luzes brancas da escadaria de emergência resistem à escuridão. Os grilos cantam alto e um vizinho liga o som do carro para abafar a ópera. Para ele tudo é motivo de festa, grita quando a luz acaba, grita quando a luz volta, faz da escuridão motivo de folia, não pode ficar sem emoções, não pode encarar o vazio, não suporta a luz de uma vela de oração; está viciado em sentimentos falsos e verdadeiros que se misturam dentro dele sob um clarão que não lhe mostra cores.

A luz elétrica retorna. O som das pequenas explosões do motor da geladeira a ligar é uma salva de tiros em comemoração, o canto do grilo é abafado. Todos os contornos somem, restam apenas as coisas, vergonhosamente reveladas pela luz elétrica. Um avião cruza o céu de estrelas apagadas com seu piscar azul e vermelho; a iluminação pública brilha mais na terra do que no céu.

Eu volto ao meu mundo, o mundo da luz artificial. Foi neste mundo que nasci, é nele em que vivo e a luz fabricada é o brilho ofuscante com o qual tenho que lutar e me aliar, todos os dias, para encontrar a profundidade daquilo que a luz artificial não revela. Não pretendo fazer como o vizinho de minha irmã, que em plena era das telas brilhantes solicitou a companhia de energia que desligassem sua casa da rede elétrica, gritando com todos: “Não quero a luz do Estado, quero um estado de luz”. Não, ainda não; pelo menos por enquanto.