Sem sombra

À Georges Bernanos

Na cozinha do prédio onde trabalho

vi, acima do armário

acima da pia,

a fresta vítrea da janela

que nada escondia;

e dela, para além,

vi o céu azul do além,

bem pra lá

do trabalho

do agora

do já;

aquele azul de inverno

tomado de luz fresca,

que não nos dá ao inferno

do verão, que ilumina e escalda;

um azul que aparenta não ter fim,

mas não aquele fim que (parece)

já não vem,

o “já não vem”

deste dia entorpecido

de modorra

da responsabilidade que se tem,

um querendo sem querer,

a ânsia de fim

em meio à angustia

de um meio.

Não! É o sem fim do voo

livre, do irresponsável

por responsabilidades

mesquinhas

daninhas

mesminhas;

o sem fim do “sim!”

que afirma

agarra

e prende

a alegria

de quem finalmente entende.

A fresta da janela,

estreita pra eu sair;

a vontade afugentada

pela imagem do ridículo

da fuga; a alma, mesmo assim,

atormentada pela ânsia de fim

daquela ânsia.

Traguei um grande gole de água fresca;

sorvi uma cálida xícara de café;

baixei os olhos e vi com nitidez meu pé;

os pés pisando o chão…

pulsando então já fraco

o coração…

Abandonei no fundo da pia

a xícara suja, deixando

a quimera esdrúxula da infância

no sujo chão do esquecimento,

pisada pelos “pés no chão”

do que é real tormento:

a vida adulta

sem sombra da criança.

É quase Shakespeare!

Literatura, Cultura, Contos, Crônicas

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    Escritor e jornalista

    Literatura, Cultura, Contos, Crônicas

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