O Dia em Que Eu Deixei a Tampa do Vaso Levantada e Apanhei da Ruiva

A ruiva brigou comigo. Denovo.

Dessa vez não foi por ciúme, nem porque eu fiquei bêbado e acabei dormindo de roupa suja no sofá denovo. Apesar de eu ter feito isso de fato, ela brigou, e brigou feio comigo, porque eu mijei.

As mulheres nunca irão entender a dificuldade que é mijar em um determinado ponto específico. Eu poderia citar alguns exercícios como lavar o quintal com uma mangueira sem regulagem, ou tentar acertar um dardo em um alvo, mas nada disso chegaria perto da realidade de se mijar sem acertar aquela maldita tampa. Mas eu fugi do assunto, não foi isso que eu fiz. Na verdade eu fiz mas eu limpei com um papel depois, então tudo bem. O que eu não fiz, e esse foi o motivo da briga, foi que eu não abaixei a tampa do vaso depois de mijar.

Como ela ganhou a discussão, em partes porque ela grita muito, em partes porque ela ameaçou fazer uma greve de sexo, eu decidi expor meus argumentos aqui, com a intenção de que ela leia algum dia em que estiver mais tranquila e sem esse negócio de greve na cabeça.

Para entender porque eu não abaixo a tampa da privada eu estudei o nosso cérebro e como ele funciona. Acabei encontrando uma parte específica que explica o porquê de eu sempre esquecer.

Só para constar, eu não encontrei nenhuma parte que explicasse onde eu estava errado quando disse que o trabalho para abaixar a tampa é exatamente o mesmo que é para levantar novamente, e ela que abaixasse a tampa se quisesse (não colou esse argumento e ela me jogou um copo de plástico bem no olho).

A Culpa é do Meu Cérebro, Para de Me Bater

Eu descobri que 95% de toda nossa atividade cerebral não é consciente. É sério. Essa parte que você imaginou eu apanhando, essa voz na sua cabeça lendo esse texto, ou tudo o que você raciocina é realizado por aproximadamente apenas 5% do seu cérebro. Isso não significa que os 95% guardam a capacidade de ler mentes ou levitar coisas, ela também trabalha, e inclusive trabalha muito mais do que a parte do cérebro que você percebe.

Nosso inconsciente controla hábitos que são automáticos como olhar o celular com frequência, quando decidimos comer, quando ir ao banheiro, trocar a marcha do carro, se coçar. Ele está ativo o tempo todo controlando como o seu pé esquerdo vai para frente enquanto você anda, lembrando que seu pulmão deve puxar o ar para não parar de respirar e morrer, olhando coisas e filtrando o que é relevante e o que não é, entre todas as outras coisas que te mantém vivo e funcional.

Nossos hábitos começam como sendo escolhas conscientes e depois de algum tempo não precisamos mais pensar para fazê-los. Quando um hábito é ativado nós agimos de determinada forma ou sentimos emoções específicas por reflexo, sem nenhum pensamento consciente, essa é sua parte inconsciente funcionando no automático.

Como já expliquei em um outro texto, nós podemos manipular os resultados para que sejam na maioria das vezes positivos e parar de fazer merda, como largar algum vício ou de olhar o facebook o tempo todo durante o trabalho.

O Condutor, o Elefante e a Tampa do Vaso

Para ilustrar melhor vou usar uma metáfora que foi inventada sabiamente pelo escritor Jonathan Haidt no livro A conquista da Felicidade.

Podemos pensar que a parte de nossa mente que toma decisões, aqueles 5%, é como um condutor em cima de um elefante.

O elefante é a nossa parte inconsciente, aqueles 95%. Ele possui linguagem e vontades conscientes e guia o elefante. Nós não agimos unicamente por meio de instintos, como os pássaros e todos os outros animais, justamente porque possuimos essa parte 5% consciente, o condutor.

No dia a dia, o elefante sempre anda pelos mesmos caminhos caso não for controlado. O condutor não pode controlar 100% do animal, porque é muito mais fraco e se cansa rapidamente. O elefante é um animal enorme, não se cansa facilmente e não pode ser 100% controlado.

O condutor é somente um guia, o elefante está no comando e vai para onde está habituado a ir, parando quando se depara com recompensas (comida, amor) e fugindo de eventos que sinalizam perigo (situações ruins, medo). O condutor pode fornecer a direção, mas só quando o elefante não tem desejos conflitantes.

Uma pessoa que possui inteligência emocional tem um condutor habilidoso, que sabe como distrair e persuadir o elefante, sem ter que entrar em um conflito direto de vontades. Quando o condutor é capaz de mudar o comportamento do elefante, o processo exige um investimento imenso de energia.

Se queremos viver com maior tranquilidade e poder, precisamos usar nossos esforços para treinar o elefante e não para convencer o condutor.

No meu caso, o elefante (meu subconsciente) está programado para não abaixar a tampa do vaso, porque há anos eu já faço isso. Assim ele vê esse ato como um caminho já percorrido e então eu nunca me lembro de abaixar a tampa.

Afinal eu tenho algumas opções: ou eu começo a mijar sentado, o que custaria um pouco da minha dignidade e amor próprio, ou eu aciono o condutor para ensinar o elefante a se lembrar de abaixar a tampa sempre que mijar. Com o tempo, o elefante vai aprender esse novo caminho e eu farei isso sem precisar me lembrar, deixando os 95% do meu cérebro lidar com a situação.

Apanhando e Aprendendo (ou só apanhando mesmo)

Dessa lição eu aprendi duas coisas. A primeira é que uma compressa de gelo funciona melhor com uma sacola do que com um pano. O pano suga a água e quando fica cheio molha o sofá todo, aumentando o risco de você apanhar novamente.

A segunda coisa foi que eu, condutor, posso controlar meu elefante um pouquinho de cada vez todos os dias para fazer coisas difíceis automaticamente, como abaixar a tampa do vaso, praticar exercícios toda manhã, ler um livro enquanto faço cocô ou até mesmo escrever textos iguais a esse todos os dias em um horário definido.

O problema é que o condutor é fraco e se cansa muito rápido. É importante utilizar sabiamente as habilidades do guia, porque nossa mente inconsciente (o elefante) é muito resistente e forte.

Existem vários estudos demonstrando como nossa mente inconsciente funciona, uma delas mostra que nosso comportamento é altamente influenciável pelas pessoas com quem convivemos. Isso significa que nosso elefante tende a seguir o rebanho em preferência do que seguir o condutor, principalmente se o guia quiser fazer uma rota nova.

Sendo o comportamento dos outros contagioso, é uma boa estratégia passar mais tempo com as pessoas que já têm o hábito que estamos tentando ensinar ao nosso elefante, pois temos a tendência a copiar os nossos próximos.

Não que eu queira fazer cocô em grupo, as atividades devem ser cuidadosamente selecionadas. Fazer exercícios em grupo por exemplo é uma boa referência para nosso elefante reconhecer isso como uma atividade automática e assim, melhorar sua saúde.

Então Ruiva, se você estiver calma e lendo isso, espero que saiba o quão difícil foi mudar o meu comportamento e saiba que eu fiz todo esse estudo por causa do meu cérebro e por amor. E por medo de perder um olho.

Te amo Ruiva.

Ps.: Por favor não entre em greve.


Se você gostou do texto clique no coraçãozinho ali no final! Leia meus outros artigos e siga minha revista eletrônica E-volua. Lá você encontra vários conselhos, dicas e ideias para melhorar sua vida!

Like what you read? Give Elvis Nogueira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.