Ninguém se importa com você

O seu Paulinho da mercearia tá cagando se você conseguiu um novo emprego; ele mal dá conta de administrar o próprio negócio. E não se pode dizer que o pobre homem é insensível. Para ser insensível ele precisaria te conhecer, e convenhamos, nunca houve interesse. Seu dinheiro trocado sim é objeto de seu desejo, que assa pães todo dia e os vende quentinho a pecadores e devotos, sem qualquer acepção.

Seu Paulinho, cuja aparência lembra São Bartolomeu, presta mais atenção no preço da farinha do que nos fregueses. Aliás, se você morresse ele nem daria conta. Ou você acha que seu amor pela vida lhe causaria alguma emoção? O homem anda até envergado de tanto carregar peso na mercearia. O fluxo de caixa lhe atormenta o juízo quase todas as noites, antes que adormeça. Não adianta querer falar sobre como tem se sentido em relação aos seus desencontros, ao momento cagado da política e economia, ao trabalho horroroso (ou a falta dele), antes mesmo da segunda frase o pobre homem já teria virado as costas pra checar a fornada de pães, atender algum freguês ou passar pano no balcão.

Admita o fato que a relação entre vocês terá de continuar impessoal. Que todas as vezes que estiver triste, decepcionado, não poderá contar com seu ombro amigo. Nem quando a alegria for absurda e fizer você acreditar estar vivendo em outra dimensão.

Seu Paulinho não vai te ajudar a decifrar essa sensação misteriosa que queima em seu peito, como se sua vida pudesse ser algo muito maior do que se tornou. Não vai acalmar o coração quando os questionamentos sobre a morte não tiverem resposta.

Você está sozinho.

Mas já é possível ver luzes de Natal pela cidade e nas casas. Muita gente foi viajar. Outras ainda irão. Os ônibus continuam percorrendo seus trajetos. Os pássaros cantando, os trens correndo. A cidade não para, funciona feito fábrica. A vida segue seu fluxo imparável; os ventos, os frutos, os amantes, o sol se pondo.

E seu Paulinho vendendo pães.


Feliz Natal!

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Eder Casagrande’s story.