Foto: Beto Figueiroa/Divulgação

Anônimos nas ladeiras do Recife e de Olinda, instrumentistas que fervem multidões a cada carnaval dominam ritmos bem além do popular e sonham com palcos e concertos do seleto universo erudito.

Na terra em que carnaval é sinônimo de ruas e ladeiras lotadas, o folião não é o único anônimo na multidão. Em cima do palco ou disputando cada centímetro de chão, os instrumentistas pernambucanos também estão longe de ser a rainha da Inglaterra - ou, no caso, o rei Momo. E nem fazem questão. Eles sonham virar protagonistas, mas dos palcos eruditos. O problema está na clássica lei da oferta e demanda. Embora o erudito se destaque nos cursos de música de Pernambuco, ele não abre portas no mercado local. E aí, geralmente, não tem jeito: toca-se o popular para tocar a vida.

Todo ano a história se repete — assim como os frevos, reclamam os pernambucanos menos bairristas. Às vésperas do carnaval, especialmente entre os meses de janeiro e fevereiro, o mercado da música se aquece no Recife, em Olinda e - embora com um perfil diferente -no interior do Estado. Estudantes e profissionais são recrutados por donos de orquestras e bandas para shows e desfiles no reinado de Momo. Com sorte dá até para fechar contrato (de boca, quase sempre) para um conjunto de apresentações.

Em um dia oficial de festa a participação em uma orquestra de frevo pode render um cachê superior a R$ 220. “Em termos financeiros é uma época boa. Juntando as prévias e o carnaval dá para ganhar de R$ 1,5 mil a R$ 2,3 mil. Mas o desgaste físico também é bem maior do que na rotina de trabalho”, conta o flautista e professor de música da rede pública Djalma Claudino, de 19 anos. “Preciso atuar em vários grupos para receber um valor significativo.”

AI, MEU BEM… SEM VOCÊ NÃO HÁ CARNAVAL

Aos 19 anos, Claudino já se divide entre partituras e carnaval. Foto: Tiago Cisneiros

Apesar da pouca idade, o envolvimento de Claudino com a música vem de outros carnavais. Ele começou seus estudos aos 7 anos, em uma escola especializada no Cabo de Santo Agostinho, litoral sul do estado. Depois, seguiu para o Conservatório Pernambucano de Música, no Recife, e cursou aulas também em outros Estados e na Itália, até chegar ao bacharelado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Foi preparado, sobretudo, para o clássico. A realidade, no entanto, já mostrou que versatilidade é essencial. “O meu foco é o erudito, mas aqui no Nordeste não existem muitas oportunidades. Então não descarto trabalhar com o popular, pelo qual também sou encantado”, explica o instrumentista. Frevo, aliás, ele não aprendeu a tocar nas salas de aula, mas sim participando de bandas e orquestras.

O enredo é semelhante ao de Jailson Sousa. Aos 30 anos, o clarinetista e professor do Conservatório também teve sua formação teórica baseada no erudito. O contato com o popular só veio na prática. “O frevo, seja de rua, de bloco ou de canção (as três variações do ritmo), é repertório obrigatório aqui em Pernambuco. Foi aí que passei a gostar ainda mais dele. Hoje, busco atuar nas duas áreas, enquanto não descubro com qual me identifico mais”, diz o músico.

Foto: Tiago Cisneiros

Trabalhando no carnaval desde 2010, Sousa sempre fez parte de agremiações líricas, como os blocos das Flores, O Bonde e da Saudade. Esses grupos costumam se apresentar à tarde e no início de noite, no Recife, em Olinda e em outros municípios da região metropolitana. Os integrantes vestem fantasias características, com as cores do grupo, e ostentam seus estandartes igualmente tradicionais. Em geral, suas orquestras executam os chamados frevos de bloco, mais pausados e com letras que remetem às próprias entidades, numa herança da época em que havia competição entre eles. Hoje, a concorrência — que inspirou clássicos como “Madeira que cupim não rói”, de Capiba — já não existe e as agremiações tocam e cantam as composições das antigas rivais.

Foto: Beto Figueiroa/Divulgação

Para os especialistas em instrumentos de sonoridade mais rasgada, como os metálicos trombone, saxofone e pistão, as oportunidades surgem nos grupos de frevo-canção e frevo de rua. O primeiro dos dois estilos aproxima-se das marchinhas cariocas, enquanto o último é completamente instrumental e, possivelmente, conserva a música mais conhecida e repetida do carnaval pernambucano: “Vassourinhas”, de Matias da Rocha. Essa variação costuma ser associada à sua efervescência (“ferver”, aliás, é a origem da palavra “frevo”) e é executada, sobretudo, pelas orquestras contratadas por blocos populares e prefeituras. Não à toa, é presença garantida — e quase ininterrupta — nas ruas do Recife Antigo e nas ladeiras de Olinda.

… Ó ABRE ALAS, QUE EU QUERO PASSAR

Apesar das subdivisões e particularidades, o frevo, assim como outros ritmos locais, ainda não está em pé de igualdade com as composições eruditas nos cursos de música. Até quem já sentiu a necessidade de conhecer bem os estilos populares tem dificuldades para enfrentar essa tradição. “Como professor das redes municipal e estadual, tento abrir os olhos dos alunos para todas as oportunidades. Mas, claro, acabo ficando um pouco mais preso ao erudito devido aos programas de ensino das instituições”, explica Djalma Claudino.


O coordenador da licenciatura e vice-coordenador do Bacharelado em Música da UFPE, Antônio Barreto, reconhece que o erudito tem espaço nobre na academia e explica a vantagem do profissional com conhecimento nesse tipo de música. “O aluno que toca só popular dificilmente entra no campo do erudito. Já o inverso pode acontecer, participando, por exemplo, da Orquestra Sinfônica do Recife, como temos alguns exemplos por aqui. Isso porque quem estuda o erudito sabe ler partitura. O mercado exige isso”, diz o professor.

Barreto admite, entretanto, que a elevada procura por disciplinas ligadas à música popular tem influenciado algumas mudanças nos cursos da UFPE. Neste ano será implementada uma disciplina de trompete, que se unirá ao teclado e ao saxofone como instrumentos populares estudados. Há, ainda, planos de incluir regência e composição na grade e até mesmo de abrir um bacharelado em guitarra.


As demandas externas também inspiraram mudanças na Escola Técnica Estadual de Criatividade Musical, no centro do Recife. Desde 2012, o currículo vem sendo reavaliado e passou a trabalhar mais a formação popular. “A escola tinha um cunho erudito, houve muita resistência interna em diversificar. Porém, como a nossa missão é educação profissional, precisamos considerar o mercado”, diz a gestora da unidade, Suely Almeida.

Um dos homenageados da folia do Recife em 2015, o Maestro Spok — nome artístico de Inaldo Cavalcante Albuquerque - aprendeu a tocar frevo na rua. Hoje, ele reforça o discurso dos coordenadores de cursos e sinaliza o surgimento de um novo cenário na formação dos músicos. Um bom exemplo é a criação de espaços como o Paço do Frevo, em funcionamento desde fevereiro de 2014, e o Instituto Passo do Anjo, que deve ser inaugurado após o carnaval deste ano. “É um trabalho de médio e longo prazos. Agora é que estamos começando o ensino, o trabalho de organizar os primeiros livros e, aos poucos, desenvolver o sistema.”

Maestro Spok é um dos homenageados da folia do Recife em 2015. Foto: Beto Figueiroa/Divulgação

Como a reformulação dos cursos do Estado ainda está engatinhando, resta aos músicos mais experientes encarnar o papel de professor de música popular. Nos últimos 15 anos essa tem sido a rotina do coordenador da Orquestra Fantasia da Juventude Lírica, Domingos Sávio, 41. “Pelo que conheço das escolas, a música popular não recebe o enfoque que deveria, sobretudo os gêneros típicos de Pernambuco”, opina. Ele conta que já recebeu muitos músicos em início de formação para orientar sobre as especificidades da música popular regional. “É curioso, pois quando chegam a um nível bacana de experiência e conhecimento recebem convite de outro grupo e vão embora. Mas encaro com naturalidade, como reflexo do mercado.”

EI, VOCÊ AÍ, ME DÁ UM DINHEIRO AÍ…

Também professor do Conservatório Pernambucano de Música, Domingos Sávio prefere gastar seu verbo com outros aspectos do cenário musical local. Para ele, os cursos carecem de disciplinas de ética e cidadania, o que gera consequências graves ao mercado. “Já vivi a situação de um músico decidir tocar com outra pessoa e eu só ficar sabendo na hora do embarque”, conta. “Tivemos que providenciar um substituto com urgência, chegamos atrasados e paguei uma belíssima multa”, lembra. Ele, entretanto, admite que poderia evitar esses contratempos assinando contratos com os trabalhadores e não deixar tudo só na base da conversa e da confiança na responsabilidade alheia.


Esses vínculos de boca são marcas de um mercado ainda pouco profissionalizado e regulamentado, como observa o coordenador da licenciatura de música da UFPE, Antônio Barreto. “Os músicos não usam a ferramenta do contrato e sempre há um profissional que toca barato e, assim, fura qualquer tentativa de tabelar os preços”, argumenta. “Já ouvi muita gente dizer ‘se eu não for, outro vai’, numa lógica que prejudica a profissão”, afirma.

Para o pianista e tecladista Genilson Oliveira, 32, muitos empresários de grupos e orquestras se aproveitam de instrumentistas iniciantes, ávidos por uma chance, para oferecer cachês baixos e ainda dar calote. “Às vezes as prefeituras não pagam ao dono da banda que, por sua vez, não remunera os músicos. Também há casos de o prefeito pagar, mas o cara inventar que não recebeu e ficar com todo o dinheiro.”

Episódios assim, aliás, pesaram na decisão do pianista de não se apresentar mais nos carnavais do interior do Estado. “Quando comecei a estudar música toquei em várias cidades em busca do dinheiro que ajudou a bancar os métodos e os livros. O cachê chegava a ser o dobro do que era pago em outras épocas. Mas, com esses problemas, não quis mais”, conta.


O repertório dos shows também não contribuía para estreitar os laços do pianista com o carnaval do interior. Admirador de compositores como Brahms, Liszt e Chopin, ele se incomodava com as letras e os erros de harmonização de bregas, pagodes e axés que, mesmo sem fazer parte da tradição, precisavam estar no repertório dos shows.

Para Domingos Sávio, do Conservatório Pernambucano de Música, o problema é consequência da falta de uma política de proteção da cultura local. “Os ritmos de Pernambuco só mantêm sua força no Recife e em Olinda. Nas demais cidades há um vale-tudo de atrações, com dinheiro sendo aplicado indiscriminadamente e, na ponta, subsidiando música de caráter sexista e discriminatório”, critica.

Foto: Beto Figueiroa/Divulgação

Enquanto o cenário não muda, o músico que quiser um lugar nas ruas, ladeiras e palcos do mercado pernambucano vai precisar adotar um dos rótulos da folia local: a multiculturalidade. Ou, trocando em miúdos, ser pau para toda obra.

Esta história foi escrita pelo jornalista Tiago Cisneiros,
com edição de texto de Dimalice Nunes, edição de imagens
de Cacalos Garrastazu e design gráfico de Juliana Karpinski.

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