Grafites no muro que cerca o Cais José Estelita, no centro do Recife, convocam para o movimento. Foto: Tiago Cisneiros.

Mobilizações espontâneas vêm levando milhares de pessoas, em diversas partes do País, a ocupar espaços públicos e lutar por cidades com mais verde, cultura e história

O Aurélio, já bem desgastado, parece não ter dúvida: o verbo ocupar pode ser sinônimo de trabalhar, tomar posse, conquistar. O adjetivo desocupado, por sua vez, carrega uma carga pejorativa, designando o sujeito que não tem profissão nem interesse de arranjar. Nos últimos tempos, ele vem sendo usado como rótulo para os envolvidos nos novos movimentos sociais. Gente responsável por conferir outros significados àquelas palavras, além do que o dicionário e os críticos conseguem alcançar. No Recife, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Natal e em outros cantos do país, milhares de pessoas estão ocupadas e preocupadas em “ocupar”. Descontentes com a lógica dos centros urbanos, elas têm se unido em mobilizações voluntárias para (re)descobrir os espaços públicos e mudar as formas de ver e viver a cidade. E você, continua aí no seu “quadrado”?

Paradoxalmente, a onda de “apropriação” do ambiente público tem uma origem mais virtual do que física. É nas redes sociais que a mobilização se espalha. As adesões crescem e dão origem a movimentos locais, unidos no combate à verticalização das cidades, pela preservação do patrimônio histórico e do meio ambiente. Ocupe Estelita, Ocupe Cocó, Ocupa Golfe, Resiste Reis Magos e o Organismo Parque Augusta são algumas dessas mobilizações cidadãs que se espalham pelo País.

Se a web ajuda a agrupar os “ocupantes”, tem um papel ainda mais forte na criação de uma rede de interação e troca de apoios entre as organizações Brasil afora. Mais estruturados e coesos, alguns desses grupos ganham não só as ruas, como também os gabinetes para defender suas causas. Alguns coletivos destacaram especialistas em determinadas áreas para um trabalho junto a governos, entidades, empresas, Ministério Público e Judiciário. Essa ocupação física e virtual, em tantos campos diferentes, acabou se tornando uma das marcas das articulações urbanas desta década. Ao mesmo tempo, é um de seus maiores desafios.

Muita gente tenta conciliar o engajamento com as obrigações da vida pessoal e da carreira, o que nem sempre é possível no longo prazo. Em Fortaleza, por exemplo, essa dificuldade levou à perda de fôlego do Ocupe Cocó. Em 2013, o grupo buscou, sem sucesso, impedir a construção de dois viadutos sobre uma área do Parque do Cocó. “Após a ocupação, as pessoas foram tocar suas vidas. Muitas delas deixaram bastante coisa parada para poderem se dedicar e, quando fomos retirados, essa agenda cotidiana ainda estava lá para ser resolvida”, conta o estudante de cinema e audiovisual Gustavo Mineiro, 33. Hoje, diz ele, há apenas ações pontuais, articuladas pelas redes sociais.

Fotos: Tiago Cisneiros

Até mesmo no Ocupe Estelita, um dos mais antigos e fortes coletivos, são perceptíveis a rotatividade dos membros atuantes e os altos e baixos da mobilização.

Para a jornalista e professora da pós-graduação em comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Yvana Fechine, 51, essas são marcas de todo coletivo. “Assemelha-se a uma brincadeira de corda. Alguns sempre estão girando a corda e, no meio, uns entram para pular, depois saem, outros entram e assim sucessivamente. Essa é, ao mesmo tempo, a novidade, a força e a fragilidade do movimento.”

Yvana é uma das milhares de simpatizantes do Ocupe Estelita, movimento que nasceu no Facebook (no grupo “Direitos Urbanos — Recife”), em 2012. Opositores também não faltam, como evidenciam as mais de 140 mil curtidas da “Ocupe-se”, uma página satírica na mesma rede social. A divisão de opiniões deve-se ao objetivo do coletivo, de barrar a construção de 13 prédios em um terreno que esteve abandonado durante anos, no Cais José Estelita. A área de 101,7 mil metros quadrados, no centro da cidade abriga antigos galpões e o segundo pátio ferroviário mais antigo do país, datado de meados do século 19.

O Resiste Reis Magos, criado há cerca de um mês, opõe-se à demolição do Hotel Reis Magos, localizado na orla de Natal. O prédio, construído há quase cinco décadas e abandonado há duas, pode dar lugar a um estacionamento com 500 vagas, um shopping e um novo empreendimento hoteleiro. Um parecer favorável à derrubada, emitido pelo procurador da República Kleber Martins, tornou-se combustível para a mobilização. “O pessoal mais ativo do curso de arquitetura da UFRN tinha um grupo de assuntos gerais no Whatsapp. De uma hora para outra, ele se transformou em uma discussão sobre como salvar o hotel, considerado um dos ícones da arquitetura moderna no Nordeste”, conta o universitário e ativista Alain Souza, 25.

Fotos: Ian Miranda e Mujica Salinas/Divulgação

No Sudeste, em meio ao concreto abundante, foi a defesa de áreas verdes que mobilizou coletivos como o Ocupa Golfe, no Rio, e o Organismo Parque Augusta (OPA), na capital paulista. O primeiro surgiu no final de 2014, em um grupo no Facebook, como um desdobramento mais radical do Golfe para quem?. Ambos os movimentos contestam a construção de um campo de golfe no Parque do Marapendi, área de preservação na Barra da Tijuca. O projeto, que faz parte dos investimentos para as Olimpíadas de 2016, já tem licença da prefeitura, mas também está na mira da oposição e do Ministério Público. No final do ano passado, o vereador Renato Cinco (Psol) pediu a abertura de uma CPI para investigar o processo. Enquanto isso, o MP-RJ ajuizou uma ação civil pública para anular o licenciamento, paralisar as obras e exigir a recuperação dos danos ambientais.

Em São Paulo, é um parque de 25 mil metros quadrados na região central da cidade que mobiliza um grupo crescente de cidadãos desde meados de 2013. Na época aberto ao público, o Parque Augusta está no centro de uma disputa que envolve grandes construtoras, a Prefeitura Municipal e os moradores. “Tão logo as primeiras pessoas começaram a se reunir, foram criados instrumentos de comunicação online, que potencializaram muito a chegada de novos participantes”, conta a professora Mariana Ribeiro, 31. Desde então, o OPA organiza eventos e se mobiliza virtualmente para impedir que as construtoras proprietárias do parque ergam três prédios no local. A proposta é que, em vez disso, o espaço seja 100% público e com acesso irrestrito.

Basta lembrar que, poucos anos antes do surgimento deles, muitas mobilizações virtuais ficaram pelo caminho justamente pela incapacidade de tirar os ativistas do sofá. Agora, a dificuldade é tirá-los da grama. Pelo menos, no caso do Ocupa Golfe, cujos integrantes permaneceram acampados no Parque do Marapendi de 6 de dezembro de 2014 até o último dia 14 de abril, em um revezamento que envolveu, em média, de 10 a 15 pessoas. A ocupação foi uma tentativa de chamar atenção para os problemas denunciados na construção do campo de golfe, assim como ações de corpo a corpo na região, que incluíram panfletagem e flash mobs, conta o estudante de fotografia Ian Miranda, 20.

Fotos: Morvan França/Divulgação

Uma longa ocupação também marcou a história do Ocupe Estelita. Na noite de 21 de maio de 2014, alguns membros do movimento denunciaram, pelas redes sociais, o início da demolição dos antigos armazéns no cais. A notícia mobilizou outros apoiadores, que ocuparam o terreno durante a madrugada. Foram 28 dias consecutivos de acampamento até a reintegração de posse, em 17 de junho, quando a resistência se transferiu para os arredores por mais algumas semanas. Dentro e fora dos muros do cais, o coletivo organizou debates, aulas públicas e apresentações culturais. Com apoio de nomes como Criolo, Otto, Marcelo Jeneci e Karina Buhr, levou até 10 mil pessoas para shows gratuitos em defesa do cais.

Esse modelo de mobilização física também foi adotado pelo Organismo Parque Augusta e pelo Resiste Reis Magos. O movimento paulista — que também já recebeu e divulgou o apoio de diversos artistas de renome — promove pocket shows, aulas públicas e exibições de filmes seguidas de debates com os diretores, entre outros eventos que abordem a vida na cidade. “Entendemos que a comunicação é um braço que vai além de posts e curtidas. Desejamos criar e compartilhar conteúdo acima de tudo”, diz a gestora cultural Olga Torres, 33.

O coletivo potiguar, por sua vez, ainda está dando os primeiros passos na atuação offline. O segundo encontro dos ativistas em frente ao Hotel Reis Magos está programado para o próximo dia 25/4. A primeira edição, no final de março, reuniu mais de cem pessoas (segundo a imprensa local) e já combinou discussões arquitetônicas e históricas com manifestações artísticas e culturais.

Comissões formadas por ativistas especializados em determinadas áreas buscam o diálogo, pressionam e levam propostas a governos, entidades ligadas ao meio ambiente ou ao patrimônio histórico e artístico, Ministério Público e Judiciário.

O Ocupe Estelita e o Direitos Urbanos já acionaram a Justiça mais de uma vez. Os processos discutem, por exemplo, a necessidade de estudo de impacto do projeto Novo Recife e supostas irregularidades no agendamento de uma audiência pública e na condução de uma reunião do Conselho de Desenvolvimento Urbano. Além disso, os ativistas acompanham ações civis públicas propostas pelo Ministério Público e participam de audiências, assembleias e reuniões sobre o destino do terreno no Cais José Estelita.

Fotos: Pedro Sánchez/Divulgação

Terreno, aliás, que eles querem ver tombado para inviabilizar a construção dos edifícios. Depois de apresentarem o pedido ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e ao Ministério da Cultura, os integrantes do Ocupe Estelita vêm tentando conquistar adesão popular. “Após os contatos, um processo foi aberto, e um dos critérios é a valorização do bem pela sociedade. Então, estamos fazendo diversas campanhas para que mais pessoas se engajem na causa”, explica a advogada Luana Varejão, 27. Em março, ela e outros ativistas entregaram à direção do Iphan de Pernambuco mais de 11 mil assinaturas favoráveis ao tombamento, inclusive de movimentos sociais e do Ministério Público Federal. O “calhamaço” também foi viabilizado virtualmente, por meio de uma petição online disponibilizada na plataforma Change.org.

Em São Paulo, o OPA mantém um grupo de trabalho jurídico, formado, entre outras pessoas, por integrantes do movimento Advogados Ativistas (AA). A equipe está envolvida, por exemplo, em uma ação civil pública que pede a reabertura dos portões do parque pelas construtoras. No último dia 7, a Justiça determinou que, dentro de 30 dias, o acesso fosse liberado ao público, numa decisão que chegou a surpreender os membros do coletivo. “Foi uma das nossas maiores conquistas, porque foi reconhecido o interesse público da área, mesmo dentro de um espaço privado”, diz o advogado Luiz Guilherme Ferreira, 29.

O Resiste Reis Magos e o Ocupa Golfe mantêm-se mais distantes de questões legais e jurídicas. O movimento potiguar, segundo Alain Souza, é uma espécie de braço “publicitário” da luta pela preservação do hotel. Já os ativistas cariocas deixaram o trabalho de “gabinete” para os membros do grupo Golfe para quem?.

Facebook, Twitter, Instagram, Youtube, Whatsapp e outros espaços virtuais são, desde a origem, os principais meios de divulgação e mobilização dos ativistas.

No Recife, as redes sociais estiveram por trás de todos os atos públicos realizados pelo Ocupe Estelita. Diariamente, uma equipe de comunicação publica informes e divulga eventos na página do movimento nas redes sociais. Já o site do coletivo é atualizado com menos regularidade. Em geral, o processo se intensifica na iminência de acontecimentos relevantes ou quando há risco aos galpões do Cais José Estelita. “Como retornamos a um momento de possível demolição, após a aprovação de um plano urbanístico para a área do cais, reestruturamos a comissão de comunicação e voltamos a valorizá-la”, explica o estudante de jornalismo Pethrus Cavalcanti, 22.

As redes sociais funcionam também como a principal janela de exibição dos vídeos feitos por um grupo de cineastas engajados no Ocupe Estelita. “O objetivo é promover um debate que não interessa à mídia corporativa e aos grandes conglomerados de poder econômico e político”, afirma Pedro Severien. Até agora, foram produzidos e divulgados cerca de 15 filmes, a maioria no formato documentário (ou “documentário urgente”, como chamam os realizadores).

Exceção à regra foi “Recife, cidade roubada”, lançado em novembro de 2014 e consagrado como um dos marcos da mobilização. Com mais de 1,2 milhão de visualizações na página da revista Carta Capital no Facebook e de 80 mil acessos no YouTube, o filme foi idealizado como contraponto às propagandas do consórcio Novo Recife. “O ‘Recife, cidade roubada’ foi pensado como uma peça nessa luta midiática”, explica Severien.

Assim como no Ocupe Estelita, o risco também dita o ritmo na atuação do Ocupa Golfe. Durante os mais de quatro meses em que os ativistas estiveram acampados, o movimento adotou uma tática de cobertura permanente via Facebook, Twitter e Livestream (transmissão de imagens ao vivo). “Acho que podemos dizer que, sem a internet, seria 90% mais difícil. Usamos as redes sociais para pedir doações e, principalmente, para divulgar eventos, ameaças e repressões”, afirma Ian Miranda.

O Organismo Parque Augusta também tenta fazer um “link” constante entre as ações ou reuniões físicas e a mobilização virtual. Segundo Olga Torres, as decisões quanto aos rumos do movimento são tomadas semanalmente, em “assembleias abertas e horizontais”. As reuniões vêm acontecendo em uma casa na Rua da Consolação, mas devem voltar ao interior do parque, quando os portões forem reabertos. “Usamos os grupos de Facebook, Whatsapp e outras redes sociais como plataformas de comunicação e informes.” Outro canal importante é o site do OPA, que se destaca pela quantidade de artigos, notícias, convocações, programação, fotografias, vídeos e referências a articulações com objetivos semelhantes, como o Ocupa Golfe.

Já os integrantes do Resiste Reis Magos não pensam em criar um site próprio, porque consideram que as mídias sociais dão conta do recado. É através delas que o movimento vem se aproximando de outros grupos ligados a lutas urbanas, numa tentativa de formar uma articulação nacional. “Eu diria que essa rede já está se formando. Precisávamos de reconhecimento de outras entidades e coletivos para que a sociedade nos reconhecesse. Com isso, o diálogo está se iniciando”, diz Alain Souza.

As interações de ativistas em páginas e perfis nas redes sociais ligados às mobilizações elimina as distâncias e dissemina modelos de ação dos diferentes grupos. “Estamos mantendo um diálogo, trocando experiências e declarando apoio a alguns deles”, diz Luana Varejão, do Ocupe Estelita.

Essa história foi escrita pelo jornalista Tiago Cisneiros, colaborador do Eder Content no Recife (PE), com edição de texto da jornalista Andréia Lago e design gráfico da jornalista Juliana Karpinski.

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