Velhas Virgens: 155 mil CDs e DVDs vendidos/Foto: Divulgação

A música independente avança no País com o impulso da internet, custos menores de produção e venda direta ao público.

Quem diria, há alguns poucos anos, que a música independente seria responsável por um em cada quatro CDs e DVDs vendidos no Brasil atualmente? O que era impensável há bem pouco tempo ganhou terreno junto com a internet. O uso eficiente de redes sociais, a diminuição dos custos de gravação e produção e a possibilidade de vender diretamente para o próprio público tem facilitado muito a vida de artistas independentes espalhados pelo País, sejam eles novatos criados na era da música digital e do download ou veteranos dos tempos do gravador de rolo e da fita demo.

Os cases de sucesso pipocam por todas as partes. A banda paulistana Velhas Virgens, por exemplo, aproxima-se dos 30 anos de estrada autointitulando-se a maior banda independente de rock do Brasil. Já os curitibanos do Blindagem, depois de terem saído por grandes gravadoras na década de 80, trabalham agora no primeiro disco de músicas inéditas em 18 anos prestando contas apenas a si mesmos.

Levantamento realizado em 2012 pela Associação Brasileira de Música Independente (ABMI) estimava o mercado de CDs e DVDs independentes no País em 3,7 milhões de unidades naquele ano, o que equivale a pelo menos R$ 42 milhões. Essa, contudo, era a estimativa pessimista. Os dados levantados no estudo coordenado por Davi Nakano basearam-se em informações disponíveis de 340 gravadoras sobre mais de 5.800 artistas com 12 mil títulos em catálogo, sem se ater a estilos musicais específicos.

A pesquisa de 2012 é a última disponível sobre o tema e os dados não foram atualizados desde então. O fato é que antes da consolidação da internet, era impensável um avanço tão grande das gravadoras independentes, ainda mais em um país de dimensões continentais onde as cenas independentes locais são fragmentadas e têm dinâmicas distintas entre si. Com a rede à disposição, os cases de sucesso deixaram mais e mais de depender do acaso ou de bons relacionamentos e passaram a depender mais do suor e da dedicação dos artistas.

ROCK, LINGERIES E CERVEJA

Em 2005, a banda Velhas Virgens atingiu a marca de 100 mil CDs vendidos. Dez anos depois, sem acesso a grandes gravadoras, as Velhas ostentam um portfólio de 14 CDs, com 140 mil vendidos, cinco DVDs (com 15 mil vendidos e o sexto prestes a sair do forno), uma grife com camisetas e lingeries, dois livros, acessórios e até uma marca própria de cerveja desenvolvida pelo baixista Tuca Paiva, com 150 mil garrafas vendidas até o fechamento desta matéria.

Reprodução

Um exemplo claro de que a internet melhorou a vida das bandas independentes foi o financiamento do mais recente CD das Velhas Virgens. Todos os Dias a Cerveja Salva a Minha Vida, foi bancado na íntegra pelos fãs por meio de financiamento coletivo e superou, com folga, a meta de arrecadação. Foi o segunda vaquinha eletrônica das Velhas. Na primeira, em 2011, nasceu o CD comemorativo dos 25 anos da trupe, gravado em Porto Alegre.

O vocalista Paulo de Carvalho, mais conhecido como Paulão, não fraqueja quando afirma que as Velhas Virgens são a maior banda independente de rock do Brasil. “Tem muita banda maior, mas não é tão independente e tampouco há tanto tempo. Tem muita banda independente de fato, mas não é maior. Nem de rock. Ninguém está dizendo que somos os melhores, ainda que estejamos entre eles. A questão é tamanho. Qualidade fica por conta de quem ouve.”

HEROÍSMO NÃO RIMA COM FRACASSO

Declarar-se independente confere um certo ar de heroísmo a qualquer banda, especialmente de rock. No cenário musical brasileiro, porém, a independência costuma flertar mais com a falta de alternativa do que com uma opção de quem trilha esse caminho (ressalve-se que isso passa longe de ser sinônimo de fracasso).

A banda curitibana Blindagem é um caso raro de sobrevivência nesse cenário. À época do surgimento, fim dos anos 1970, a única alternativa disponível aos artistas para trabalhar com música era tentar um contrato com uma grande gravadora. Sem esse vínculo, era preciso muito dinheiro para bancar bons instrumentos, despesas de estúdio e impressão dos discos de vinil, recorda o baterista Ruben “Pato” Romero - sem contar divulgação, distribuição e outros gastos que só a estrutura e influência de uma gravadora poderiam bancar. “Sem gravadora não existia condição de estar no mercado”, resume Pato.

Blindagem: Das grandes gravadoras à independência/Foto: Angelita Muxfeldt/Divulgação

O Blindagem gravou discos por gravadoras como Continental e PolyGram e chegou a mudar-se de Curitiba para o Rio de Janeiro, sede de quase todas as grandes gravadoras de então, para ficar mais perto do burburinho. Com o passar dos anos, porém, o rock ficou em segundo plano no interesse comercial das grandes gravadoras e o Blindagem precisou aprender a se virar. “Isso aconteceu de modo quase natural, principalmente por questões de mercado. A internet oferece hoje um monte de possibilidades de trabalho por conta própria, assim como divulgação e distribuição”, diz o baterista.

Para gravar discos e DVDs a banda investiu em parcerias alternativas e a agenda de shows ficou mais restrita à região Sul. Em 2010, com a morte do vocalista e letrista Ivo Rodrigues, um novo baque. O novo teste de resistência resultou no primeiro trabalho com músicas inéditas em 18 anos, que deve ser lançado ainda em 2015.

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SER OU NÃO SER

Ao contrário do Blindagem, as Velhas Virgens nunca chegaram a conseguir contrato com uma grande gravadora. A banda chegou a sair por selos minúsculos, independentes, em seus dois primeiros trabalhos de estúdio, mas não passou disso. Em 1999, quando veio $r. Sucesso, o terceiro CD das Velhas, as alternativas eram independência total ou morte. “Era partir para a produção independente ou arrumar as coisas, vender os equipamentos e ir pra casa de rabinho entre as pernas”, resume Alexandre Cavalo Dias, guitarrista e cofundador das Velhas Virgens.

Sem alternativa e certeza nenhuma, a banda transformou a independência forçada em um case de sucesso. Um trabalho foi puxando outro. Um show bem feito e sem transtornos era garantia de retorno a uma casa ou a uma cidade distante. Do Rio Grande do Sul ao Pará, as Velhas só não tocaram nos Estados do Acre, Alagoas, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Piauí, além do Amapá. Até agora. Fora do Brasil, já tocaram na Argentina e Paraguai.

O site argentino IndieHoy, dedicado à cena cultural independente no país vizinho e também em outras partes da América do Sul, publicou em setembro de 2014 uma lista indicando sete bandas ou artistas brasileiros alternativos que valiam a pena ser conhecidos por seu público. Entre elas, estavam as Velhas Virgens, na companhia de Matanza, Wander Wildner, Mombojó, Jumbo Elektro, Apanhador Só e Do Amor.

Matanza, Wander Wildner, Mombojó e Jumbo Elektro/ Fotos: Divulgação

É preciso questionar então: o que é ser independente na cena musical? Ninguém é totalmente independente, por exemplo, debaixo do guarda-chuva de uma grande gravadora. Também não entra na conta selo independente quem paga jabá para tocar no rádio ou aparecer na TV - prática nebulosa que dez entre dez executivos do meio negam existir. Independência requer práticas alternativas, vender o almoço para garantir a janta.

Por mais que as vendas de CDs e DVDs sejam um parâmetro interessante para mensurar o sucesso ou fracasso comercial de um artista, para a sorte da maioria, músicos não vivem disso. O que sustenta um artista - e traz não apenas dinheiro, mas também visibilidade - é a estrada. Para bandas independentes, isso quer dizer emendar uma turnê na outra. As Velhas Virgens quase não saem da estrada: fazem em média mais de 70 shows por ano, que pode ser numa esquina, para 300 pessoas, no Lolapalooza para 10 mil, ou na Virada Cultural Paulistana, para mais de 50 mil.

O grande terror para qualquer banda de rock, grande ou pequena, é o período entre as festas de fim de ano e o carnaval, quando a demanda por shows de rock cai de maneira drástica. Se a banda não tiver feito um pé de meia ao longo do ano, a complicação financeira é quase inevitável. No caso das Velhas, a solução encontrada não é nada ortodoxa, mas garante o fluxo de shows. Eles misturaram rock com marchinhas de carnaval, o que resultou em três edições dos CDs Carnavelhas e dezenas de shows em meses em que outras bandas ficam em férias forçadas. “Com o Carnavelhas, nosso ano começa no reveillón”, afirma Paulão. Os fãs mais puritanos torcem o nariz, mas o fato é que o show tem demanda, a banda permanece em atividade e ainda garante o ganha-pão.

MUDANÇA DE TÁTICA

Da mesma forma que as mudanças ocorridas no mercado musical sacudiram os artistas, as grandes gravadoras também foram obrigadas a se mexer. Os artistas que antes mandavam fitas demo hoje enviam links para arquivos digitais ou vídeos na expectativa de serem ouvidos. Já os olheiros, que antes percorriam as cenas musicais em busca de talentos, prestam cada vez mais atenção ao que faz barulho na internet ou concursos televisivos e reality shows. Os exemplos mais emblemáticos dessas situações nos últimos anos foram a cantora Anitta e a banda Malta.

A carioca Anitta foi descoberta por causa do sucesso de um vídeo publicado no YouTube. Hoje tem um contrato com a Warner Music, incursões maciças nas rádios e presença constante em programas de auditório. Já a banda paulistana Malta, grupo formado em 2013 por quatro jovens paulistanos que se apresenta como uma banda de pop rock, venceu a primeira edição do programa SuperStar, da Rede Globo. Da vitória no reality derivou um contrato com a Som Livre e a música trilha da novela global das sete.

“Nada disso acontece ao acaso”, avalia “Pato” Romero. Ele afirma que existe uma agenda planejada, e que as grandes gravadoras continuam tendo forte influência na mídia. “Elas ainda controlam os meios de determinar o que vai ser ou deixar de ser sucesso.”

Esta história foi escrita pelo jornalista Ricardo Gozzi, com edição de texto de Andréia Lago, fotos de divulgação, edição de imagens de Cacalos Garrastazu e design gráfico de Juliana Karpinski.

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