A cidade de Aarhus saiu do anonimato com um programa inovador de recuperação de extremistas. Foto: Júlia Mandil

Jihadistas em reabilitação

Jovens que deixam para trás família, amigos e escola e se juntam a grupos extremistas de países em conflito. Para a maioria, uma ameaça. Na Dinamarca, um problema social com direito à recuperação.

O reino da Dinamarca, onde os habitantes são coroados com o título de mais felizes do mundo, costuma ser líder nos rankings de segurança e bem estar social. Nos últimos anos, porém, o país escandinavo passou a figurar entre os primeiros em uma nova categoria: a de estados europeus com maior número de jovens a se juntar às guerras na Síria e Iraque. Desde 2013, mais de cem dinamarqueses, a maioria muçulmanos, fizeram as malas e partiram rumo aos combates. Autoridades estão em alerta temendo que, na volta, tragam o radicalismo na bagagem. Apesar do medo, a estratégia não é recebê-los como suspeitos. Ao invés de prisão, a ordem é reabilitação.

Contra o extremismo religioso, a solução é restaurar a fé na sociedade. Esta é a tática do programa de prevenção à radicalização e discriminação de Aarhus, segunda maior cidade da Dinamarca. Por lá, 31 dos 315 mil habitantes viajaram para a Síria nos últimos anos. A maioria homens, muçulmanos, com idades entre 15 e 25 anos. Polícia e prefeitura trabalham juntas para monitorar aqueles que voltam ou que pretendem ir para a guerra. E para os que acreditam que radicalismo pode não ser o melhor caminho, essa espécie de rehab acolhe e acompanha esse jovem de volta à sociedade.

A ideia por trás do projeto, conhecido como “modelo Aarhus”, é fazer uma abordagem amigável, mas firme. Familiares, amigos e vizinhos são incentivados a reportar às autoridades quando percebem algum comportamento estranho, como atitudes violentas ou opiniões radicais. A partir daí, um grupo de especialistas começa a investigar cada caso e inclui o jovem no programa.

Polícia e prefeitura começaram a parceria em 2007, com um trabalho voltado ao combate da radicalização e discriminação entre jovens de até 18 anos. Os casos atendidos desde que o projeto foi implementado são tão extremos quanto às causas: de gangues de direita até membros da comunidade somali que deixavam a Dinamarca para lutar com o grupo extremista Al-Shabab.

Em 2009, este e outros projetos similares de prevenção e integração realizados no país receberam investimento da União Europeia. Foi com esta ajuda que o projeto de Aarhus conseguiu definir novas estratégias para atender às necessidades e desafios específicos de cada conflito, além de reforçar a equipe, hoje composta por um grupo de 20 pessoas.

O caso da Síria é o mais recente a chamar a atenção das autoridades e exigir um método específico para lidar com os envolvidos. “Queremos oferecer a essas pessoas a chance de se reabilitar e voltar para a vida cotidiana”, afirma o prefeito de Aarhus, Jacob Bundsgaard.

Sede da polícia em Aarhus. Cooperação com prefeitura para combater extremismo acontece desde 2007. Foto: Júlia Mandil

Porta de entrada

A inclusão no programa é feita aos poucos. Primeiro, uma equipe da prefeitura recebe as denúncias de potenciais candidatos. Após investigação, é feito o primeiro contato com o jovem, através de familiares ou de trabalhadores da prefeitura que atuam como uma espécie de assistentes sociais. Este primeiro encontro ajuda a entender as especificidades de cada caso e definir as etapas e metas a serem atingidas, incluindo o tipo de ajuda necessária, como psicólogos ou médicos, por exemplo. Há uma linha tênue entre obrigação e participação voluntária. Para as autoridades, o sucesso do programa depende da disposição de cada um em colaborar e receber ajuda.

Etapas desta reabilitação incluem conversas com psicólogos, ajuda com tarefas da escola e até grupo de apoio para familiares que, em muitos casos, ajudam a polícia avisando do retorno dos filhos. Além disso, mentores acompanham cada um dos jovens, fazendo o papel de guias nas conversas e, principalmente, oferecendo um ombro amigo.

“É sempre importante estabelecer uma boa relação primeiro”, afirma Lars*, um dos 10 mentores que atualmente fazem parte do programa. Desde o ano passado ele acompanha um adolescente que planejava ir à Síria por acreditar que se unir aos combatentes era a única maneira de mostrar sua fé. “Eles têm um olhar meio ingênuo sobre o que vão fazer por lá”, conta Lars. Entre idas ao cinema e goles de café, o mentor começou a conversar com o rapaz sobre ideologia e islamismo na tentativa de apresentar novas perspectivas sobre o tema. Meses de diálogo mudaram as intenções do jovem, que decidiu ficar na Dinamarca. “Aquilo foi um marco”, comemora.

Quem também celebra os resultados do programa é Toke Agerschou, chefe da seção de serviços sociais da Prefeitura de Aarhus. Para ele, a redução do número de jovens com destino à Síria — 30 em 2013 e apenas um em 2014 — é fruto dessas ações. “O cerne do programa é a porta de entrada, mas oferecemos ajuda das mais diversas formas, dependendo da situação de cada um.”

Aos extremistas, a lei

Se, por um lado, o risco do extremismo vindo de fora diminuiu, os recentes ataques em Paris (França) e Copenhague (Dinamarca) serviram de alerta para o aumento do extremismo interno. Para Allan Aarslev, comissário da polícia de Aarhus, os atentados dão força às ações de prevenção desenvolvidas no programa. “São jovens com uma situação delicada que entram em contato com o radicalismo”, afirma. Segundo ele, estão sendo discutidos planos para expandir o programa para Copenhague e também para a embaixada dinamarquesa em Beirute (Líbano), a mais próxima dos conflitos no Oriente Médio.

Para Aarslev, diálogo honesto com jovens é essencial para o sucesso do programa. Foto: Júlia Mandil

Apesar dos bons resultados, não faltam críticas ao projeto. A principal delas tem como alvo a abordagem do programa, descrita por jornais e políticos como sendo muito leve para um assunto de segurança nacional.

O modelo de Aarhus contrasta com o tom severo adotado pelo governo ao anunciar, no último dia 19, um pacote de medidas anti-terroristas que prevê investimento de quase um bilhão de coroas dinamarquesas (cerca de R$400 milhões) que incluem medidas para reforçar vigilância da polícia secreta dinamarquesa e aumentar tropas. Para o comissário Aarslev, críticas quanto à abordagem do programa são uma descrição precária do trabalho que vem sendo feito. Segundo ele, não se trata de uma abordagem amigável no lugar da punição, mas sim uma combinação das duas. É a estratégia possível dentro dos limites da lei, ressalta.

A legislação dinamarquesa não proíbe idas e vindas de pessoas da Síria e não há ordem para prender alguém ou confiscar o passaporte até que se prove um ato ilegal. “Se não for possível punir essas pessoas de acordo com a lei, é melhor ajudá-las. Sozinhas e desamparadas elas podem se tornar um risco”, acredita o comissário.

Protestos contra o grupo Estado Islâmico em Aarhus, Ao fundo, um dos cartões postais da cidade. Foto: Júlia Mandil

Questão de equilíbrio

Quando se trata de jovens jihadistas, que enxergam o conflito pelas lentes da religião, é difícil entender como uma abordagem pragmática pode ser tão eficaz. A questão é especialmente relevante considerando que trata-se da sociedade dinamarquesa, com uma comunidade islâmica que só não é maior que a cristã, mas onde religião não ultrapassa os limites do secularismo.

Nas conversas com os jovens de Aarhus que atualmente recebem acompanhamento de mentores, o objetivo não é afastá-los da religião, explica Lars, mas encontrar um equilíbrio entre este e outros aspectos da vida, como família e amigos. “Nossa preocupação é a religião tomar conta da vida destas pessoas de uma maneira que se torne destrutiva”, afirma o mentor.

Na Dinamarca, integração de imigrantes avança a passos lentos. Foto: Júlia Mandil

Para fazer a ponte, o programa passou a dialogar com líderes da comunidade muçulmana em associações de jovens e, principalmente, na única mesquita salafista de Aarhus, considerada a mais radical.

Para além da questão religiosa, na Dinamarca políticas de prevenção ao extremismo são tratadas como um problema social. Na visão de Emily Bech, pesquisadora da Universidade de Aarhus, o modelo acerta ao tratar o radicalismo pelo viés da integração. Há nove anos no país, Bech afirma que suas pesquisas com imigrantes mostram que inclusão e discriminação são peças importantes neste quebra-cabeça. “O que eu percebo é que a experiência de não se sentir aceito ou de não se ver em pé de igualdade com o outro é um fator importante para a não-identificação com a sociedade”, afirma a pesquisadora.

Apesar de não ver uma relação direta entre a exclusão e o radicalismo, ela afirma que os dois aspectos estão de alguma forma relacionados. Essa também é a percepção de Lars em seu trabalho como mentor dos jovens do programa. “Existem fatores sociais e um deles é o sentimento de exclusão. Eles não se sentem parte da sociedade, não têm sentimento de companheirismo”, conclui a pesquisadora.

Na visão da pesquisadora, programa acerta ao usar viés social. Foto: Júlia Mandil

A integração de imigrantes muçulmanos se dá a passos lentos na Dinamarca, mas está avançando, afirma Bech. Um dos desafios, segundo a pesquisadora, é o fato de o país ter uma cultura baseada em valores e tradições que muitas vezes colidem com valores e práticas da fé islâmica. “Numa sociedade em que o secularismo é tão forte, pode ser difícil entender como algumas pessoas podem considerar sua crença algo tão sagrado.”

Exemplo desse choque cultural são as divergências em torno da liberdade de expressão. Para muitos dinamarqueses, o termo significa não apenas falar o que se pensa, mas também não se restringir por medo de possíveis ofensas ao outro. Isso ajuda a entender o porquê do país, visto como pacífico, volta e meia se ver imerso em conflitos como o episódio da crise gerada pela publicação das charges do profeta Maomé pelo jornal Jyllands-Posten, em 2006.

A honestidade típica e o pragmatismo comum entre os dinamarqueses pode, muitas vezes, ser a causa de um grande conflito, ou ser justamente a solução. Para o comissário Aarslev, a sinceridade é uma das razões pela qual o programa dá certo, pois ajuda a ganhar a confiança dos jovens. “Nós não escondemos nada deles”, explica Aarslev. “Nós dizemos: se você violou a lei e nós provarmos, você vai preso. Mas nós também gostaríamos de te ajudar.”

*nome fictício para preservar a identidade do entrevistado.

Esta história foi escrita pela jornalista Júlia Mandil, colaboradora do Eder Content na Dinamarca, com edição de texto de Dimalice Nunes, edição de imagens de Cacalos Garrastazu e design gráfico de Juliana Karpinski.

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