Violentango incorpora baixo e bateria e é primeira banda de tango a participar do Glastonbury Festival (UK). Foto: David Lescano

Como outras músicas de raiz, o tango argentino se renova e vira o campo favorito de experimentação dos músicos de vanguarda. Atualize a sua playlist.

Durante muito tempo o tango foi “coisa de velho”, cheio de poeira e sem chance com as novas gerações. Não é mais assim. Hoje, há pelo menos 150 grupos de tango contemporâneo em Buenos Aires, muitos deles compondo com arranjos e letras próprias e unidos em diferentes formatos, de trio de cordas a orquestras inteiras. Quem chega à cidade atrás de clássicos como La Cumparsita e Por una Cabeza vai se surpreender. Há um novo top 10 na roda.

A atual cena tangueira é meio underground, escondida até mesmo da maioria dos argentinos. Mas vale a pena procurar por esses novos sons, que agora se permitem namoros com o blues, o fado, o punk, o jazz e até com a música de câmara.

As letras também se renovaram. Contam outros dramas, como se pode ver em Tango Palestino e Hacia las Cenizas, sobre o incêndio na boate Cromañon. Podem vir pelas mãos do roqueiro Índio Solari, que recentemente compôs para o orquestra Ciudad Baigón, mas também de um texto mapuche (povo originário da Patagônia) anônimo, como no caso do Cuarteto Coviello. Ou seja, pode tudo. Tangueiros tradicionais torcem o nariz, como fizeram anteriormente com Astor Piazzolla: muito lindo, mas isso não é tango!


A nova geração não está nem aí. “O nível de tradição e enraizamento do gênero faz com que muita gente seja reativo ao que não é familiar. Se o tango não é o que eles imaginam como cartão-postal, levantam e vão embora. É normal. Mas a melhor homenagem que podemos fazer aos clássicos é colocar o tango para andar para frente”, diz Agustín Guerrero, diretor da orquestra que leva seu nome.

Guerrero compôs seu primeiro tango aos 10 anos. Aos 11, formou sua primeira orquestra, La Branquita, deixando todo mundo de queixo caído. Aos 16 foi pianista da Orquestra Típica Cerda Negra, grupo formado por músicos com média de 20 anos. Hoje, com 26 anos, acaba de lançar o segundo disco, exclusivamente de tangos próprios ou de autores contemporâneos. O nome não podia ser mais apropriado: XXI.


Atrás do tango de raiz

Um dos tango mais clássico de Carlos Gardel, Volver, diz que “20 anos não é nada”. Mas foram necessárias pelo menos duas décadas para tirar o cheiro de naftalina do tango. Quem conta esta história é o jornalista Andrés Casak, apresentador do programa de rádio Ayer, Hoy, era Mañana, totalmente dedicado ao tango atual. “A primeira fase, nos 1990, foi de resgate dos tangos tradicionais, de gente jovem reaprender o gênero que nunca os havia tocado. Músicos que hoje estão na faixa dos 40 anos foram buscar as partituras nos baús dos avós e aprender com os maestros da velha guarda.”

O movimento é muito similar ao que aconteceu com o samba e o fado. O pianista Julián Peralta, um dos pioneiros desse movimento e diretor da Orquestra Astillero, acrescenta que “voltar a fazer tango de raiz também foi um ato de resistência à globalização e a tudo que representava o governo de Carlos Menem”.

Os grupos que surgiram naquela época eram bem fundamentalistas. Inspiravam-se e tocavam exatamente como as formações dos anos 1940, a chamada Época de Ouro do tango. “Foram buscar o gênero em suas formas clássicas, que é o lugar onde todos nos nutrimos”, acrescenta o compositor e pianista Diego Schissi, à frente do quinteto que leva seu nome. Schissi faz hoje, como ele diz, um “tango improvável”, quase jazzístico. “É que para mim é antes de tudo música, depois tango, depois Argentina, mate e doce de leite”, ironiza.

Sob a batuta de Peralta, Astillero grava o primeiro CD com temas próprios, em 2005, e instala o “tango de ruptura”. Foto: Astillero Tango

Neste primeiro período, foi vital a criação das orquestras-escola, que começaram a formar as novas gerações e convidaram os músicos mais antigos para dar aulas magistrais e concertos didáticos. “Na época a nova geração já tinha se dado conta de uma coisa: só as partituras não adiantavam, era preciso saber os truques, como os golpes no contrabaixo, e resgatar a transmissão oral, insubstituível”, completa Casak.

O tango sai para a rua

Mas de que adiantava tocar tango, se ninguém escutava? A pesquisadora Victoria Polti, autora do estudo Tangos de Hoy: 25 años luego de la siesta?, acrescenta que os músicos tiveram que invadir as ruas e as praças para ganhar a atenção do público. Especialmente dos jovens, que não iriam entrar nunca numa tangueria e identificavam o estilo musical como demodé. “Orquestras como a Fernández Fierro agarravam os instrumentos — o piano inclusive — e iam todos os fins de semana para San Telmo para ver se alguém lhes dava atenção. Funcionou.”

A partir de 2000, o número de grupos e orquestras de tango começou a crescer de forma exponencial em Buenos Aires e surgiram a Orquestra Típica Emílio Balcarce, El Afronte, La Vidú, Ciudad Baigón, China Cruel e La Siniestra, para citar alguns. Em 2005, outra novidade: Julián Peralta criou a orquestra Astillero e lançou o primeiro disco composto inteiramente por tangos novos. “Foi um risco e um ponto de inflexão que abriu caminho para novas bandas e marcou o início da segunda fase do tango contemporâneo”, diz. Começava o que alguns chamam de “tango de ruptura”.

El Afronte e Orquestra Vitória têm endereço fixo: a Maldita Milonga, em San Telmo, e a Milonga del Vinilo, em Palermo. Fotos: Divulgação
Julio Coviello e Amores Tangos estão em seus segundos discos: Llegaron e Altamar. Fotos: Divulgação

Não apenas a música começou a ser diferente, mas também o jeito de cantar e de se vestir. A Orquestra Fernández Fierro foi uma das pioneiras. Além de surgirem num palco cheio de luz e fumaça, o visual era roqueiro — um dos bandeonistas com um cabelo rastafari gigante e o cantor de óculos escuros. A forma de tocar era quase punk, uma revolução, uma ousadia mesclar tango com Ramones.

O circuito off — onde é que fica?

No entanto, foi o jeito de se organizar que começou a mudar o cenário. As orquestras, ignoradas pelo mercado convencional , criaram espaços autogeridos. Ou seja, ganharam endereço fixo. E assim nasceu um circuito off, formado por uma série de salas, ciclos e festivais que dão respaldo à nova cena.

Anotem na agenda para a próxima viagem a Buenos Aires: o Club Atletico Fernández Fierro, o Teatro Orlando Goñi (onde tocam Astillero, Ciudad Baigón e outros grupos) e o Café Vinillo são uma boa introdução ao circuito. Assim como os bares Los Laureles (bairro de Barracas), El Faro (Vila Urquiza) e Sanata (Almagro). Para quem está no Brasil, dá para sintonizar essa onda em alguns programas da Rádio 2x4 e no programa Fractura Expuesta, ambos online.

Muitas das novas orquestras tocaram no “milongão” durante o Mundial de Tango, em 2014, ganhando mais visibilidade. Foto: Governo de Buenos Aires/Mundial de Tango

Outra dica são as milongas animadas com música ao vivo. Vários grupos apostam neste formato, como El Afronte, Andariega, Mal Llevado, Sexteto Fantasma, Orquestra Victoria e Amores Tangos. Algumas são fixas, outras itinerantes. O jeito é segui-las nas redes sociais para acompanhar a programação.

Casak explica que as milongas autogeridas têm sua própria dinâmica. Estão organizadas em cooperativas, têm preços acessíveis e costumam começar com uma aula de tango, seguida da exibição da orquestra, muitas vezes com convidados. A propaganda é feita nas redes sociais e no boca a boca. “É muito sintomático. Na falta de uma indústria que os apoie, os músicos de tango do circuito alternativo precisam ser também produtores, gerar ideias, unir projetos.”

A orquestra El Afronte, que se apresenta três vezes por semana em San Telmo, é um bom exemplo. “Na nossa milonga os 11 integrantes fazem tudo. Armamos e desarmamos o palco e as mesas, encaramos a divulgação, nos responsabilizamos pelas reservas”, diz o cantor Marco Bellini. A Fierro também optou pelo sistema cooperativo. Edita seus discos de maneira independente e administra seu próprio espaço.

Essa independência do mercado foi inspiradora para os tangueiros. “Tem gente que diz que a gente faz tango off, tango novo, tango contemporâneo. Mas talvez a melhor definição seja tango livre”, completa Agustín Guerrero.

As novas letras

Na outra ponta, as letras evoluíram em ritmo mais lento que as músicas, um fenômeno que começou há apenas cinco anos e está sintetizado no disco Un disparo en la noche. Reúne uma orquestra dirigida por Peralta e 12 músicas originais, cantadas por 12 vozes novas. O disco pode ser escutado na íntegra aqui. O DVD também está na internet.

Esta obra expõe o que há de mais representativo da nova cena tangueira e é um bom começo para entender o que se passa em Buenos Aires. “Há algo de resistência, de quixotesco nestes tangos que não buscam fama, mas que representam com dignidade o novo do gênero”, diz o fundador da Orquestra Astillero.

Uma das músicas mais emblemáticas se chama Vuelve el tango, de Jorge Alorsa Pandelucos, líder de La Guardia Hereje, falecido em 2009, aos 39 anos. E resume em uma linha o que foi dito neste texto: Vuelve el tango. Alguien lo dio por muerto/ ¡Que locura! Era siesta nomás la que dormía.

A Fernández Fierro foi a pioneira em levar para os shows de tango uma pegada mais roqueira: luzes, fumaça e muita energia. Foto: Yoko Grafias

Esta história foi escrita pela jornalista Gisele Teixeira, do blog Aquí Me Quedo, com edição de texto de Dimalice Nunes, edição de imagens de Cacalos Garrastazu e design gráfico de Juliana Karpinski.

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