Imagine funcionários públicos uniformizados que circulam nos bairros para oferecer proteção e ajuda aos moradores. Sim, ele existe, e não espera gorjeta.

Procure a palavra sereno no dicionário. Surgem definições como calmo, tranquilo, aquele que mostra serenidade de espírito. Também aparecem substantivos como relento, orvalho, aquele tênue vapor atmosférico que cai à noite. E ainda: guarda noturno que percorria as ruas na Espanha. É essa figura, do século XVIII, que foi resgatada pelas autoridades da capital do Peru e circula uniformizada pelos distritos de Lima 24 horas por dia.

A presença do sereno remete aos pequenos municípios do interior, um cuidado que não se vê mais nas caóticas capitais. “Me dá muita tranquilidade quando os vejo passando na minha rua, me sinto protegida”, conta a ceramista Maria Helena Gimenez, de 63 anos, que vive há três décadas num distrito de classe média de Lima.

Esses funcionários municipais contratados por cada distrito de Lima para zelar pelo bairro e pelos seus moradores exercem principalmente os papéis de guardião e amigo. Armados apenas de rádio portátil e apito, são facilmente identificados pelo colete, que pode ser amarelo, preto ou azul, de acordo com o distrito a que pertencem. Circulam pelas ruas e parques da cidade a pé, de bicicleta, de caminhonete, carro, moto ou segway, aquele carrinho de duas rodas em que o condutor fica em pé.

Jorge Benique, sereno de San Borja, e Julia Chávez, do distrito de San Isidro

Cada um dos 43 distritos de Lima tem o seu serenazgo, que é a área de atuação dos serenos. Eles só podem agir nos bairros em que trabalham, no entanto existem aqueles que fazem parceria e entram no distrito vizinho para perseguir um bandido, por exemplo. Em toda a cidade, são milhares de funcionários públicos circulando com a exclusiva missão de zelar pela segurança e bem-estar dos limenhos.

Quanto mais arrecada o distrito, mais equipado será seu serenazgo. Na orla da capital peruana, banhada pelo Pacífico, em alguns parques dos bairros de Miraflores e San Isidro, de classe média alta, e também em avenidas importantes há serenos que circulam de segway.

Despertador colonial

Tão singelo quanto importante, o ofício dos serenos é herança dos colonizadores espanhóis. O registro dos primeiros vem do século XVIII, quando eles percorriam as ruas à noite e, durante o percurso, anunciavam as horas com entonação musical. Era costume dos moradores da época deixar pedrinhas na porta de casa para indicar o horário em que o sereno deveria despertá-los: quatro pedrinhas era um recado para acordar às quatro horas.

No Peru, o serenazgo chegou no período colonial (1542–1821) com as mesmas características espanholas. Ele se vestia de maneira simples, conta o historiador e professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) Juan Luis Orrego, e começava seu turno às 7 da noite. Durante a ronda, parava nas esquinas e soava uma buzina de barro em formato de passarinho. Às 10 da noite anunciava em voz alta - ou até mesmo cantava - as horas que apareciam nas torres das igrejas. “Contam as crônicas da época que a estrofe com três versos ‘Ave Maria puríssima, deram dez horas, viva o Peru e o sereno’ era repetida de hora em hora até as 5 da manhã”, diz Orrego.

Só mais tarde começaram a receber salários e verba para o azeite da lamparina. Hoje, em Lima, a remuneração de um sereno varia de 1.000 a 2000 soles - cerca de 860 a 1.120 reais. Além disso, os serenos agregam outras funções atualmente. No distrito de San Borja, na região sudeste da capital peruana, o serenazgo ajuda moradores e polícia, afirma o gerente de trânsito e segurança da cidadania, Hugo Niembro-Prieto Garcia, que administra 700 serenos de ambos os sexos. “Se um sereno não der bom dia, boa tarde e boa noite, não serve para essa função”, diz ele, mostrando que o cuidado com as pessoas é tão importante quanto a preservação dos bens públicos e privados.

No grupo, há funcionários que atuam numa central de emergência que monitora as câmeras de segurança das ruas do bairro e atende chamadas telefônicas dos moradores. Outros, cobrem áreas mais perigosas e há ainda o grupo sombra, que circula à paisana para atender as ocorrências de roubos de carteira e celular. Os que vão às ruas de San Borja podem ser vistos caminhando a pé, de bicicleta, carro ou moto.

Em distritos mais pobres e perigosos, como Rímac - bairro histórico e central da capital peruana - eles fazem a ronda somente de carro e moto. “Sempre são dois serenos e um policial no carro, para garantir a própria segurança, e a moto é para ações rápidas em situações suspeitas”, diz o morador Jorge Cruz, de 39 anos. Uma pesquisa realizada em 2012 pela organização não-governamental (ONG ) Ciudad Nuestra, especializada em segurança da cidadania, identificou que Rímac é o distrito mais violento da província de Lima, seguido das regiões localizadas ao sul da capital.

O distrito mais seguro é San Borja, seguido de San Isidro e Miraflores. Em Rímac e outros distritos da periferia, os serenos têm de se desdobrar para cumprir seu trabalho e há muita rotatividade. “São poucos serenos em Rímac. Eles não permanecem no posto porque recebem pouco e com muito atraso”, lamenta Cruz.

No detalhe, as "armas" do serenazgo: bicicleta, colete, apito e rádio de comunicação

Mil e uma utilidades

Na central de emergência do serenazgo chegam pedidos de todos os tipos. Já imaginou viajar e pedir que sua casa seja vigiada por um funcionário municipal durante sua ausência sem custo adicional? Em Lima, basta avisar à prefeitura do distrito com antecedência e pedir que o serenazgo faça uma ronda na sua residência. “Só no último Natal foram 298 pessoas que pediram essa proteção”, diz Garcia, do distrito de San Borja.

O cuidado com os moradores do bairro se estende a atividades bem mais prosaicas. “Se uma senhora precisa levar a mãe que utiliza cadeiras de rodas ao médico, ela liga para a central e o serenazgo vai ajudá-la. Depois, auxilia também no retorno”, conta o gerente de trânsito e segurança de San Borja. Ele descreve os moradores do distrito como “pessoas bem especiais”: 70% são idosos e, muitas vezes, o serenazgo precisa atuar como mediador entre os próprios moradores.

Os conflitos, por vezes, colocam o sereno em um impasse. O que fazer se há crianças jogando bola num parque do bairro, considerado um distrito ecológico de Lima, e um lado reclama de estragarem as plantas e outro defende o lazer dos meninos? “Os serenazgos querem atender a todos e às vezes é complicado, alguns moradores são mal educados”, diz a dona de casa Angela Cossi de Stapelfed, de 74 anos.

Fã dos serenos, ela deixou um agradecimento público aos funcionários de seu bairro numa rede social. Moradora de San Borja, ela pediu ajuda à central de emergência ao retornar do aeroporto com a família para ter segurança ao chegar em casa e não ser surpreendida por um assalto. A surpresa foi outra: “Quando chegamos na porta de casa, pensamos até que tivesse ocorrido alguma coisa”, diz a moradora. À espera, havia todo um aparato de serenazgos a pé, sirenes de caminhonete, moto e bicicleta”, conta Angela. "Sempre que precisei fui atendida por eles. Me passam muita confiança, sempre me cumprimentam educadamente”, resume.


Jauregui Sanchez tem 40 anos e há 11 atua como sereno. Sua experiência é extensa no trato com os moradores, ele já esteve em vários postos dentro do serenazgo. E também contribuiu muito para a captura de vários bandidos. “Tenho vocação para minha profissão, gosto de apoiar e ajudar os moradores.” Como não circulam armados nem têm poder de prisão, os serenos atuam em parceria com a polícia da capital peruana.

Uma história que lhe deu orgulho de ser sereno foi ter ajudado um garoto de 12 anos que vagava sozinho, às 3h da manhã, numa rua perto de casa. “Ele era maltratado pelo pai, a mãe não o compreendia. Me senti muito feliz por ter passado na hora certa diante do garoto”, conta. Depois de acalmar e orientar o menino, Sanchez chamou a polícia para encaminhá-lo à família.

Esses profissionais estão atentos a tudo que se passa ao seu redor: alertam um morador de que sua mochila está aberta, ajudam na troca do pneu de um carro, tocam a campainha de uma casa para avisar que o portão da garagem está aberto. Os serenos agem gentilmente, sempre como uma guardão do bem-estar do bairro e de seus moradores. Às vezes, precisam fazer resgates tão singelos quanto retirar três gatinhos de cima de uma árvore, como relata o sereno Jorge Benique, de 40 anos, no ofício há 7 anos e meio. Detalhe: sem esperar nenhuma gorjeta - até porque isso não é permitido.


Em todas as horas

Muitos serenos conhecem os moradores pelo nome e inclusive já salvaram vidas. Um exemplo é o do morador que acabara de sofrer um infarto e os filhos não tinham condições de removê-lo até o hospital. Sobreviveu com a ajuda do sereno, que providenciou o transporte.

O paramédico Johnny Nuñes Veja, de 44 anos, sereno do distrito de San Borja, fez o parto de uma moradora de 24 anos na calçada. A grávida era de outro bairro, mas estava ali porque ia se encontrar com o marido que trabalhava no distrito. A bolsa se rompeu em plena via pública e ela foi atendida rapidamente. “Nasceu um menino. Foi uma experiência emocionante”, lembra.

Sereno e paramédico, Johnny Nuñes Vega já fez um parto em plena calçada

Em alguns distritos de classe média de Lima, a violência se deve ao fato de tais bairros serem cortados por vias consideradas rota de fuga da capital. Para combater as ações dos bandidos, os serenos recebem treinamento especial e equipamentos diferenciados, além de contarem com a ajuda de cães. “Os animais são treinados para ataque, defesa e para farejarem drogas”, conta o instrutor Eduardo Savala Castro, profissional em atividade há mais de 50 anos. O sereno Brian Espinola, por exemplo, que trabalha há quatro anos como guia canino, marca presença em esquinas de ruas com suspeitas de roubos acompanhado do rotweiller Yago.

Sereno Brian e seu fiel amigo Yago garantem a segurança dos moradores do distrito de San Borja

O resultado de tanto cuidado e atenção com os moradores transforma os serenos em funcionários admirados e com alta credibilidade perante a população. Segundo pesquisa da ONG Ciudad Nuestra, especializada em segurança da cidadania, os peruanos confiam mais no serenazgo (34,4%) do que na polícia local (30,1%).

Esta história foi escrita pela jornalista Soraia Haddad Budaibes, com edição de texto de Andréia Lago e Dimalice Nunes, fotografias de Soraia Haddad Budaibes, edição de imagens de Cacalos Garrastazu e design gráfico de Juliana Karpinski.

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