Entre o céu e a Terra

Aleph
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Jun 26 · 8 min read

*Por Ana Maria Bahiana

O impulso que leva ao espaço começa com a desilusão com a Terra.

No coração do impulso habitam os foguetes propulsores da curiosidade e da aventura, mas tudo começa com algo mais próximo, algo menos heroico. Na , Ulisses só queria voltar para casa. Qualquer lugar, menos Troia.

Em (), o entusiasmado Professor Barbenfouillis (interpretado pelo próprio diretor Georges Méliès) vende aos seus colegas do Clube de Astronomia a necessidade urgente de explorar a Lua diante do estado calamitoso da Terra, poluída pela fumaceira e os dejetos das fábricas que se multiplicavam desde a alvorada da Revolução Industrial, que, há um século e meio, vinha mudando o mundo, e nem sempre para melhor. Qualquer lugar, Barbenfouillis diz com sua mímica hiper-teatral (que seria o modelo essencial do cinema mudo), qualquer lugar menos a Europa do imperialismo, da miséria, da poluição.

Os colegas astrônomos finalmente concordam. Uma cápsula é construída, os astro-cientistas embarcam — com direito a banda de música e moças de perna de fora, algo super para 1902 — e são prontamente despachados para a Lua com um tiro de canhão. Como seus colegas de ciência e de cinema, os astrônomos astronautas verão a Terra da Lua, terão momentos líricos com constelações, cometas e Saturno, todos recriados e reimaginados com efeitos mecânicos, usados em teatro.

“Os colegas astrônomos finalmente concordam. Uma cápsula é construída, os astro-cientistas embarcam — com direito a banda de música e moças de perna de fora, algo super risqué para 1902.” (Reprodução)

Febe, a deusa grega da Lua, os diabólicos Selenitas que habitam o satélite e o próprio Homem da Lua, que leva um tiro de cápsula no olho, são a parte ficcional deste que foi o primeiro exemplar de ficção científica. Na época, dizia-se parte da corrente patafísica: nem além, nem especulativa, mas assumidamente onírica e poética.

Um sucesso tremendo na época, foi devidamente pirateado e copiado pelos nascentes estúdios que pipocavam pelo mundo, especialmente nos Estados Unidos. Quinze anos depois, com Méliès à beira da falência, o filme original saiu de circulação, e o próprio criador comentou que não era um de seus melhores trabalhos.

Ele estava enganado. Nos anos 1930 foi redescoberto, e Méliès teve a alegria de apresentá-lo pessoalmente, em exibições de gala em Paris e Londres.

O cinema passava do registro para a imaginação, e da imaginação para a possibilidade de novos modos de ver, de criar experiências e sensações livres da força da gravidade.

Porque, no fim, tudo começa por causa da Terra.

“O cinema passava do registro para a imaginação, e da imaginação para a possibilidade de novos modos de ver, de criar experiências e sensações livres da força da gravidade.” (Reprodução)

começa como um . No alto deserto da Califórnia, cenário de tantas aventuras de John Ford, jovens audaciosos sacrificam suas vidas em duelos mortais entre cactos e poentes dourados. Esposas e namoradas choram. Cavalos disparam. Um sacerdote soturno canta hinos à beira dos túmulos recém-abertos. Há uma cantina de paredes de tábua com um amarradouro para cavalos em frente e, atrás do bar, fotos dos heróis caídos.

O duelo, narra a voz definitivamente western de faroeste de Levon Helm (baterista e vocalista da The Band), era entre os jovens pistoleiros e o “demônio que vivia no ar”. O demônio vivia escondido atrás do Mach 1, a velocidade superior ao som, e, em 1947, ali, no então Campo de Testes Muroc, nos arredores do deserto de Mojave, os jovens pilotos duelavam contra o demônio com a aeronave Bell X-1, movida a foguetes propulsores e, em tese, capaz de voar supersonicamente.

“Mais uma vez, a mola para o espaço era profundamente terrestre. Era, mais uma vez, um embate com a gravidade.” (Reprodução)

A Segunda Guerra Mundial tinha terminado, e os Estados Unidos tinham herdado a elite de físicos e engenheiros de Hitler que, com as bombas de Nagasaki e Hiroshima, haviam transformado a possibilidade de uma nova guerra mundial em destruição total do planeta.

Dois medos impulsionavam os sacrifícios ao Demônio do Ar: que a União Soviética tivesse desenvolvido a mesma capacidade de aniquilação global; e que já tivesse dominado a velocidade supersônica, a partir da qual o apocalipse era um mero gesto.

Mais uma vez, a mola para o espaço era profundamente terrestre. Era, mais uma vez, um embate com a gravidade.

Os Eleitos começou como um vasto, meticuloso e apaixonante livro de Tom Wolfe, um dos pilares do Novo Jornalismo dos anos 1960 e 1970. Tudo começara em 1972, com a cobertura do lançamento da Apolo 17 — a derradeira missão lunar — para a revista Rolling Stone. Wolfe, que não era exatamente um entusiasta de ciência, ficou imediatamente fascinado pelo nível de risco inerente à função de astronauta — “os astronautas são os combatentes homem-a-homem do programa espacial”, ele definiu.

Em vez de uma matéria cobrindo o lançamento da Apolo 17, Wolfe entregou à Rolling Stone uma série de quatro reportagens intitulada sobre o impacto psicológico e emocional do treinamento e da missão sobre os astronautas e suas famílias.

“Os Eleitos começou como um vasto, meticuloso e apaixonante livro de Tom Wolfe, um dos pilares do Novo Jornalismo dos anos 1960 e 1970.” (Reprodução)

Seria o começo de seis anos dedicados a entrevistas e pesquisas sobre como estes novos seres — astronautas e cosmonautas — entraram em nossa visão de mundo, e qual a combinação de loucura, macheza e obsessão os alimentava.

O plano de Wolfe era documentar todo o programa espacial, do momento de sua criação, em 1958, até a chegada na Lua, em 1969. No meio do caminho, contudo, ele conheceu Chuck Yeager, um dos mais ousados e respeitados pilotos de prova dos Estados Unidos, verdadeira lenda entre aeronautas e astronautas. Wolfe entrevistou Yeager — na época General da Força Aérea estadunidense –, inicialmente buscando confirmar elementos técnicos da narrativa. A conversa mudou todo o rumo do que viria a ser : Wolfe reduziu o foco para a criação do primeiro programa de exploração espacial tripulada, o programa Mercury — e seu contraponto, a série de voos históricos de Yeager no alto deserto da Califórnia, que abriram caminho para o Mercury — e tudo o que veio depois.

Lançado em 1979, o livro teve os direitos imediatamente adquiridos pelo ilustre produtor e diretor independente Irwin Winkler (;; ). Três anos do habitual inferno de desenvolvimento viram uma lista de diretores entrar e sair do projeto, financiamento aparecer, desaparecer e reaparecer e, finalmente, Philip Kaufman (, ) dizer sim com a condição de refazer a adaptação escrita por William Goldman.

Goldman eliminara toda a narrativa de Yeager, focando apenas — entusiasticamente — nos astronautas do programa Mercury com um tom assumidamente patriótico.

Era o oposto, exatamente, de como Kaufman via a saga de .

“Goldman eliminara toda a narrativa de Yeager, focando apenas — entusiasticamente — nos astronautas do programa Mercury com um tom assumidamente patriótico.” (Reprodução)

Na visão épica, mas ácida, de Kaufman, é um filme profundamente norte-americano. Não norte-americano como Goldman tinha planejado, ou como a série — produzida por Winkler — tinha se tornado (na perspectiva do tempo, uma leitura heroica de todos os contratempos em que os Estados Unidos se meteram na era da Guerra Fria). É americano como os filmes de Capra ou Ford, a celebração de algo que está na raiz da personalidade da nação: um individualismo feroz, uma embriaguez pela audácia, pela possibilidade de ultrapassar limites — por nenhum motivo além de ser capaz de ultrapassá-los.

Kaufman faz mais do que restaurar a narrativa de Chuck Yeager — ele cria praticamente dois filmes em um: a história de Yeager e a história dos astronautas da Mercury, cada uma servindo de contraponto da outra.

A narrativa de Yeager é um western fordiano com jatos velocíssimos: o herói quieto e solitário, com seus rituais privados — o bar, o chiclete, as cavalgadas com a esposa Glennis, grande amor de sua vida. Yeager monta seu cavalo e seu Bell X-1 (e outros mais) do mesmo modo, e se refere a ambos com as mesmas palavras, com carinho e com esporas.

Kaufman enquadra a narrativa de Yeager nos tons dourados do deserto, a câmera baixa tornando Sam Shepard (perfeito como Yeager) e Barbara Hershey (Glennis) maiores que a própria paisagem imensa.

Cool como todo herói de , Yeager/Shepard vence o Demônio do Ar como o mocinho de chapéu branco no duelo da rua principal — com o bônus do próprio firmamento se abrindo em pétalas e estrelas para o vencedor, criando a matriz na qual beberiam muitos filmes futuros — inclusive , de Damien Chazelle.

”Kaufman reverte seu ponto de vista, tornando os homens do Programa Mercury infinitamente menores que o seu mundo de foguetes, plataformas de lançamento e, finalmente, o espaço.” (Reprodução)

A narrativa dos astronautas do Programa Mercury — Scott Glenn, Ed Harris, Dennis Quaid, Fred Ward, Lance Henriksen — é febril. Kaufman poderia ter criado uma visão semidocumental (como faz Paul Greengrass, por exemplo), mas opta por algo hiper-real, muitas vezes na fronteira do cômico e do grotesco. Cada aparição da imprensa vem acompanhada pelo som de cachorros farejadores. Políticos são retratados como caronas vulgares e oportunistas colhendo as benesses do louco heroísmo dos astronautas. O time de cientistas alemães parece sempre um centímetro atrás de “heil, Hitler”.

Os astronautas não ficam muito atrás — “Gordo” Cooper (Dennis Quaid) é um mulherengo mais preocupado com sua agenda de sedução do que com o treinamento; Alan Shepard (Scott Glenn) — o primeiro norte-americano no espaço — é um racista que ganha o devido troco; Gris Grissom (Fred Ward) está mais preocupado em fazer uma grana extra com souvenirs espaciais; John Glenn (Ed Harris) é o todo certinho, careta, possível puxa-saco.

O espaço, contudo, é maior que todos eles — e Kaufman reverte seu ponto de vista, tornando os homens do Programa Mercury infinitamente menores que o seu mundo de foguetes, plataformas de lançamento e, finalmente, o espaço.

Políticos e mídia tem seus motivos para embarcar na corrida do espaço, diz Kaufman. Mas estes homens seguem apenas este sentimento comum, que atravessou oceanos, campinas e desertos, o desejo de ver o que havia depois, e como seria possível alcançá-lo. Talvez morrendo no caminho. Mas tudo vale a pena.

Das três horas e 21 minutos de , duas horas e tanto não estão no céu, mas na terra. A história do filme não é a história do espaço — “não necessariamente hostil, mas indiferente”, como disse Stanley Kubrick –, mas a saga terrestre de um bando de caubóis procurando a derradeira fronteira.

Das três horas e 21 minutos de Os Eleitos, duas horas e tanto não estão no céu, mas na terra. A história do filme não é a história do espaço, mas a saga terrestre de um bando de caubóis procurando a derradeira fronteira. (Reprodução)

*Ana Maria Bahiana é jornalista, autora, pesquisadora e produtora, com uma longa e prestigiosa carreira no Brasil e no exterior, em imprensa, rádio, televisão e internet.

* O texto acima faz parte do terceiro fascículo da mostra Fronteiras Finais, ciclo de cinema organizado pela Aleph, Projeto Replicante e CineSesc, que celebra a chegada do homem à Lua e faz uma contagem regressiva para o aniversário de 50 anos do feito em julho de 2019. Para informações sobre a terceira fase da mostra (que já segue em exibição) CLIQUE AQUI

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