falou

a cidadezinha mimada


Que peso louco é esse que cai sobre as minhas mãos quando decido escrever sobre você, São Paulo? Cidadezinha mimada.

Não consegue deixar que te deixem.

Nem tenho nada de inédito pra te confessar, algo que teus outros namorados já não tenham te contado. Afinal, você não é um lugar — é uma ideia que não se move, alimentada por gente que confia em ti.
Sempre te quis, isso não vou negar. E você foi um grande amor.
Pra você, no entanto, eu nunca fui mais do que o job da vez.

Morro de medo em vagar pelo mundo te procurando.
Medo de viver tentando te encontrar noutras cidades.

Já sinto falta do teu barulho, do teu asfalto pálido com o qual me encantei desde que te conheci, da tua mania de superação. Você acha que engana com esse seu charme, esses truques pra parecer eternamente jovem, essa película de banho de ouro toda descascada.

Eu sei quem você é. Me esparramei no teu sangue cinza. Te tateei inteira.
E agora que te esgotei não me intimido mais.

Dos teus defeitos, você sabe. Eu achei que poderia te mudar. Mas foi você quem me mudou. Teve quem falasse pra eu não me envolver com você, mas eu estava apaixonada de um jeito que parecia que ia chorar de alegria em estar no metrô sem ser a passeio.

E agora acabou. Mas outros te amarão. Sonhei que estava feliz e calma quando a gente se despedia. Você também.

Quem sabe a gente se tromba um dia nesses teus cruzamentos metidos que aparecem nas canções ou numa nova estação que você me prometeu e nunca cumpriu. Ainda há tempo.

Apesar de tanta gente tentar te matar, você não morre tão cedo.