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Foda-se o golfinho

Com o que devemos ficar putos nessa história

Half of the people can be part right all of the time. Some of the people can be all right part of the time. But all of the people can’t be all right all of the time.
Abraham Lincoln

Em fevereiro deste ano aconteceu a história perfeita no litoral argentino. Na praia de Santa Teresita os banhistas retiraram do mar um filhote de golfinho-franciscana — espécie em risco de extinção — e, no irrefreável impulso de tirar selfies com o bicho, acabaram por matá-lo. Ele não aguentou tanto tempo fora d’água, morreu desidratado, e seu corpo foi abandonado na praia. Duas imagens ilustram a tragédia. Na primeira, um homem segura e exibe o golfinho, cercado por uma multidão; as pessoas sorriem, se acotovelam e apontam seus aparelhos celulares para tirar a melhor foto do golfinho. Na segunda, o animal jaz inerte na areia da praia e seu corpo sem vida transmite tristeza abandonado no chão, sujo, largado como um objeto, um brinquedo quebrado.

A história só não é mais perfeita porque não aconteceu no Brasil. Se o homem que segura o animal estivesse vestindo uma camisa da CBF, o evento iria somar mais uma história para a enciclopédia de narrativas-limites que o país compila desde 2013, desde o acirramento irreversível de todos os afetos possíveis.

Mas não era no Brasil, infelizmente. Foi na Argentina. E, como estamos tão ocupados com o Brasil, os argentinos não são mais nosso problema. Aí a indignação se abrigou no guarda-chuva do dito “movimento animal”, formal e informal. Os sites noticiosos, sabendo que a bronca ia pra essa galera, já redigiu a nota nos moldes que mais agradariam — ou desagradariam; a ambivalência é extrema nesse caso — o público alvo. Era a história perfeita: Golfinho é retirado do mar por banhistas para selfies e morre. Pode-se alterar a ordem das palavras, mas essa era basicamente a mensagem. A chamada mais inspirada dizia: “Golfinho morre por excesso de selfies”. Evocava-se assim uma tragédia global. O ser humano contra a natureza.

Diariamente mobilizados com questões geralmente relacionadas aos pets (resgate, adoção, louvor), os defensores dos animais, como qualquer pessoa sensata, imediatamente se ergueram contra o acontecido, e em pouco ou nenhum tempo a indignação já tinha assumido o viés anti-humano. Com o supracitado acirramento dos afetos, a carta “quanto mais conheço as pessoas mais amo meu cachorro” é sacada uma hora ou outra nessas questões. Nesse caso, ela foi sacada logo de cara, e foi super efetiva. Era a narrativa perfeita para extravasar esse sentimento de desprezo, em última análise, pelo ser humano.

O desprezo pelo ser humano não chega a ser novidade. Ele existe, de uma forma ou de outra, há pelo menos 50 mil anos. No entanto, a questão parece ter novas formas, ou pelo menos ter uma nova demão de verniz, desde pouco tempo, aqui no Brasil. Novamente voltamos ao ano em que tudo aconteceu. Em 2013, num jogo entre Corinthians e Vasco no estádio Mané Garrincha, em Brasília, uma briga entre as torcidas tumultuou a morna partida. O clima ameno do evento e a violência do confronto eram tão contrastantes que pegou as pessoas de bom senso de surpresa, conferindo àquele domingo de futebol uma nota mais triste do que se normalmente espera das corriqueiras brigas de torcidas. Cléber Machado, que narrava o jogo na Rede Globo, evocou a frase de um amigo, dizendo que a “experiência humana na Terra não deu certo”. A reflexão, cheia de desesperança, exemplifica a exaustão de alguém que já não vê perspectiva de mudança e entrega os pontos.

A reação à narrativa do golfinho foi semelhante. Era a prova cabal de que o ser humano médio entrou num vertiginoso parafuso de futilidade, que fez seu já enorme e histórico desprezo pelos seus iguais e pela natureza se exacerbasse de forma aparentemente irreversível.

O Oxford escolheu “selfie” como a palavra do ano em 2014.

Não precisamos nem entrar na etimologia do termo, vã seria a expedição. Selfie é um marco duplo da atualidade e da futilidade. Se um apresentador jovem e descolado como, digamos, Thiago Leifert, receber em seu programa um artista velho e deslocado como, digamos, Milton Nascimento, a selfie entre os dois é obrigatória para inserir o veterano no dinâmico mundo moderno da nova TV e de seu novo público. Por outro lado, se um ator engraçadinho como, digamos, Fábio Porchat, fizer um quadro em seu programa em que ele interpreta uma adolescente alienada, vaidosa e frívola (uma adolescente, é importante sublinhar, para assegurar uma narrativa perfeita), é obrigatório que ele masque chiclete e, claro, tire uma selfie.

Esse é o mundo em que vivemos agora e ele é idiota. Este é o pior dos mundos. Deus deve estar arrependido de ter criado o homem. Vem meteoro. O ser humano é muito cruel. Como o homem é capaz de fazer uma coisa dessas? Pelo fim da humanidade.

Claro, tragédias piores já foram perpetradas pelo homem. Em 1994, a maioria hutu de Ruanda matou pelo menos 500 mil pessoas da etnia tutsi. Estimativas menos otimistas contam o dobro de vítimas. A população do país diminuiu em 20% — 70% dos tutsis de Ruanda foram exterminados.

Mas que seja possível um mal maior, mais próximo e mais abrangente não é desculpa para que não nos consternemos e nos levantemos contra qualquer espécie de mal. Não que o cara que não dá lugar pra grávida no ônibus seja Hitler. Mas com certeza Hitler não daria o lugar dele no ônibus para um judeu. Eu não sei o que quis dizer com isso, mas vamos em frente. No final das contas: contra o mal toda indignação é válida.

Portanto, a tragédia do golfinho não foi a maior da história humana. Não. Não ergueremos um monumento em sua memória. Sua vida e morte não entrará nos livros de história. Seu triste fim será em vão? Já não podemos admitir que uma injustiça passe impune. Algo deve ser feito. O homem não pode matar um golfinho por excesso de selfies. O que vamos fazer?

Primeiro, checar a história, e perceber que o golfinho já estava morto quando abordado pelos banhistas. Um vídeo mostra o bicho, sem reação, sendo manuseado na beira do mar, estimulado a nadar. Mas nada (emoji chorando de rir). Claro que o óbito não foi atestado por um biólogo marinho, mas acho que, diante dos registros que temos (fotos e relatos), podemos afirmar com certa segurança que, se não estava morto, o golfinho não estava lá muito bem. Já é difícil pegar uma galinha no galinheiro, imagina um golfinho no mar.

Na sequência da narrativa, numa inequívoca demonstração de falta de sensibilidade e desrespeito, o cadáver do golfinho foi erguido como um troféu cetáceo no meio de uma turba de banhistas, que se aglomeravam para ver aquele bicho exótico, o filhote sem vida. As pessoas queriam tocar sua pele, tirar sua foto. A cena se configura em uma das dinâmicas consagradas do mau-gosto: tiozão entretém a molecada. Pelo menos oito ângulos retratam o momento mais agudo do fatídico dia: ao centro, o tiozão segura o golfinho (protegendo a mão com um pano), à sua volta, crianças curiosas disputam o acesso ao cadáver. Na foto pós-excitação, o golfinho está abandonado no chão, mas o quadro flagra um rapaz, posicionado à direita, que, agachado, tira uma foto do presunto marinho. Em nenhuma das imagens há indícios de selfies por parte do público.

Sendo a causa mortis algo muito menos divertido que “excesso de selfies”, provavelmente vítima da própria natureza, o golfinho não merece elegia, lamentação. Apenas meu agradecimento por protagonizar, mesmo que postumamente, esse belo conto preventivo argentino.

Então qual o próximo passo? Eu ia dizer agora “foda-se o golfinho”, mas acho meio desrespeitoso. Vamos colocar essa só no título mesmo, pro pessoal ver, ficar puto e ler o texto espumando de raiva.

Agora é a hora de refletir sobre algumas conclusões que chegamos aqui.

Quando você vê o novo iPhone você pensa: o ser humano é sábio. Quando você vê uma criança tomando sorvete no shopping você pensa: o ser humano é lindo. Quando você ouve a Sétima do Beethoven você pensa: o ser humano é inigualável. Todas essas situações evocam, mesmo que de forma remota e irracional, a ideia de que existe no ser humano algo a mais, escondido, impalpável, insondável, belo e bom. Algo divino. O ser humano, afinal, está ligado ao altíssimo.

Ao mesmo tempo, dois mil anos atrás, fizemos a cagada de torturar e matar Aquele que era homem e deus em um só, Seu filho, nosso senhor Jesus Cristo. Ele deu a vida por nós e ainda disse que voltaria. Porque Ele nos amava, acreditava no homem. Não mandou descer o meteoro, como fez com os dinossauros. Quer dizer, a história contada na Bíblia não é bem essa, mas com certeza os dinossauros pisaram na bola.

De qualquer forma, os dinossauros nunca conseguiram chegar na lua. O ser humano também não, mas pelo menos teve engenho suficiente pra criar uma farsa global sobre o assunto. O máximo que os dinossauros fizeram foi aterrorizar São Diego, e isso por causa da ganância do homem — o mesmo homem que, num gesto de grandeza, trouxe os dinossauros de volta à vida (por ganância).

Ou seja, diferentemente dos dinossauros, que são seres inocentes e estúpidos, o ser humano é capaz de coisas grandiosas, como os versos de Camões e o musical do Rei Leão, mas também de coisas horrorosas, como os filmes do Tarantino e aqueles hot pockets da Sadia. É difícil bater o martelo se o ser humano no final das contas é bom ou ruim, então a melhor saída, caso alguém perguntasse, seria dizer: “É um mix”. Um mix entre o bem e o mal, entre a beleza e a feiura, entre a riqueza e a miséria. O ser humano é ambivalente.

E essa ambivalência está internalizada, e, claro, não é livre de sofrimento. Precisamos aliviar nossa consciência com totens e tabus, heróis e vilões, alguém para louvar e desprezar. E é aí que devemos cuidar para não cair nas histórias perfeitas. Se nem Jesus agradou todo mundo como é que uma notícia de internet vai agradar? Mas agradou.

A narrativa perfeita nos deu aquilo que desejávamos mais profundamente. Uma desculpa para botar pra fora a raiva por quem joga lixo pela janela do carro, quem não segura a porta do elevador, quem fura a fila do cinema, quem despreza nossos salvadores, quem louva nossos inimigos.

O pensamento inteligente, no entanto, não pode nunca esmorecer, deixar de duvidar, aceitar o que é dado. Especialmente quando recebemos exatamente aquilo que queremos. Isso não é McDonald’s né, caralho. É como se apaixonar (lá vem): você imagina alguém com certos requisitos (carteira assinada, IMC >21, sabe combinar roupa), mas na hora H você vai se apaixonar por uma pessoa com outros atributos e, no ponto alto do amor, sentado na última mesa do McDonald’s, dividindo o último McNugget com molho caipira (até nisso vocês concordam), você vai dizer: “Sabe, você é tudo que eu sempre quis mas nunca soube”.

Tô me sentindo até mal por esse último parágrafo.

Mas voltando: o pensamento inteligente não é imediato: deve haver algum entreposto intelectual entre aquilo que chega e aquilo que sai. Compartilhar a manchete “Golfinho é morto por excesso de selfies” e comentar “Vem meteoro” não são boas credenciais caso você pretenda ser respeitado por aquilo que diz e pensa.

Essa mediação intelectual, então, deve levar em conta a dúvida em relação àquilo que nos é apresentado — especialmente em caso de narrativa perfeita —, e uma elaboração inteligente sobre o que está em jogo. Em outras palavras: com o que devemos ficar putos nessa história. É com o golfinho, com o tiozão, com a Argentina ou com a humanidade?

Caso fosse verdade, caso o golfinho realmente tivesse sido arrancado do mar com vida, torturado sob o inclemente sol de Santa Teresita por selfies de banhistas, e, depois de morto, descartado como modes usado ou bombril na areia da praia, qual seria nossa reação mais desejável?

Depende, é claro, daquilo que você deseja. Se você deseja que aqui se faça e aqui se pague, então você dirige até Santa Teresita com um revólver no colo e, lá chegando, procura tiozão que ergueu o golfinho, o homem errado na hora errada, e mete quatro balas bem no peito do caboclo. A quinta você guarda pra si mesmo caso seja interceptado antes de atravessar a fronteira de volta — porque você não pode ir pra cadeia, muito menos uma cadeia argentina.

Mas e se você desejar um mundo melhor?

Há diversas reações possíveis no caso do golfinho, mas as mais equilibradas e econômicas se baseiam em se revoltar na internet. A não ser que você resolva entrar pro Greenpeace, sei lá. Nada contra, mas você pode manter seu emprego, continuar se preocupando com o mundo em geral, e usar essa história do golfinho — ou qualquer outra — de forma construtiva.

E como ninguém quer ser coadjuvante de ninguém, o preferível é que você elabore algum pensamento original sobre o assunto, de preferência sob um ponto de vista diferente, somando ao debate, expandindo a questão.

O argumento ideal seria aquele que se articula com uma forma de pensamento abrangente, que, seguindo linhas consequentes de raciocínio, sirva tanto para reprimir assassinos de golfinho quanto para aprofundar a proteção aos animais, combater a desigualdade social, fortalecer as instituições democráticas, aprimorar o combate ao crime organizado, legalizar a maconha, baixar o preço do cigarro, voltar a promoção do Cheddar por 5 conto no McDonald’s.

Ou seja: devemos sempre mirar um bem maior, uma solução equilibrada e sustentável para a questão. E você tem que pensar direitinho sobre esse bem maior. Se realmente vai funcionar, ou se daqui a três semanas o negócio vai explodir na nossa cara e aí todo mundo vai ficar pior do que antes. É isso que a gente quer? Não. É isso que a gente precisa? Muito menos.

É hora de deixar a emoção de lado, pensar seriamente sobre o assunto. Apoiar os cotovelos na mesa, segurar a cabeça com as mãos e pensar: “Meu Deus, o que eu fiz (com aquele golfinho)?” Foi certo? Eu deveria tê-lo tirado do mar? Deveria ter feito selfies? Será que ele sorria ou a boca dele é assim mesmo? E por que fui largá-lo no chão da praia, abandonado, sujo, sem dignidade nenhuma? Será que eu sou uma boa pessoa? Eu mereço este mundo? Ele morreu por mim? Devo então viver por ele?

Pois é, tiozão, tem coisa que simplesmente não se faz. E depois você vai se arrepender. Na hora você estava se divertindo, né? A vida parecia cor de rosa. As crianças gostavam de você. Você era o herói da molecada.

E agora o golfinho diz: “Nunca mais”.

Diferentemente do golfinho liquidado na costa, a matéria é sempre semovente. E precisamos estar atentos para não pensar só com o coração. A questão não é simples, ela não se resume a sim ou não, preto e branco, tiozão e golfinho, eu e você. Devemos encarar a complexidade do assunto, levando em consideração se aquilo que a gente quer — a narrativa perfeita, o ódio ao ser humano, Cheddar a cinco conto, a confirmação das nossas crenças — é aquilo que a gente precisa — um mundo melhor, uma ideia original, palavras sinceras, frango a passarinho. Quer dizer, tá quase na hora do almoço, e fica difícil sustentar convicções com fome.

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Caminhando no incerto e idolatrando a dúvida

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Rafael Zanatto

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