3 passos + 1 segredo para um conto incrível

O conto é o formato perfeito para um autor praticar. Ele serve para experimentar a prosa, a voz de um personagem, uma tentativa de cenário, até mesmo todo o clima de um romance. É a oportunidade de dar espaço para uma cena se desenvolver sem medo de se comprometer com um grande projeto.

Entretanto, o comprimento reduzido e a emergência da escrita são desafios que muitos autores não sabem como superar. No conto, o raciocínio mal desenvolvido fica evidenciado de uma maneira dolorosa, e ele força o autor a ser preciso no seu método. Para ajudar quem está começando, eu separei algumas dicas:

1. Pense em emoções

O que é que faz um conto funcionar, afinal? Se o leitor comum de ficção lê pelo escapismo de acompanhar um personagem, porque ele se interessaria por uma jornada tão curta e por personagens que ele teria tão pouco tempo para conhecer?

A verdade é que nós, humanos empáticos consumidores de personagens, não nos importamos tanto com o formato da entrega.

A única coisa que importa é que seja emocionante.

Se não há uma grande entrega de emoção, chances são que sua história será esquecida, ninguém se importará tanto com a sua boa escrita ou com os temas grandiosos.

2. Meça suas palavras

Poucas palavras (algo entre mil e dez mil) significam pouco espaço para inventar. Não estamos trabalhando num romance onde podemos observar vários personagens atravessando vários arcos de recompensas e armadilhas.

No conto, podemos acompanhar apenas uma entidade enfrentando um grande problema, num único arco narrativo. Não há tempo para muito mais. Por isso, contos não costumam ter grandes explicações ou flashbacks. Não nos interessa tanto os fatos, e apenas sugestões bastam para construir um cenário ou uma personagem.

Ações e imagens são mais importantes que informações, ainda mais quando estamos tentando entregar um grande impacto em pouco tempo.

3. Experimente com a prosa

A forma condensada do conto serve para a gente se aperfeiçoar em entregar com eficiência. E quando cada palavra conta, não significa apenas conter poucas palavras, mas pensar na estrutura e na escolha de vocabulário.

Ela vai além da precisão com a descrição para também incluir a musicalidade da língua e os pormenores subjetivos da ortografia. Não apenas o significado, mas o som e a cadência das palavras devem reforçar o conteúdo e o universo do conto, para aumentar a entrega emocional da frase (isso bem que podia ser uma estatística real, né?)

Domicílio, casa e lar significam a mesma coisa, mas só um deles tem o gostinho de familiaridade, de comida de mãe, de afagos na barriga do gatinho, de abraços quentes e de segurança.

Se preocupe também com o ritmo. O comprimento das frases, a alternância entre curto e longo, ajuda a reforçar a imagem, a cadência, do toque, do movimento, do momento a momento da cena. Frases longas são sensuais e levam o leitor por um raciocínio cuidadoso. Frases curtas são um soco. Um tiro. Um vidro quebrado.

O Segredo.

Mesmo sabendo tudo isso, seu conto ainda pode ficar um tanto superficial para o leitor. A situação contada pode lhe parecer cotidiana demais, e sem o peso de uma verdadeira reviravolta emocional.

Um conto realmente cativante fala de um grande momento de quebra.

O personagem pode até se refazer depois, mas ele jamais será o mesmo. Sempre haverá um craquelado em algum lugar. Ele, e o seu universo pessoal, foram transformados. Assim como na jornada do herói, o conto abandona o status quo e pode ser que nunca retorne.

A quebra pode acontecer no início do conto, e o resto será sobre as suas consequências. Ou pode acontecer no meio, como o clímax da história. Ou todo o conto será sobre o que levará até a quebra, e ela só acontece no último momento, com suas terríveis consequências deixadas para a imaginação.

Falamos até agora sobre entregar emoções, mas emoções não são apenas o resultado de boas cenas ou personagens carismáticos, de palavras certas e clichês de beijos no pôr do sol ou assassinatos em ruas escuras. Emoções são sobre reviravoltas e situações inesperadas, sobre promessas de histórias quebradas e cumpridas, e sobre transformações internas e externas.

Conheça a Carolina. A vida dela não é perfeita, mas é ok. Ela tem bons amigos. Sua família a ama. O seu cachorro é fofinho. E então, ela conhece o Gustavo e não sei o que ele tem naquele cabelo curtinho e aqueles olhos escuros que faz o coração de Carolina bater asas.

E então, Carolina sofre um acidente. Algo trágico. No ápice da sua possível felicidade, Carolina cai em desespero. Em qualquer contexto, um acidente é desagradável, mas sem a perspectiva do que poderia ter sido, a nova realidade não seria tão triste. E sem esse foço de escuridão, a recuperação de Carolina no final da história não seria tão gratificante.

Nem toda quebra precisa ser ruim. A quebra de status quo pode ser a mudança de um personagem cínico para ser capaz de perceber a esperança e a mágica ao seu redor. O que importa é que ele se transformou.

Espero que este texto tenha trazido alguma informação nova e ajude no seu próximo projeto!

A Editora Wish está abrindo o edital para a sua antologia “Contos da Floresta”. Cadastre-se para receber notícias sobre o início das inscrições.

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