Área ocupada

Equipe do Editorial J conta quem são as pessoas que frequentam o Parque Farroupilha


O local já foi uma planície alagadiça chamada de Várzea do Portão e de Campos da Redenção, em alusão à libertação de escravos; também já abrigou a Exposição Internacional de Animais (Expointer) e recebeu uma exposição comemorativa aos 100 anos da Guerra dos Farrapos. Atualmente, é considerado o coração de Porto Alegre.

No começo do século 20, o Parque Farroupilha passou por um longo processo de drenagem, ajardinamento, nivelamento e urbanização. Somente em 1935, recebeu o nome atual. Seus 370 mil quilômetros quadrados, que abrigam o espelho d’água, o Monumento ao Expedicionário e o Brique, são delimitados pelas ruas Setembrina e Luís Englert e as avenidas Oswaldo Aranha, João Pessoa e José Bonifácio.

O ambiente democrático utilizado pela população gera há mais de duas décadas um grande debate. Este ano, o vereador Nereu D’Ávila (PDT) colocou mais uma vez em pauta o projeto que prevê um plebiscito sobre o cercamento da Redenção. Já aprovado pela Câmara e com sanção do prefeito José Fortunati, haverá um plebiscito, em data ainda a ser definida, para consultar a população porto-alegrense a respeito do cercamento. A ideia é que através do isolamento, o parque consiga rebater a violência frequente no local.

Leia mais sobre o cercamento na Edição 19

Neste contexto, a equipe do Editorial J buscou, através desta galeria fotográfica, mostrar quem são as pessoas que ocupam a área do parque e qual utilidade fazem dele – lazer, prática de esportes, comércio, entre outras.


Parquinho da Redenção


Inaugurado na década de 1950, com o nome de Minilândia, o parque de diversões da Redenção é um dos mais antigos e tradicionais da cidade. Originalmente ele ficava localizado ao longo da Rua José Bonifácio, em frente à Igreja Santa Teresinha. Depois de uma remodelagem, passou a se situar nos fundos do Mercado do Bom Fim. O local, que tem mais de 15 tipos de brinquedos e uma ampla área de jogos, reúne pessoas de todas as idades.

Fotos: Juliana Baratojo

Camille Garcia tem quatro anos e frequenta bastante o Parquinho da Redenção. Além da montanha-russa, se diverte no trenzinho.

Rogério Melo, 47 anos, trabalha há cerca de cinco no Parquinho da Redenção.


Trabalhadores


Em meio à população que frequenta o parque, é possível encontrar vendedores de pipoca, churros e algodão doce realizando seus trabalhos. Muitas vezes, esses homens e mulheres passam despercebidos ao olhar de quem transita pelo parque, sendo vistos apenas quando alguém deseja comprar algo que eles estejam vendendo.

Fotos: Cláudia dos Anjos

Zélia Cardoso dos Santos vende pipoca na Redenção há mais de 13 anos. Ela costuma trabalhar todos os dias, menos quando chove. Antes de ir para o ponto de venda, Zélia busca o carrinho em um depósito na João Pessoa.

Durante a semana, Zélia estaciona o carrinho ao lado do Monumento ao Expedicionário, para aproveitar o fluxo de pessoas que vão passear no parque. Nos finais de semana, fica perto da Igreja Santa Terezinha, aproveitando o fluxo de fiéis.

“Sinto pena quando as crianças pedem algodão doce para os pais e não ganham. Se eu pudesse, daria de graça para elas.”

José Carlos Santos, 62 anos, é vendedor há mais de 20. Nos finais de semana, vende algodão doce na Redenção. Durante a semana, comercializa cadarços e tênis na Avenida Protásio Alves.

Antes de ir para o parque, José busca o algodão doce com um fornecedor na Avenida João Pessoa. Cada um custa R$ 5. As cores disponíveis são rosa, azul e roxo.

David Lopes, 29 anos, e Daiane Freitas, 26, estão noivos e moram no bairro Bom Jesus. Juntos, vendem pipoca há mais de dois. Na Redenção, geralmente vão aos domingos, quando há mais compradores. O casal vende pipoca doce e salgada em três opções de tamanho, pequeno (R$ 3), médio (R$ 4) e grande (R$ 5).

Luís Fernando Mendes de Souza, 66 anos, vende churros nos sabores doce de leite e chocolate na Redenção, nos finais de semana. Durante a semana, trabalha em uma lanchonete em frente à PUCRS, na Avenida Ipiranga. O vendedor também trabalha em eventos, aniversários e festas juninas.

O ponto de venda no qual Luís trabalha, próximo do Monumento ao Expedicionário, foi herdado de seu falecido pai. Geralmente, de segunda a sexta-feira, é sua esposa quem assume a venda dos churros no parque.


Pedalinho


Os pedalinhos estão disponíveis para aluguel desde 2004 e ficam localizados no lago da Redenção, próximo à Avenida João Pessoa. É uma das alternativas de lazer no parque e funciona de segunda a sexta, das 10h às 18h30min, e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h.

Fotos: Frederico Martins

Angélica é responsável pela recepção dos visitantes dos pedalinhos. Ela não concorda com o cercamento da Redenção.

Daniel Camargo Pinheiro faz a manutenção periódica dos pedalinhos. As necessidades podem ser desde a pintura dos volantes até o conserto dos equipamentos.


Esporte


Diariamente a população utiliza o Parque Farroupilha para praticar atividades físicas. Elas podem variar de corridas à aula de yoga. Além do espaço live, a Redenção também conta com locais específicos para execícios físicos, como por exemplo o parque Ramiro Souto, equipamentos de ginástica gratuítos, entre outros.

Fotos: Guilherme Almeida

Os aposentados João Carlos da Costa, 66 anos, e Mário Moura, 62, se encontram diariamente para jogar bocha no Parque Farroupilha

Paulo Nascimento, 67 anos, frequenta a área da bocha entre quatro e cinco dias por semana. Ele gosa de apenas olhar o jogo dos outros.

“A redenção e o slack line são a minha fuga do concreto”,

afirma o estudante de geografia da UFRGS Ben Hur Soares, 36 anos.


Feira Ecológica

do Bom Fim


Todos os sábados, das 7h às 13h, a Feira Ecológica do Bom Fim monta suas 155 barracas na Avenida José Bonifácio para a venda de produtos orgânicos, provenientes diretamente dos produtores da área rural de Porto Alegre e do interior do Estado, em um raio de 200 quilômetros. A Feira foi inaugurada em 1989, pela cooperativa Coolmeia, e ampliada em 1991, com a participação da Secretaria Municipal de Produção, Industria e Comércio (Smic).

Fotos: Annie Castro

Maria Lavinia Dri, 75 anos, frequenta a feira desde a sua fundação. Acredita que o cercamento irá descaracterizar o parque. Quem a acompanha no passeio é o filho Daniel, que também é contra o cercamento. “É um controle às avessas”, comentou.

Há 22 anos, Romeu Righes, 57 anos, viaja do município de Ipê até Porto Alegre todos os sábados para trabalhar na banca da família, a Banca do Romeu. Para ele, a maior vantagem da feira é a possibilidade de o consumidor comprar direta do produtor.

O casal Marcos Porto, 54 anos, e Vera Andrade Bobisch, 52, frequenta a feira há mais de 20 anos. Eles buscam produtos que garantam qualidade de vida. Ambos são a favor de outras medidas de segurança, como, por exemplo, um sistema de monitoramento feito por meio de câmeras nos lugares mais frequentados do parque.

A estudante de Dança na UFRGS Géssica Rosa de Oliveira, 23 anos, trabalha na banca Massas Benedetti e frequenta bastante a Redenção. Antes de vir para a Capital, morava em Mato Grosso, onde não havia muitos espaços de lazer abertos ao público. Por admirar e apreciar isto em Porto Alegre, é totalmente contra o cercamento do parque. Acredita que isso diminuirá as visitas ao parque — principalmente de quem, assim como ela, veio de fora.

Ismael Rossi, 29 anos, trabalha há quatro na banca dos pais, localizada na feira. Para ele, uma das vantagens do local é a compra direta com o produtor. Ismael não credita que uma cerca possa conter pessoas más intencionadas.

“Acho engraçado cercar um parque.”


Brique da Redenção


Desde os anos 1980, o Brique da Redenção é considerado um dos principais pontos turísticos da cidade. Foi criado como uma homenagem e referência à Feira de San Telmo, em Buenos Aires. No início, era chamado de Mercado das Pulgas, pois vendia somente antiguidades. Hoje em dia, o espaço cultural também comercializa artesanato, artes plásticas e de rua, horti-fruticultores e gastronomia, entre outros. O Brique ocorre todos os domingos, na Avenida José Bonifácio, das 9h às 18h.

Fotos: Annie Castro

A artesã Julia Nunes, 53 anos, voltou para a Feira do Brique há três anos. É a favor do cercamento, pois os parques cercados funcionam em outras capitais. “A cerca não impede a população de entrar, mas impede o perigo, a malandragem e tudo mais”, disse. Apesar de aprovar a medida, acha que devia ocorrer a ocupação dos espaços públicos, como, por exemplo, com feiras de artesanato durante a semana.

Tairana Belmonte da Costa aproveita alguns domingos para ver os artistas que se apresentam no Brique, sempre acompanhada do marido, Vinicius Salomão, e dos filhos Gabriela, cinco, e Miguel, um. Para Tairana, o parque aberto passa a sensação de liberdade.

Com 40 anos, Marta Brietzke é professora dos jovens violoncelistas do bairro Lomba do Pinheiro, que formam o grupo Os Tchêllistas da Filarmônica de Violoncelos. Apresentar-se no Brique foi a maneira que Marta encontrou para retribuir à população pelas doações que o grupo recebe.

Eliane Manganeli, 51 anos, é voluntária independente na defesa de aninais. Aos domingos, leva os animais para adoção no Brique. “Aqui é um lugar que tem muito público, de diversas faixas etárias”, explicou Eliane.

O músico Luis Arnóbio vai aos domingos na Redenção para divulgar seu trabalho. A escolha do espaço é pela diversidade que o Brique apresenta. “O local aqui é multicultural”, afirma. Para ele, os problemas enfrentados pelo parque poderiam ser resolvidos com educação e segurança.

“Aqui é um lugar onde as pessoas vêm prestigiar.”

Varceli Freitas Filho, 61, é um dos ultimos fotógrafos lambe-lambe (fotógrafo ambulante que exerce a sua atividade nos espaços públicos) de Porto Alegre. Ele fotografa no Brique da Redenção há 26 anos. É a favor do cercamento, pois acredita que a medida terminará com a criminalidade.

Ricardo Antonio Pereira Costa, 63 anos, mora nas cercanias do Brique e frequenta o parque há 30. Ele costuma passear diariamente com seu cachorro no local. Acredita ser desnecessário o cercamento. “Vão gastar horrores, e tem tanto colégio na cidade precisando de investimento. Vão colocar dinheiro fora porque os assaltos continuarão acontecendo. Existem outras necessidades em Porto Alegre”, disse.

As amigas Rosinete Matos (E) e Marta Leão (D), 52 e 55 anos, respectivamente, frequentam a feira quase todos os domingos. Marta acredita que a cerca não vai trazer segurança. Rosinete concorda com a amiga e teme que o usuário do parque acabe ficando ainda mais vulnerável.

A dupla Celso Zanini (E) e Rodrigo Nizolli (D) divulga a banda Caos Retrô entre os públicos do Brique e da Feira Ecológica. Para eles, o cercamento irá afetar a liberdade de trânsito dos pedestres dentro do parque, além de não trazer mais segurança.

“Alegria é uma coisa dentro de nós, e temos uma função social de trazer diversão para o público e, principalmente, fazer música para pessoas com deficiências”, disse Adilson da Silva, 76 anos, que aos domingos se apresenta com outros seis músicos da mesma faixa etária. Ele acha que deveria haver policiamento em vez de cercas.


Povos indígenas


Quem frequenta o Parque Farroupilha já está acostumado a ver os índios vendendo mercadorias, fazendo cestas ou tocando suas músicas tradicionais. Eles são da mesma tribo: Guarani. Trabalham e passeiam aos finais de semana no parque, onde são tratados com muito respeito e educação.

Fotos: Juliana Baratojo

Valdoir tem banca há dois anos na Redenção. Sempre foi tratado com muito respeito por todos e acredita que o cercamento pioraria os negócios.

Todos finais de semana ele leva a família para o parque, para o acompanharem nas vendas.

Lurdes tem 62 anos e vende há 30 na Redenção. Ela não tinha conhecimento sobre a proposta de cercamento do parque.

Aos domingos, a família acompanha Lurdes na Redenção. Todos vão de manhã, almoçam e passam o dia lá. Enquanto ela cuida das vendas, as crianças brincam em volta. A banca de artesanatos da família funciona na redenção desde 1996. Eles ficam no parque sábado e domingo. Durante a semana, vendem em Gramado e Caxias do Sul.

Jhoni, 30 anos, afirma que o cercamento seria muito ruim para todos. “Acredito que o projeto não vai para frente, pois os comerciantes não vão autorizar. O prefeito tem que fazer reunião com todos os caciques para decidir isso”, espera.