A literatura não tem rosto de mulher

A partir da escolha de uma mulher para a patronagem da Feira do Livro de Porto Alegre, o Editorial J investigou a presença delas na literatura

As 12 ganhadoras do Prêmio Nobel de Literatura: Doris Lessing, Grazia Deledda, Nelly Sachs, Selma Lagerlöf, Herta Müller, Elfriede Jelinek, Alice Munro, Wislawa Symborska, Svetlana Alexijevich, Gabriela Mistral, Pearl Buck e Toni Morrison // Mosaico: Annie Castro

Por Annie Castro (5º semestre), Bibiana Garcez (6º semestre), Mia Sodré (2º semestre) e Sofia Lungui (2º semestre)

O fato de eu ser casada com um escritor fez algumas pessoas pensarem e dizerem que meu marido havia escrito meu primeiro livro.” Essa frase é da escritora gaúcha Valesca de Assis, que começou a publicar livros quando já tinha mais de 40 anos, apesar de escrever desde criança. Ela é casada com Luiz Antonio de Assis Brasil, autor já consagrado no meio literário brasileiro, e sofreu muito preconceito após sua primeira publicação. Essa poderia ser apenas uma história pitoresca para contar futuramente aos netos em uma roda de conversa se não se tratasse de algo sério e que ocorre frequentemente no meio literário: o preconceito contra mulheres que escrevem.

Neste ano, a 62ª Feira do Livro de Porto Alegre teve uma mulher como patrona, a escritora premiada Cíntia Moscovich. A Feira, que só começou a ter um patrono todos os anos a partir da 11ª edição, teve, dentre mais de 50 edições, somente cinco autoras com o título. A primeira foi Maria Dinorah, em 1989, seguida por Lya Luft (1996), Patrícia Bins (1998) e Jane Tutikian (2011). Além disso, segundo levantamento exclusivo feito pelo Editorial J, das 865 sessões de autógrafos que ocorreram neste ano, 60% foram feitas por homens e 40% por mulheres — isso sem levar em conta quem se inscreveu como “vários autores”, classificação muito comum nas categorias de livros acadêmicos. Os dados sobre as sessões de autógrafos foram coletados e comparados a partir do próprio site da Feira do Livro deste ano.

Infográfico: Annie Castro e Daphne Constantinopolos

Cíntia, que já foi indicada cinco vezes à patronagem do evento, conversou com o Editorial J por telefone rapidamente, pois iria viajar no mesmo dia. A patrona deste ano acredita que isto é um reflexo da cultura da nossa sociedade: “A mulher possui menos tempo para escrever porque ela sempre foi educada para ser uma criadora, para cuidar da casa e dos filhos”, afirmou. No entanto, Cíntia também acredita que as escritoras estão avançando no campo da literatura. “Talvez em breve não seja novidade uma mulher ser patrona da Feira do Livro”, argumentou.

Em contrapartida, Juliane Welter, doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ministrante do curso de extensão “Narração e autoria feminina”, pensa que, apesar das conquistas recentes, as mulheres não devem se sentir cômodas. Para ela, representatividade é importante, por isso é positiva a escolha de uma mulher para a patronagem, mas não é tudo. “Ao mesmo tempo, temos que pensar de que maneira isso impacta politicamente a coisa toda, pois o fato de uma mulher ocupar o cargo não garante uma patronagem progressista (ou não conservadora)”, disse a doutora.

Contudo, a desigualdade entre gêneros no campo literário não é uma exclusividade da Feira do Livro ou de Porto Alegre. A equipe do Editorial J fez um levantamento de dados de vários prêmios literários ao redor do mundo e averiguou que o problema da falta de reconhecimento da escrita feminina não é algo local, mas generalizado e difundido entre o mercado literário. Entre os que conquistaram o Prêmio Nobel de Literatura, um dos mais consagrados da área, apenas 10,62% são mulheres. Já o prêmio Goncourt, da França, teve 7,14% de vencedoras. Quanto aos livros classificados como 100 melhores do século 20, pelo jornal Le Monde, apenas 12 deles são de escritoras. Já em terras tupiniquins, Regina Dalcastagnè, doutora em Teoria Literária, professora de Literatura Brasileira na Universidade de Brasília (UnB) e crítica literária, fez uma pesquisa sobre o perfil do romance brasileiro contemporâneo e constatou que 72,2% dos escritores brasileiros são homens.

Infográfico: Annie Castro e Daphne Constantinopolos
“Vivemos um momento de visibilidade midiática e de legitimidade superficial, que nos engana sobre esta questão, a de que as mulheres estão no mesmo patamar dos homens”

O pouco reconhecimento e falta de representatividade feminina nas grandes premiações são sintomas do lugar ainda precário e insuficiente que as mulheres ocupam na cultura e em outras áreas. Segundo Lélia Almeida, doutora em Literatura da América Latina na Argentina, o mercado editorial — que envolve os editores, a crítica literária, os prêmios, os concursos, as antologias, a academia, entre outros — ignora soberbamente a produção literária das escritoras. “Não há uma crítica especializada séria e elas ainda são minorias em todos os âmbitos citados acima — cultural e político”, disse Lélia, e continuou: “Porém, vivemos um momento de visibilidade midiática e de legitimidade superficial, que nos engana sobre esta questão, a de que as mulheres estão no mesmo patamar dos homens”.

No entanto, a jornalista e editora de Cultura da Zero Hora, Cláudia Laitano, acredita que o gênero é um tópico muito recente quando se trata de grandes premiações literárias. “Um prêmio nunca é só literatura. Nem o da Feira do Livro nem o Nobel. E também não é só gênero. Por exemplo, a Academia Sueca sabe que ela não pode passar cinco ou dez anos sem premiar uma mulher porque não vivemos mais neste mundo. Mas ela tem outras obrigações também: uma pauta política, uma pauta geográfica, de idade”, afirmou. Segundo ela, essa recente visibilidade às pautas de gênero só surgiu pois a geração atual está colocando o feminismo em evidência e discutindo esses tópicos. Porém, de acordo com Cláudia, esse avanço no mercado literário só foi possível após os anos 1960. Sendo assim, ainda é algo muito recente e quase nada estruturado. Na visão da editora, o que se deve manter em mente ao falar nesse assunto é que esse período ainda é pouco para uma grande e definitiva mudança de comportamento do mercado literário. “50 anos atrás foi ontem”, concluiu.

O movimento feminista, cada vez mais em voga nas pautas de redes sociais e até mesmo no meio acadêmico, tem servido de grande alerta para que se atente à literatura: quem a faz, quem a lê, como são construídas as personagens e qual é o papel da mulher em tudo isso. Karine Lucena, doutora em Letras com ênfase nas Literaturas de Língua Espanhola pela UFRGS, diz que o movimento tem um papel muito importante na desconstrução de preconceitos e de ideias ultrapassadas. “Os avanços do feminismo têm sido determinantes para desnaturalizarmos o machismo no campo literário. Ainda estamos longe de um equilíbrio entre escritores e escritoras nos panoramas literários, programas de ensino, premiações, grandes cargos etc., mas avançamos muito nos últimos anos”.

Infográfico: Annie Castro e Daphne Constantinopolos

Lev Vygotsky, renomado teórico da Psicologia bielorrusso, criador da Teoria do Desenvolvimento Cognitivo e também estudioso de Literatura, afirmava em seus estudos que o ser humano é produto de seu meio, que a criação humana é consequência daquilo a que somos expostos e do que vivenciamos, das experiências acumuladas. Portanto, a escrita, assim como seus autores, é influenciada por diversos fatores, sejam eles externos ou internos, que acabam pautando os assuntos que serão abordados pelos escritores. A escrita de mulheres acaba sendo, por vezes, encaixada num estereótipo feminino: intimista, pessoal, romantizada e sentimental. Uma vez que elas possuem um papel pré-determinado na sociedade, que espera que sejam maternais, sensíveis e cuidadoras. “É importante ampliarmos a ideia de uma autoria feminina que não se reduz ao que tradicionalmente é enquadrado como características da ‘feminilidade’ e que também coloca a literatura escrita por mulheres como menor em relação àquela escrita por homens, brancos, de classe média etc.”, reforçou Juliane.

“Como que tu vai juntar a Elena Ferrante com a Stephenie Meyer (Saga Crepúsculo)? O que elas têm a ver além do gênero? Nada. E ninguém jamais pensaria aproximar uma da outra, não fosse que o sexo feminino tenha sido sempre tratado como uma coisa que pudesse ser embalada num saco de gato só”

Cláudia complementa que, apesar do gênero influenciar, de certa forma, o texto das escritoras, ele por si só não basta para determinar que há ali uma literatura feminina. No entanto, ainda é comum rotular escritoras, com uma interpretação de que livros escritos por mulheres possuem certas características em comum. “Quanto mais mulheres estão escrevendo, mais coisas diferentes estão sendo escritas por mulheres. Então é cada vez mais difícil tu encaixotar isso num estereótipo. Como que tu vai juntar a Elena Ferrante com a Stephenie Meyer (Saga Crepúsculo)? O que elas têm a ver além do gênero? Nada. E ninguém jamais pensaria aproximar uma da outra, não fosse que o sexo feminino tenha sido sempre tratado como uma coisa que pudesse ser embalada num saco de gato só”, explicou a editora.

Parece haver uma conexão das mulheres escritoras com literatura infanto-juvenil. Das cinco patronas da Feira do Livro, três possuem obras dedicadas a jovens e crianças. O levantamento do Editorial J mostra que dentre todos os prêmios literários apurados, o único que possui um equilíbrio no número de escritoras ganhadoras é o Hans Christian Andersen, de literatura infanto-juvenil, tendo 23 mulheres premiadas para 34 homens, ainda em maioria. Para Lélia, esta não é uma coincidência: “Ser escritora de literatura infanto-juvenil é uma extensão de ser a professora da creche, da escola, da babá, da mãezinha. Infelizmente, as mulheres são mais aceitas quando cumprem um papel de cuidadoras. E esta identificação tem a ver também com uma cultura para quem a maternagem encontra sinonímia com a feminilidade”, constatou.

“Até há muito pouco tempo as mulheres eram apenas personagens. De repente, com uma diferença de séculos, começamos a escrever e a tentar editar. Isso não deixa de ser um choque cultural”, completa a escritora Valesca, que também argumenta que essa lentidão da aceitação da mulher como escritora se dá pelo fato de que o meio literário ainda confia mais no livro de um homem do que no de uma mulher. Para Lélia, o principal problema do machismo no meio literário é o ponto de vista dos homens sobre a escrita feminina, por ainda pensarem que ela se resume a histórias de amor. “Os leitores e escritores homens não leem as mulheres e não conhecem a visão de mundo que elas expressam em sua produção literária. Continuam sendo vistas como histéricas, autistas, exageradas e outras concepções”, explica. Ela acrescenta que este é um contexto mais amplo do que a literatura: “Este é o mundo em que vivemos, infelizmente, um mundo onde as mulheres, de muitas maneiras e em diversos âmbitos são cidadãs de segunda ou quinta classe e não estaremos aqui para ver esta mudança acontecer”.

Maiores leitoras X menos lidas

Quando você olha para a sua estante de livros, quantos deles foram escritos por mulheres? Quantas obras escritas por elas você lê ao ano? Estas foram algumas das perguntas que as idealizadoras do Leia Mulheres* fizeram a si mesmas. O projeto é um coletivo que procura fomentar a leitura de autoras por meio de reuniões mensais, nas quais as participantes discutem livros escritos por mulheres. Formado em São Paulo e no Rio de Janeiro no começo de 2015, o coletivo possui mediadoras e colaboradoras em diversas cidade do país. Além disso, as integrantes mantêm um blog com textos e resenhas.

“As mulheres representam mais de 50% da população mundial, e menos de 30% dos escritores publicados são mulheres. Como feminista, vejo isso como um problema”

“Particularmente naquele ano eu havia lido só homens, sem perceber” contou Clarissa Xavier, que é a organizadora dos encontros do grupo em Porto Alegre. A cientista da computação e estudiosa da literatura feminina relatou que nunca havia parado para pensar no tema e quando foi checar na sua prateleira, percebeu que a maioria das obras que tinha em casa eram escritas por homens. Para Clarissa, as autoras não são suficientemente lidas atualmente. “As mulheres representam mais de 50% da população mundial, e menos de 30% dos escritores publicados são mulheres. Como feminista, vejo isso como um problema”, explicou.

Em contrapartida, pesquisas apontam que as mulheres são as maiores leitoras do país. Conforme a 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro em 2015, elas constituem 59% do total de leitores brasileiros (confira mais detalhes no gráfico).

Infográfico: Annie Castro e Daphne Constantinopolos

Um quartinho para poder escrever

Atualmente, algumas autoras conseguem viver da literatura, não precisando de outra profissão para obter seu sustento. No passado, contudo, o quadro das mulheres era mais difícil. Trabalhando arduamente para cuidar dos filhos ou envolvidas com as tarefas de casa, as que tinham vontade de escrever muitas vezes não possuíam tempo ou espaço para a atividade.

A reconhecida escritora Virginia Woolf, em A room of one’s own, menciona que um quartinho é o mínimo que uma mulher precisa para poder escrever, uma referência tanto de Cláudia quanto de Juliane. A editora da Zero Hora considera o processo de inserção da presença feminina na Literatura ainda muito incipiente: “observe mulheres como Jane Austen, a primeira a escrever como profissão e ter reconhecimento em vida: ela nunca se casou. Ela tinha tempo para escrever porque não constituiu uma família e também não precisou trabalhar. Mas por muito tempo o fato de se ter um espaço, não só físico mas também simbólico para escrever, era uma exceção”, afirmou.

A dificuldade da mulher para ser aceita no meio literário é algo estrutural, independente de seu estilo de escrita, pois ainda há quem a veja como a cuidadora do lar, com livros no lugar de hobby, não de profissão. Juliane acha que esse problema está relacionado com o caráter estético da análise da literatura: “alguém pode dizer que há menos qualidade nas escritoras. Bem, aí temos que pensar em quanto dessa leitura não é pré-concebida, e o quanto ela está de fato ligada a fatores estéticos, que são o centro da análise literária”, reflete.

*Os encontros do coletivo Leia Mulheres são mensais e abertos, e ocorrem na Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães, em Porto Alegre. Mais informações podem ser encontradas no grupo do Facebook “Leia Mulheres Porto Alegre — RS”, atualizado pelas integrantes.

**O título do texto faz referência ao livro A guerra não tem rosto de mulher, de uma das vencedoras do Prêmio Nobel de Literatura. A bielorrussa Svetlana Aleksiévitch ganhou o prêmio em 2015.