Levantamento do J: pesquisas mais próximas da eleição são mais fieis ao resultado final

Segundo histórico das últimas quatro eleições presidenciais, pesquisas eleitorais feitas com maior proximidade da data do primeiro turno têm alto índice de acerto.

As eleições no Brasil acontecerão no próximo dia sete de outubro. Com a aproximação do pleito, a frequência de pesquisas eleitorais é crescente, o que traz à tona discussões sobre a eficácia e influência desse tipo de apuração. Levantamento do Editorial J indica que as pesquisas para presidente de 2002 até 2014 tiveram proximidade com os resultados nas urnas, em primeiro turno.

Diferente de processos como o Censo, em que se entrevista toda a população do país, o método utilizado por pesquisas eleitorais segue outro padrão, chamado pesquisa por amostragem. Nesse caso, uma pequena parcela dos cidadãos é consultada, geralmente cerca de duas mil pessoas. Elas são escolhidas com base em dados do IBGE, considerando uma série de características como idade, sexo, escolaridade e distribuição regional, para que possam traduzir o conjunto dos cerca de 136 milhões de eleitores brasileiros. Diante disso, surgem os questionamentos sobre a real eficácia das pesquisas. No entanto, de acordo com o Guia de leitura de pesquisas eleitorais do Ibope, a questão central sobre pesquisa é que elas envolvem estimativas:

“é preciso ter sempre claro que as pesquisas não são infalíveis, pois seus resultados não representam números exatos, mas sim estimativas.”

No geral, meios de comunicação contratam pesquisas de um determinado instituto. O contratante tem como uma de suas obrigações tornar públicos os resultados e informações metodológicas, como por exemplo a margem de erro, número de eleitores entrevistados, registro no TSE entre outras. Com base em levantamento feito pelo Editorial J, desde o processo eleitoral presidencial de 2002 os institutos Datafolha e Ibope têm acertado no resultado do vencedor. No entanto, entre janeiro e outubro dos anos em questão as porcentagens se distinguem. Pesquisas feitas com maior espaço de tempo do dia da votação geralmente não se aproximam dos números finais.
 
De modo geral, as pesquisas com maior proximidade do dia da votação têm uma maior fidelidade aos resultados do primeiro turno. Nas últimas quatro eleições presidenciais, o percentual de intenção de voto nos meses de janeiro e fevereiro pouco se aproximam do resultado final. A exceção é o ano de 2014, em que tanto o Datafolha como o Ibope já apontavam a candidata Dilma Rousseff como presidente reeleita. Desde janeiro de 2014, a candidata já aparecia na dianteira das pesquisas, com intenções de voto entre 43 e 47% no Datafolha e entre 40 e 43% no Ibope (confira os gráficos abaixo, relativos apenas ao desempenho de Dilma Rousseff). Ao fim da reportagem estão gráficos que ilustram os números das demais eleições.

A diferença nos resultados dos diferentes institutos pode ser explicada, entre outros fatores, pela margem de erro. Cada instituto define sua margem de acordo com a amostragem, universo e resultados da pesquisa em questão. A margem de erro nada mais é que a estimativa máxima de equívocos nos resultados quantitativos. Quanto maior a margem de erro, menos precisa é a pesquisa. Outro fator determinante para a eficácia dos dados coletados é o tempo para a divulgação. Já segundo o material de dúvidas do Datafolha, pesquisas envolvem registros temporais específicos:

“a pesquisa é a fotografia de um momento específico dentro de um processo dinâmico. Quanto mais demorada a divulgação, maior são as chances do cenário fotografado mudar e os resultados se tornarem defasados.”

Pesquisas de opinião também podem ser usadas como ferramenta de manipulação e influência, considerando o fato de que nem toda população consegue interpretar os dados plenamente. Para a especialista em Teoria do Jornalismo e Comunicação de Massa e professora de Comunicação Glafira Furtado, a interpretação dos dados divulgados depende em maior parte do nível de instrução do eleitor. “Se tratando do Brasil, um país com dimensões continentais e com uma enorme diversidade cultural, fica muito difícil a questão da interpretação dos resultados da pesquisa”, coloca. Segundo o material do Ibope, há outros fatores que também influenciam os eleitores: “fica muito difícil saber qual o efeito isolado que as pesquisas têm na decisão de voto do eleitor, uma vez que todos estão expostos a muitas outras fontes de informação”. Já para a professora, eleitores sem raízes ideológicas estão mais suscetíveis à influência das pesquisas, tornando o voto um processo mais “emocional” e menos “racional”.

Além disso, é muito difícil comparar pesquisas de diferentes institutos. Já que não têm a mesma margem de erro, amostragem e universo, os resultados acabam sendo distintos. Mas números que diferem entre institutos não significam maior ou menor confiabilidade dos mesmos. Cada pesquisa tem seu intervalo de confiança, isso é, em comum acordo entre cliente e instituto se estabelece a probabilidade de uma pesquisa conseguir resultado equivalente mesmo que aplicada em outro grupo de pessoas que obedeçam as mesmas características e com a mesma margem de erro anterior. O mais usual é utilizar um intervalo de 95%. Ou seja, se aplicada 100 vezes, a pesquisa teria resultados dentro da margem de erro em 95 casos, ou um erro a cada 20 pesquisas.

O Brasil detém uma ampla legislação eleitoral, onde estão previstas certas regras acerca das pesquisas eleitorais. Infrações aos regulamentos previstos na legislação são passíveis de multa e até sanções criminais, aplicadas pela justiça eleitoral. Por exemplo, a divulgação de pesquisa fraudatória constitui crime. De acordo com a professora Furtado, as pesquisas eleitorais podem interferir no resultados das eleições mas não determiná-las.

Em 2018, o cenário eleitoral presidencial ainda é turbulento. Trâmites jurídicos alteram constantemente a configuração dos candidatos, que ainda foi tumultuada pelo recente atentado a Jair Bolsonaro. Em janeiro deste ano, o Datafolha apontava o candidato Lula como potencial vencedor, Jair Bolsonaro aparecia em segundo lugar, seguido por Marina Silva no terceiro. Em junho o Ibope apresentou resultados semelhantes, com os candidatos na mesma colocação. No entanto, em primeiro de setembro o Tribunal Superior Eleitoral decidiu por 6 votos a 1 rejeitar a candidatura do ex-presidente Lula. No dia 11 de setembro, o PT confirmou a candidatura de Haddad, em substituição a Lula. Sem o ex-presidente nas pesquisas, o Ibope apontou em 18 de setembro, Jair Bolsonaro (28%) assumindo o primeiro lugar nas intenções de voto, seguido por Fernando Haddad (19%) em segundo e Ciro Gomes (11%) em terceiro. No Datafolha divulgado em 20 de setembro, Jair Bolsonaro (28%), Fernando Haddad (16%) e Ciro Gomes (13%) dispõem do primeiro, segundo e terceiro lugar respectivamente.

O primeiro turno de 2018 acontece no dia sete de outubro, com votação para deputados estaduais e federais, senadores e presidente da república. O segundo turno acontece no dia 28 do mesmo mês.

Confira os gráficos que comparam os números de pesquisas feitas com maior e menos espaço de tempo com relação a data das eleições. Os números apresentados se referem apenas aos respectivos candidatos eleitos em cada ano.