Capítulo III — Imprensa: vítima ou culpada?

Yasmim Girardi
Jul 17, 2018 · 3 min read

Divulgação de notícias falsas provoca questionamento sobre o papel da imprensa que já publicou inverdades

Confira o capítulo IV — Processos eleitorais são terreno fértil para manipulação.

A imprensa possui um papel central nas discussões que envolvem o contexto da pós-verdade. O quanto é vítima ou, ao contrário, culpada neste cenário deveria ser debatido. A mídia corporativa tem um grande histórico de envolvimento com notícias falsas e, segundo o professor do curso de Jornalismo da PUCRS e jornalista internacional Luiz Antônio Araújo, esta não é a primeira vez que a imprensa se depara com uma crise de confiabilidade.

“O jornalismo enfrenta uma crise de credibilidade que tem como uma das suas razões a questão tecnológica, mas que também está ligada às próprias atitudes do jornalismo”, frisa Araújo.

As novas tecnologias aumentaram o número de envolvidos nesse fenômeno principalmente porque o domínio da verdade deixou de ser exclusividade dos grandes jornais e redes de televisão, dando espaço e oportunidade para veículos menores. Estes possuem a mesma capacidade de produção de conteúdo que os grandes veículos tinham poucas décadas atrás. Dessa forma, as fake news tornam-se fáceis de serem produzidas, uma vez que, conforme o professor Araújo, “o monopólio da credibilidade estava consubstanciado no fato de que era muito difícil criar uma edição falsa de jornal”. Além disso, a produção de informações falsas é muito mais barata do que a de conteúdo verdadeiro, lamenta.

A jornalista e doutoranda em comunicação Taís Seibt acredita que a mídia não é a responsável direta por esse acontecimento.

“A imprensa é um meio, que pode muitas vezes ser usado como veículo para propagação de notícias falsas”, destacou.

Embora não creia que a mídia corporativa precisa se redimir, Taís afirma que o papel de vítima ou heroína depende exclusivamente da posição da imprensa diante destes acontecimentos. O professor Araújo assinala que a primeira medida a ser tomada para a mudança é admitir os erros, tendo em vista que parte da culpa pela existência e propagação das mentiras é o modo como os veículos tratam as notícias. Ambos concordam que os valores do jornalismo precisam ser reafirmados para que esse cenário se transforme.

“É senso comum que, nas redações dos veículos, os mais velhos dominam mais a técnica de apuração enquanto os mais jovens conhecem melhor as novas tecnologias”, afirma Taís Seibt. Ao mesmo tempo em que a pesquisadora acredita que a solução para essa crise seja a união de todas as gerações em prol de apurações mais verídicas e confiáveis, o professor defende a ideia de que cabe à nova geração criar um novo modelo de jornalismo para suprir as necessidades atuais do público e da própria profissão. Além disso, ele garante que enquanto os amadores produzirem conteúdo jornalístico no mesmo nível que os profissionais da área, o parâmetro de exigência para os jornalistas deve se elevar. “No momento em que todos produzem esse tipo de conteúdo, eu não posso ter o mesmo padrão e reproduzir isso na mídia profissional”, coloca Araújo.

O jornalista destaca que chegará um momento em que não haverá diferença entre profissionais e amadores, e que isso deveria servir de motivação para futuros jornalistas.

Existe ainda a ideia de que o desejo e, não raras vezes, obrigação de ser o primeiro veículo a noticiar algo é outro grande fortalecedor desse problema. É fato que as famosas barrigadas jornalísticas criam um terreno fértil para interpretações. No entanto, as notícias falsas não são oriundas apenas de falhas jornalísticas, mas de um intuito de enganar o leitor, o que faz com que este tipo de acidente não se encaixe no conceito de notícia falsa.

Editorial J Famecos

O Editorial J é o laboratório de Jornalismo Convergente da Famecos/PUCRS que produz conteúdo multimídia para diferentes plataformas (impressas, eletrônicas e digitais).

Yasmim Girardi

Written by

Estudante de jornalismo.

Editorial J Famecos

O Editorial J é o laboratório de Jornalismo Convergente da Famecos/PUCRS que produz conteúdo multimídia para diferentes plataformas (impressas, eletrônicas e digitais).

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