Maria Cristina da Silva Gonçalves, 32 anos, assessora comunitária do DMAE, dedicou suas horas vagas ao trabalho voluntário no Ginásio Tesourinha. Foto: Annie Castro

Com amor, o trabalho dos voluntários no Ginásio Tesourinha

Por Annie Castro (3º sem.) e Juliana Baratojo (4º sem.)

As chuvas incessantes de outubro ultrapassaram a média histórica em 61 anos e deixaram mais de 3 mil desabrigados em Porto Alegre. As ilhas do bairro Arquipélago foram as mais atingidas. Situadas entre o Lago Guaíba e o Delta do Rio Jacuí e sem contenção alguma, ficaram cobertas de água. O Ginásio Tesourinha, na Capital, serviu de abrigo para 250 pessoas da Ilha Grande dos Marinheiros.

A população gaúcha se mobilizou com a situação e chegaram muitas doações ao local. Roupas, mantimentos, produtos de higiene e limpeza, água e colchões. Porém, os desabrigados precisavam também de atenção e cuidado. Equipes diárias de mais de 100 voluntários disponibilizavam o que cada pessoa precisava e desenvolveram relações com aqueles que perderam tudo. O trabalho dessas pessoas foi fundamental no atendimento dos que foram acolhidos no local, juntamente com as equipes da Defesa Civil e da Prefeitura Municipal de Porto Alegre.

Durante 18 dias, os voluntários do Tesourinha separaram roupas e mantimentos e montaram kits, conforme a necessidade de cada família atendida. Muitos chegavam sem nada e buscavam nas salas de doações o mínimo necessário para recomeçar. A cozinha também contava com muitos voluntários encarregados de alimentar a todos. Essas pessoas se dispuseram a mudar sua rotina para auxiliar aqueles que tiveram o cotidiano alterado em função das chuvas.

Ao acompanhar o drama dos desabrigados, o Editorial J constatou também a força da solidariedade e a disposição de pessoas voluntárias como Angela Maria, André Costa, Augusto Fernandes, Nara Sonallio, Marli Rosane Werlang, Vera Aguiar, João Jorge Silva e Maria Cristina da Silva Gonçalves; alguns daqueles cidadãos que ajudaram a tornar menos penosos os dias que os desabrigados passaram fora de casa.

Vera Aguiar, 60 anos, aposentada.

Fotos: Annie Castro (3º semestre)

“A sensação de estar aqui ainda não é de dever cumprido, mas sou movida pelo espirito solidário. Estar aqui é poder fazer alguma coisa a mais por essas pessoas, porque isso tudo que está acontecendo é muito triste.

No momento em que tua casa está inteirinha, sem problema nenhum, e tu vê eles aqui sofrendo, perdendo tudo, acho que a obrigação nos traz pra cá. Obrigação de coração, de sentimento solidário que nos faz fazer isso. Sou muito emotiva e, por conta de toda essa emoção, eu largo tudo pra vir pra cá.”

Nara Sonallio, 38 anos, produtora audiovisual.

Fotos: Juliana Baratojo (4º semestre)

“Sempre faço trabalho voluntário, mas nunca tinha passado por uma tragédia assim. Porque as pessoas vêm, falam, a gente vê na mídia, mas quando tu vê de perto as pessoas chegando sem nada, não tem como não ajudar.

Sou produtora audiovisual, então, eu trabalho com projetos, eu consigo coordenar os meus horários. Não peguei nenhum projeto esses últimos dias, porque eu não sei até quando vou ficar aqui.

A gente quer que termine esse trabalho aqui, mas sabe que não vai terminar tão cedo. As tragédias não estão só nas ilhas, nem só quando chove. Então, as doações estão indo pra todos lugares.”

Muitos dos kits montados pelos voluntários continham dedicatórias, todo o trabalho era realizado o com muito amor e afeto. Foto: Juliana Baratojo (4º semestre)

Angela Maria, 57 anos, técnica de enfermagem no HPS.

Foto: Juliana Baratojo (4º semestre)

“O que me moveu foi a tristeza de ver o povo assim sofrendo, chegarem e dizerem: eu perdi tudo. Eu trabalho com vidas, trabalho à noite no HPS e me motiva muito. Eu saio do serviço, venho direto pra cá e fico até o outro dia.

É muito gratificante chegar, entregar o que eles precisam e as pessoas dizerem 'muito obrigada'. Esse muito obrigada já te basta. Amo trabalho voluntário.”

Sala de doações ondem montados kits com roupas para desabrigados. Fotos: Annie Castro e Juliana Baratojo

Marli Rosane Werlang, 56 anos.

Foto: Annie Castro (3º semestre)

“Sou voluntária sempre. O meu normal é ser voluntária quando precisa. Fui no show no Araújo Viana no sábado e vi que foram recolhidos muitos mantimentos, aí eu pensei 'eles vão precisar de gente para fazer os kits', aí vim aqui e realmente estavam precisando. Quando vem um arroz, um mantimento que está faltando, a gente vibra e fica feliz, porque queremos montar kits completos.”

João Jorge Silva, 60 anos, servidor público.

Foto: Annie Castro (3º semestre)

“Sabendo do desespero dessas pessoas, muita gente vem pra cá. Tem muitas pessoas morando aqui dentro. Então a gente vem, faz comida, serve e fora do horário do almoço ficamos encaixotando esse material para fazer a distribuição às famílias. Quando forem para casa levarão caixas e caixas de rancho para terem uma sobrevida por um bom tempo até voltar a trabalhar ou fazer o que acham que devem fazer.

Seguidamente, a gente precisa ajudar alguém, e todos nós somos assim. Quando vemos alguém sofrendo queremos ajudar. É natural que isso aconteça e isto aqui foi um exemplo de muitas e muitas pessoas trabalhando de graça e com o maior esforço; realmente tem funcionado bastante bem e o povo porto-alegrense nessas horas ajuda bastante os menos favorecidos. Não tem outra forma dessas pessoas sobreviverem, comerem e, enfim, realmente ficaram grande parte delas debaixo d’água. Não tinham como ficar em suas casas, tiveram que sair e vieram pra cá.”

André Costa, 39 anos, produtor de eventos.

Fotos: Juliana Baratojo (4º semestre)

“ Tudo começou porque meu amigo me falou que ia passar o dia aqui ajudando. Foi quando resolvi fazer a mobilização no meu prédio, e vim pra cá, me botei como voluntário. Tenho vindo todos os dias, e passo o dia aqui. Estou aqui até agora. Sou cozinheiro dos amigos, já fui voluntário em outras atividades, sei cozinhar, mas não tenho diploma nem nada. Nossa cozinha é muito abastada, até pela solidariedade das pessoas. Graças a Deus nunca falta nada pra gente fazer a comida, e com o que tem a gente faz vários pratos. Trabalho com eventos, então eu consegui conciliar, às vezes saio daqui correndo, vou lá, monto o que tenho que montar e volto pra cá. Mas a minha vinda foi pra ajudar mesmo, a situação que está. Eu sou daqui de Porto Alegre, nasci e me criei aqui, e nunca vivi uma situação como essa.

Fotos: Juliana Baratojo e Annie Castro

Augusto Fernandes, 69 anos, aposentado.

Foto: Annie Castro (3º semestre)

“Eu e um colega trouxemos panelas e começamos o trabalho. Aí, eu dei uma entrevista, segunda-feira, para o Jornal do Almoço e o público se sensibilizou e começaram a chegar panelas, bacias, pratos, carne, frango e começou tudo. Vir para cozinhar. Foi a minha iniciativa, porque gosto das pessoas, eu acho que os necessitados precisam, todo mundo tinha que fazer um pouco disso. Esse é o meu trabalho, chego aqui às 7h e vou embora 10 horas da noite. Ver o sofrimento, elas de repente perderem tudo, isso sensibiliza a gente a doar mais e dar mais da gente.”

Augusto Fernandes e Maria Cristina Gonçalves, ambos voluntários na cozinha, onde ajudam no preparo das refeições. Fotos: Juliana Baratojo

Maria Cristina da Silva Gonçalves, 32 anos, assessora comunitária no DMAE.

Fotos: Annie Castro (3º semestre)

“Na segunda-feira, Dia das Crianças, cheguei às 9h e não quis sair mais. Vim para ajudar, para ser mais uma colaboradora. Para ajudar esse povo que demorou uma vida para conseguir e perdeu tudo num piscar de olhos. É sempre bom a gente ajudar porque isso enriquece a alma. Hoje, trabalho como assessora comunitária e quem lida com comunidade já tem isso, então tu não mede forças para poder ajudar as pessoas. Tu fazendo para os outros pode ter certeza que lá na frente tu vai ser recompensado.”

Fotos: Annie Castro (3º semestre) e Juliana Baratojo (4º semestre)
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