Manifesto sobre a escrita

Eu não deveria precisar te convencer a escrever mais e melhor, mas tentarei mesmo assim.

Todo ano fazemos promessas a nós mesmos. Este ano eu comerei menos besteira, tomarei menos refrigerante, irei mais vezes à academia, não comprarei tantos sapatos, farei uma especialização para conseguir a tão sonhada promoção no trabalho, lerei mais livros; os itens da lista variam conforme a personalidade de cada um.

Uma promessa que não vejo com tanta frequência, porém, é a da escrita. Além de mim mesmo, acho que ninguém nunca me disse que pretendia escrever mais durante o ano. É, acho que nunca vi.

Eu acredito, porém, que a escrita deve ser praticada por todos. É, isso mesmo, todos. Não importa se você é uma dona de casa, um carpinteiro, um metalúrgico, uma contadora ou um engenheiro. Não importa se a escrita não te trará uma promoção no serviço ou não te trará mais dinheiro. Se não trará a pessoa amada, ou se você é de exatas, e não de humanas. Você deveria escrever.

Escreva para pensar melhor

Eu vejo tanta gente que não lê e não escreve porque acha chato, coisa de nerd, desnecessário. Tanta gente que, só de ouvir a sugestão, já torce o nariz e se afasta de quem a fez.

Não se limite a isso. Quem não tem o hábito da escrita, não desenvolve o hábito do pensamento organizado; quem não organiza aquilo que está em sua própria cabeça, além de não viver direito, não faz o melhor uso de sua inteligência, e não toma as melhores decisões que poderia.

Não jogue fora a principal característica que te diferencia de um cachorro, um macaco ou um porco. Não se limite a ser um humano mediano, que apenas está aqui de passagem. Pense, organize, escreva, crie. Você foi agraciado com um dom enorme ao nascer um ser humano; faça um bom uso dele.

Não se limite.

Escreva para defender suas convicções

Certa vez, um amigo me disse que não entendia o motivo de eu escrever na internet. Segundo ele, todas as opiniões que ele tinha, guardava para si, uma vez que era perda de tempo escrevê-las e botar à prova da opinião alheia.

Essa é uma péssima ideia.

Nós tentamos a todo custo inventar desculpas para não botar a mão na massa e praticar a escrita. Somos ainda mais criativos quando queremos proteger nossos egos do rolo compressor que pode ser uma opinião contrária e bem estruturada. Para muitos, descobrir que está errado é uma ofensa; o melhor a fazer é ficar quietinho, e não gerar conflitos.

Eu não poderia discordar mais.

Pela minha experiência, toda pessoa que tem um valor e que não organiza sua razão em torno dele, tende a enfraquecê-lo.

Você pode, por exemplo, ser totalmente contrário ao uso de drogas. Se você simplesmente botar isso em sua cabeça e nunca pensar no porquê da opinião que possui, estará aumentando em muito as chances de ser convencido do contrário por alguém que fez o dever de casa da argumentação.

Talvez você seja um cabeça dura e não aceite os argumentos alheios, é verdade, mas e se você precisar convencer o seu filho, por exemplo, da “razão de ser” daquele valor que tanto preza? Se você não pratica seu pensamento organizado, provavelmente precisará usar da força. E a força dos pais, bem sabemos, desaparece quando o filho começa a pagar as próprias contas, e normalmente se traduz numa rebeldia que causa o efeito contrário.

Escreva. Pratique o embate de ideias. Coloque seus valores à prova. Solidifique suas verdades, ou aprenda uma versão melhor com os outros e dê a cara à tapa com ela também. Não espere a vida te obrigar, sem o mínimo preparo prévio.

Escreva para se tornar um melhor aluno

Quando penso na importância da escrita, acabo pendendo também para um problema e uma situação muito particular: eu não tenho uma boa memória.

Talvez você saiba de cabeça quais os vinte primeiros decimais do pi. Eu não consigo lembrar nem do placar do último jogo do Corinthians, ou do que comi no jantar de ontem.

Escrever me ajuda demais nesse sentido. Frequentemente, ao ler algo que eu produzi há um ou dois anos, eu me pego pensando: uau, sério que eu sabia disso esse tempo todo, e não lembrava?

Anotar e organizar seus conhecimentos, seja por meio da exposição para os outros — o que é ótimo, pois influencia que outras pessoas também o façam e ajuda a compartilhar o conhecimento — ou para manter os escritos privados, é um ótimo auxílio à sua memória.

Cada vez que você escreve e/ou lê aquilo que foi escrito, cria novas conexões entre seus neurônios, que facilitam a absorção daquele conhecimento; facilitam a memorização e a aprendizagem, te tornando, a grosso modo, mais inteligente.

O ato de escrever, porém, não é um trabalho definitivo. Aquele que quer escrever bem, deve retornar aos seus textos antigos e comparar com os atuais.

O que melhorou, de lá pra cá? O que piorou? O que posso fazer para mudar para melhor?

Cada vez que você analisa criticamente algo que produziu, você se torna um produtor melhor.

Quando a moda dos chats da internet começou a pegar, muito se discutia em torno do uso ou não das gírias e das abreviações. No começo eu era a favor do uso de ambos, mas devo admitir que eu estava errado.

Use gírias e jargões como bem entender, mas evite abreviações e mutações da língua. Eu sei, escrever dois ou mais caracteres por palavra pode te tirar muito tempo que poderia ser melhor empregado. Escrever “vc”, “tbm” ou “sdds” pode soar muito mais informal e legal, mas evite.

Hoje eu escrevo tudo, de mensagens de texto a artigos de blog, da maneira mais correta que posso. Seja um “boa noite” pelo celular ou um texto sobre política, ambos recebem a mesma atenção e zelo de minha parte. Ambos merecem acentos e pontuações adequadas.

Não deixe que a modernidade leve para longe sua capacidade de escrever bem. Você pode achar que é bobagem, mas quando menos esperar, estará escrevendo como um estudante do ensino fundamental. Ou pior.

Escreva

Se você tem filhos, faça-os escrever. Seja um gibi, uma tirinha, uma carta ou uma redação.

Se você ama seus amigos, incentive-os também. É verdade que eles provavelmente ignorarão suas sugestões, mas tente convencê-los pelo exemplo. Seja alguém que as pessoas queiram usar como um espelho. Não precisa escrever à mão; faça no computador mesmo, bote o texto em um blog ou nas redes sociais.

Coloque na sua lista de promessas: prometa escrever mais. Não só no novo ano, mas durante toda a sua vida. Escreva mais.

Escreva mais para pensar melhor. Escreva mais para ser mais inteligente. Escreva mais para se comunicar melhor. Escreva mais para trazer mais valor para aqueles que ama. Escreva mais, mesmo que não haja motivos. Escreva mais, porque você pode.


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