As 12 essências da aprendizagem inovadora (Parte 3) — Escuta, Desejo e Diversidade

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Parte 1: Comunidade | Interação | Ousadia Parte 2: Generosidade | Acolhimento | Colaboração

Quais são os elementos que ajudam a definir a cara da educação do século XXI? A depender de onde se olha, as respostas podem ser variadas. Arrisco, aqui, meus palpites.

Há mais de dois anos tenho pesquisado histórias de projetos e ambientes de aprendizagem inovadores. Também fiz várias conversas sobre o tema e troquei cartas (hoje em dia, digitais, ainda que as de papel tenham seu charme) com educadores reconhecidos. Venho publicando tudo que descubro aqui neste blog, e todos os aprendizados estão sendo reunidos em um livro a ser lançado muito em breve.

Continuando a série das 12 essências da aprendizagem inovadora, neste post abordo três características inter-relacionadas: Escuta, Desejo e Diversidade.


Escuta

Dizem que escutar é diferente de ouvir: quando estamos somente ouvindo, não estamos verdadeiramente atentos. Para escutar não é suficiente abrir apenas os ouvidos, é preciso também abrir a mente e o coração. Contudo, a escuta pode ir ainda mais longe e chegar perto da empatia e do cuidado. Quando escuto alguém é porque o considero por inteiro, ou seja, é porque o vejo a partir dos olhos dele e não somente dos meus. Escutar é uma das manifestações mais poderosas de um outro verbo: amar.

Em um percurso de aprendizagem, ser escutado é um dos principais fatores que determinam se a pessoa terá força suficiente para seguir em frente ou não. É como se a escuta fosse um repositório de energia, uma zona de abastecimento de coragem. Precisamos contar nossas histórias, falar do que acreditamos e, quando falarmos, sermos levados a sério. Apreciar o que o outro pensa, sente ou faz é uma das maiores contribuições que podemos dar à sua jornada. No entanto, nos ambientes de trabalho atuais, alguém que frequentemente faz críticas ácidas e veementes na frente do chefe tende a ser visto como aquele que sabe das coisas. Nas escolas, professor “carrasco” é que é bom. A escuta empática só agora está começando a ser reconhecida como uma habilidade importante. Que nós saibamos como cultivá-la.

Aprendi porque ser escutado é essencial na aprendizagem a partir das cartas que troquei com o educador e poeta André Gravatá. Leia a carta que enviei a ele aqui.

Desejo

O desejo é o início de tudo. Sua intensidade é avassaladora. O desejo é o primeiro passo de um nascimento, e talvez seja por isso que nosso modelo educacional não o leva a sério: não queremos pessoas que saibam como renascer. O que interessa à sociedade hierárquica são pessoas que saibam como reproduzir. O desejo é rebelde por natureza — tudo que ele quer é criar, não replicar. Como ficariam os empregos, as religiões, os Estados, os exércitos e os dogmatismos de qualquer ordem se todos ouvissem os próprios desejos? Não ficariam, pelo menos não estanques do jeito que são.

Como seria uma educação baseada no querer? Alguns poderiam argumentar que o ser humano não sabe lidar com o próprio desejo, e que se não fôssemos guiados impositivamente por outros seres superiores — no caso, professores que sabem o que devemos aprender — acabaríamos nos prejudicando e danificando a sociedade. O curioso é que tal previsão se baseia não raro em observações colhidas em ambientes ditatoriais — a sala de aula, por exemplo. O aluno violento que se rebela contra um sistema que a todo momento lhe diz o que e como fazer adotaria o mesmo comportamento em um espaço onde há liberdade de escolha?

Quando o desejo é sucessivamente negligenciado a conta não tarda a chegar.

Aprendi a não negligenciar o desejo trocando cartas com a doula e educadora Luísa Módena. Leia nossas correspondências aqui.

Diversidade

A hierarquia tem uma queda por dogmatismos. Uma configuração muito hierárquica tende a criar deformações no campo social que excluem diversas possibilidades. Essas deformações são capazes de modificar nossas crenças, ou seja, às vezes elas conseguem nos fazer acreditar que só existe um único caminho. Pense em todas as pessoas e instituições que você conhece as quais afirmam que fora do que eles fazem ou acreditam “não há salvação”. Isso não é típico somente das religiões.

A diversidade não consegue sobreviver respirando o pesado ar hierárquico. Sua presença requer leveza, legitimidade, curiosidade, diálogo. Reconhecer e valorizar a pluralidade de saberes, fazeres e visões de mundo torna qualquer ambiente mais pacífico. Afinal, o humano é sempre a inusitada combinação entre unidade e diversidade. Somente ao se permitir o diferente é que o caminho para se desvendar nossa essência comum se abre. Vejamos as fotografias de Sebastião Salgado, por exemplo. A primeira coisa que salta aos olhos ao tomar contato com seus registros é justamente a riquíssima diversidade humana e planetária. No entanto, um olhar mais duradouro revelará que por trás de tanta distância há proximidade. Existe algo que conecta tudo e todos, um fio da existência capaz de fazer transparecer o sentimento de união que nos escapa.

Reconhecer as inúmeras formas de vida e não tentar “domesticá-las” é um primeiro passo, mas não é suficiente. A colaboração entre elas pode ser uma das chaves para o desenvolvimento sustentável que tanto (dizemos que) buscamos. Há um cuidado muito grande em como essa interação ocorrerá, se de modo dialógico e respeitoso, ou somente como um pretexto para uma dominação sutil. Quando a diversidade é acessada, a educação ganha asas novas e consegue voar para bem mais perto dos territórios inovadores.

Aprendi sobre a importância da diversidade ao dialogar com Paul Feyerabend, filósofo austríaco. Leia a carta que escrevi a ele aqui.

Mais sobre as 12 essências nos próximos posts.

Sobre o autor:

Alex Bretas é sócio do UnCollege Brasil e fundador do projeto Educação Fora da Caixa, uma investigação independente e colaborativa sobre aprendizagem livre. Site: www.alexbretas.com.br


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