As 12 essências da aprendizagem inovadora (Parte 4) — Coerência, Pergunta e Resiliência

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Quais são os elementos que ajudam a definir a cara da educação do século XXI? A depender de onde se olha, as respostas podem ser variadas. Arrisco, aqui, meus palpites.



Há mais de dois anos tenho pesquisado histórias de projetos e ambientes de aprendizagem inovadores. Também fiz várias conversas sobre o tema e troquei cartas (hoje em dia, digitais, ainda que as de papel tenham seu charme) com educadores reconhecidos. Venho publicando tudo que descubro aqui neste blog, e todos os aprendizados estão sendo reunidos em um livro a ser lançado muito em breve.

Continuando a série das 12 essências da aprendizagem inovadora, neste post abordo as últimas três: Coerência, Pergunta e Resiliência.


Coerência

A origem da palavra coerência vem do latim cohaerere, que significa “grudar junto”. Seu sentido não mudou muito ao longo do tempo: se somos coerentes hoje, estamos grudando nossa ação junto aos princípios e necessidades que julgamos relevantes. Contudo, sinto que não estamos sendo coerentes com o mundo em que vivemos quando o assunto é educação.

Na atualidade, o que se tornou mais relevante nos contextos econômico, político e nas relações sociais não são os conteúdos ensinados na maioria das escolas nem as disciplinas das universidades. Se há pouco relevo nos conteúdos, as formas de ensino (que frequentemente obstruem a aprendizagem) também deixam a desejar. O mundo está nos pedindo que saibamos como aprender, como lidar com nossas emoções, como colaborar e ser empático com o outro, como ter iniciativa e “acabativa” e como reconhecer quando estamos errados. Se o modelo educacional dominante não está “grudado” às necessidades que a vida coloca em nosso caminho, o que, então, seria coerente?

Acredito que o doutorado informal é uma das respostas possíveis a essa pergunta, junto a outras pedagogias libertadoras. Não porque há a disciplina “empatia” no currículo, e sim porque caminhos autônomos de desenvolvimento são capazes de desenvolver uma série de competências valiosas indiretamente. Ao nos debruçarmos sobre o que nos fascina, aprendemos mais sobre nós mesmos e sobre como nosso processo de aprendizagem funciona. Quando formos aprender novamente, já saberemos melhor como fazer.

Outra competência que tais percursos ajudam a desenvolver é a própria coerência. Ao contrairmos a síndrome da liberdade, um dos sintomas é que precisamos confrontar nossos valores. A partir disso, podemos escolher por aplicá-los ou não.

Aprendi a enxergar a coerência por meio do trabalho de Juanita Brown com o World Café. Leia a carta que enviei a ela aqui.

Pergunta

As respostas disponíveis hoje são reflexos das perguntas que um dia nos fizemos — tanto na escala micro, que diz respeito à dimensão do eu, quanto na escala macro, que diz respeito às instituições e formas de funcionamento do mundo. É como um exercício de perspectiva: nós enxergamos aquilo em que repousamos o olhar. As perguntas são nosso jeito de ver o mundo a partir da curiosidade.

Certa vez, uma amiga empreendedora conheceu um indiano muito talentoso, pelo qual logo começou a nutrir uma grande admiração. Ficaram próximos, e então ele veio ao Brasil passar algumas semanas. Ela convidou-o para se tornar seu mentor e acompanhá-la mais de perto em seu caminho de autodesenvolvimento. Durante o período em que estavam na mesma cidade, o indiano passou a observar cuidadosamente as situações vividas por ela e cada uma de suas reações. As conversas entre eles eram marcadas por um olhar apreciativo, de modo que o mentor sempre trazia comentários construtivos e focados no que de mais potente ela havia feito em cada situação. Inquieta, um dia ela lhe questionou: “por que você sempre destaca o lado positivo?”. Ele respondeu: “por que é o que eu escolhi enxergar”.

Quer sejam mais críticas ou apreciativas, as perguntas que nos fazemos influenciam decisivamente o que conseguiremos acessar.

Na educação, é importante respeitar o tempo das perguntas de cada um, cuidando para que não as atropelemos com respostas órfãs. Há pelo menos dois riscos em dar a resposta antes de alguém fazer a pergunta: não se estimula a capacidade de aprender a perguntar; e, com isso, a possibilidade de que surjam perguntas e respostas inovadoras diminui.

O que você está se perguntando neste momento?

Aprendi que todo aprendizado nasce do questionamento com o José Pacheco. Veja o que escrevi a ele aqui.

Resiliência

Qualquer percurso tem momentos de crise. São esses momentos que mais nos fazem criar laços de empatia com os personagens. Crises são importantes também porque são capazes de aguçar nossa visão, fazendo-nos perceber claramente coisas que até então permaneciam nebulosas. Quando se trata da nossa história, protagonizá-la dá trabalho. Pisamos em falso repetidas vezes, até conseguirmos dar um salto de consciência. O salto só se torna possível por conta de uma atitude resiliente.

É sabido que as árvores rígidas são as primeiras a quebrar quando vem a ventania. Sobreviver à tempestade demanda flexibilidade, adaptação. Quando o assunto é resiliência, a quantidade de metáforas e lendas disponíveis é imensa. As imagens arquetípicas do poço e do abismo, por exemplo, são comuns. Nossos ancestrais precisaram arranjar um jeito de falar sobre isso. Situações difíceis nos acompanham desde os primórdios.

“Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas”. Às vezes a vida nos pergunta o quanto conseguimos suportar, e às vezes ela nos questiona se é pelo mesmo caminho que queremos continuar. Somente a intuição sabe diferenciar uma pergunta da outra.

Se para aprender a arte da resiliência precisamos aprender a ser flexíveis, isso é especialmente verdade no que tange às nossas crenças. Do que se trata a aprendizagem se não a capacidade de analisarmos e modificarmos nossas crenças? O mundo não é algo dado, e sim o resultado das lentes com as quais olhamos para ele. As tempestades são convites para que sejamos como as árvores mais flexíveis, que sabem como trocar de lente.

Estou aprendendo a arte da resiliência com muita gente, dentre elas a Vera Poder. Veja a carta que enviei a ela aqui.

No próximo post tem a essência das essências. Aguardem ;)

Sobre o autor:

Alex Bretas é sócio do UnCollege Brasil e fundador do projeto Educação Fora da Caixa, uma investigação independente e colaborativa sobre aprendizagem livre. Site: www.alexbretas.com.br


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