Jornadas de aprendizagem

Toda semana, três ferramentas novas. Apoie o Kit Educação Fora da Caixa e nos ajude a continuar com esse projeto. Clique aqui para apoiar.


Conhecendo o mundo e a si mesmo, numa tacada só

Jornadas de aprendizagem são percursos educativos vivenciais e interativos, geralmente ancorados na ideia de saltar de um “mundo conhecido” para um “mundo desconhecido” (arquétipos presentes na jornada do herói). Elas podem tanto requerer de fato algum tipo de deslocamento literal (viagens, excursões, imersões) ou podem simplesmente significar, num sentido mais amplo, um período dedicado a novas descobertas e reflexões.

Ainda que a expressão também tenha ganhado outros significados — por exemplo, jornada de aprendizagem como uma forma de registrar e acompanhar a educação de crianças em escolas — , o foco aqui recairá sobre as jornadas como trilhas investigativas, conforme apresentado acima.

Por quê?

No livro “Mapeando Diálogos”, Marianne Mille Bojer e outros autores exploram a ideia de jornadas de aprendizagem:

As jornadas de aprendizagem têm a ver com sair do escritório e da zona de conforto de salas de reunião e hotéis. São jornadas de um lugar para outro com o objetivo de explorar e experimentar o mundo em primeira mão. Também são jornadas da mente, que desafiam as noções preconcebidas e as suposições acerca da realidade e das possibilidades atuais.

Conforme o trecho acima, fica nítido que essa forma de aprender não é nova; pelo contrário, remonta a uma sabedoria muito antiga da humanidade. Na Grécia antiga, conta-se que Aristóteles costumava caminhar com seu grupo de pupilos pelas ruas de Atenas, aproveitando-se das interações que o traçado fazia surgir para propiciar oportunidades de descoberta e reflexão. Suas caminhadas ficaram conhecidas como método peripatético.

Outra tradição antiga, ainda mais próxima das jornadas de aprendizagem como as conhecemos hoje, é a do journeyman. No século XIV, eram comuns na Alemanha jovens que deixavam suas casas e viajavam pelo mundo por períodos de três anos e um dia, a fim de se desenvolverem como artesãos trabalhando somente por comida, hospedagem e transporte para o próximo destino.

Journeyman. Fonte: Sigismund von Dobschütz.

Hoje em dia, tanto o método peripatético de Aristóteles quanto o duro percurso de um journeyman estão sendo reavivados por meio das jornadas de aprendizagem. Mesmo o período sabático, geralmente experimentado por jovens e pessoas em transição de carreira, é um exemplo de jornada que aposta na viagem como amplificadora de nossa visão de mundo e de nós mesmos. Como Rudolf Steiner afirmou, “se você quiser conhecer o mundo, conheça a si mesmo, e se quiser conhecer a si mesmo, conheça o mundo”.

Como?

Uma jornada de aprendizagem pode ser vivida tanto em grupo quanto individualmente. O fluxo de uma jornada típica segue cinco passos essenciais. Em primeiro lugar vem a

Intenção,

(precisa ser algo que parta da vontade de quem irá viver a experiência)

Que sustenta o Deslocamento,

(de uma realidade a qual já estamos acostumados para outra, ainda por conhecer)

Que pressupõe Abertura,

(um olhar fresco para tudo que a jornada nos apresenta, de modo a suspender nossos julgamentos habituais)

Para gerar Transformação,

(que deve ser sentida não apenas por quem embarcou na jornada, como também por quem foi visitado)

Por meio da Interação.

É importante notar que os aprendizados decorrentes das jornadas baseiam-se em quatro tipos de interação interconectados:

  • Do indivíduo com o grupo que compartilha com ele as vivências;
  • Do indivíduo com as pessoas que passa a conhecer nos percursos e destinos da jornada;
  • Do indivíduo com os ambientes, contextos e paisagens que o cercam durante a jornada;
  • Do indivíduo com ele mesmo, na forma de pensamentos e sentimentos, reflexões e intuições, novas vontades e verdades.

No universo da educação alternativa, temos assistido recentemente ao surgimento de inúmeras jornadas de aprendizagem. São expedições com o propósito de lançar luz em iniciativas e espaços educativos inovadores, podendo ser globais (como propuseram os autores do livro “Volta ao Mundo em 13 Escolas”), nacionais (a experiência de Caio Dib ao lançar o “Caindo no Brasil”) ou locais (como faz o Projeto Âncora ao oferecer a transformação vivencial).

Quer sejam criadas espontaneamente por pessoas ou grupos ou propostas por organizações que acreditam numa educação mais viva, as jornadas de aprendizagem são uma oportunidade de renovar o nosso olhar. Isso só se torna possível quando nos colocamos em movimento: “a mesa de trabalho é um lugar perigoso de se ver o mundo”. (John le Carré)

Para saber mais:


Este texto faz parte da série especial do Kit Educação Fora da Caixa, que aborda diversas ferramentas de aprendizagem inovadoras. Navegue no blog para ver tudo o que já publicamos.


Toda semana, três ferramentas novas. Apoie o Kit Educação Fora da Caixa e nos ajude a continuar com esse projeto. Clique aqui para apoiar.