Objeto da fala

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Alex Bretas
Jun 30, 2015 · 5 min read

O poder da escuta que faz abrir corações

Um objeto da fala é um componente cujo objetivo é aprofundar diálogos por meio da explicitação das funções de fala e escuta. Quem segura o objeto pode falar, e quem não está com ele exerce a função de escutar. Geralmente utilizados em conversas em grupo, os objetos ou bastões da fala costumam ser associados a conversas em círculo ou a abordagens de conversação como o World Café.

Por quê?

A origem dos objetos da fala remete a aldeias indígenas da América do Norte. Desde tempos ancestrais essas culturas utilizam bastões da fala em conselhos, círculos de contação de histórias, tomadas de decisão, cerimônias coletivas e até mesmo para ensinar crianças.

Hoje, muitos grupos ao redor do globo estão se inspirando nas culturas tradicionais norte-americanas e utilizando objetos da fala para terem diálogos mais significativos. Certa vez, participando do grupo de e-mails da comunidade Art of Hosting — uma rede global de anfitriões de conversas significativas — , li a seguinte pérola:

“Talking piece = talk in peace”

Em português a expressão perde o charme; uma tradução possível seria “objeto da fala = falar em paz”. Heather Plett sustenta que quando uma conversa é orientada por um objeto da fala, as pessoas tendem a falar com mais intenção. Além disso, todos que ouvem são instigados a escutar atentamente, e as pessoas se dispõem mais a respeitar as perspectivas de cada um.

Assim, o objeto da fala torna-se capaz de dissolver as interrupções, ampliar os silêncios geradores e, quase sempre, sustentar maiores doses de vulnerabilidade nas conversas. Mostrar-se vulnerável e expor fragilidades causa uma resposta imediata em quem escuta, abrindo os corações de todos.

Heather Plett sumariza cinco motivos pelos quais deveríamos utilizar mais os objetos da fala:

1. O objeto da fala convida-nos a escutar muito mais do que a falar.

2. O objeto da fala encoraja-nos a sair de uma postura de tentar resolver os problemas do outro.

3. O objeto da fala faz com que todas as vozes sejam iguais.

4. O objeto da fala convida-nos a estarmos mais presentes fisicamente na conversa.

5. O objeto da fala cria o silêncio necessário aos corações para falarem.

Como?

Fonte: Heather Plett.

Num círculo de conversa, o objeto da fala pode ser utilizado de duas formas: passando de mão em mão (para a esquerda ou a direita) ou sendo devolvido sempre ao centro do círculo quando alguém termina de falar. A primeira maneira é útil para aprofundar os pontos de vista individuais, ao passo que o segundo modo faz com que as interações adquiram um caráter mais conversacional, com as pessoas conectando suas falas.

O Co-Intelligence Institute, ao descrever a prática dos círculos de escuta, acaba também fornecendo uma boa perspectiva a respeito do uso do objeto da fala (neste caso, passando de mão em mão):

“Imagine que nós estamos fazendo um círculo de escuta. Eu, você e alguns amigos estamos sentados num círculo de cadeiras. Nós então contamos a algumas pessoas que estão chegando o que elas podem esperar. Quando todos temos clareza do que vai acontecer, nosso círculo começa. Nós sentamos em silêncio. Um bastão (ou outro objeto que caiba nas mãos) está posicionado no meio do círculo. Uma mulher que se sentiu tocada para falar pega o bastão. Ela o segura enquanto fala, e todos nós escutamos o que ela diz. Ninguém fala até que esteja segurando o bastão. Nós não nos deixamos levar pelo fluxo usual das conversações, uma pessoa adicionando comentários à fala do outro. Quando a mulher termina de falar, ela passa o bastão para o homem à sua esquerda, que permanece por um momento em silêncio. Depois de alguns minutos ele passa o bastão para a pessoa à sua esquerda e assim continua. O bastão segue contornando o círculo, com cada um de nós falando em turnos e o restante das pessoas escutando. Quando o tempo agendado para o nosso círculo acaba — ou quando o bastão completa uma volta e nenhum de nós fala — o bastão é devolvido para o centro e nosso círculo é finalizado”.

Segundo George Pór, conversas circulares ancoradas por um objeto da fala podem ser úteis para fomentar comunidades de aprendizagem, tomar decisões, dissolver conflitos, priorizar oportunidades, dentre outras aplicações. No contexto da educação escolar, o objeto da fala pode ser interessante para desde reuniões de professores mais efetivas até interações mais significativas na sala de aula. Em percursos independentes de aprendizagem, o objeto da fala pode ser aproveitado em atividades de pesquisa (entrevistas-diálogo, por exemplo) e como um recurso para potencializar investigações coletivas.

Desde sua origem, os bastões da fala carregam consigo uma simbologia sagrada. Representam o poder da fala que vem do coração e o respeito por todas as pessoas e seus pontos de vista. Ou seja: agem como verdadeiros facilitadores.

Para saber mais:


Este texto faz parte da série especial do Kit Educação Fora da Caixa, que aborda diversas ferramentas de aprendizagem inovadoras. Navegue no blog para ver tudo o que já publicamos.


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Educação Fora da Caixa

Um doutorado informal sobre aprendizagem livre

Alex Bretas

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Membro da Teya e escritor

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