Pedagogia da Cooperação (Kit Fora da Caixa)

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Fonte: quantum shifting.

Aprender a fazer junto para ven-Ser quem se é

A Pedagogia da Cooperação é um sistema composto por princípios, processos, práticas e procedimentos orientados por um propósito de instaurar uma cultura cooperativa nas relações humanas. Cada pessoa é considerada um mestre-aprendiz que, em conjunto com as outras, descobre a si mesma de modo a fortalecer sua autonomia ao mesmo tempo em que promove o bem comum. Deste modo, a Pedagogia da Cooperação acredita que todos podem ven-Ser juntos: não é necessário que alguém perca para que o outro ganhe.

A Pedagogia também se orienta e pode ser aplicada por meio de um fluxo de 7 práticas cooperativas, a saber: com-tato; contrato; in-quieta-ações; alianças e parcerias; soluções como-uns; projetos de cooperação e celebrar o ven-Ser.

Por quê?

O caminho da Pedagogia da Cooperação começou com os jogos cooperativos. Na década de 90, Fábio Brotto e outros educadores desenvolviam trabalhos na área da educação física que buscavam transformar a postura competitiva que geralmente vem associada às práticas esportivas. Na essência, a questão não era criar novos jogos (o quê), e sim promover uma nova maneira de jogar (como).

Fonte: Pedagogia da Cooperação. Caderno de Referência do Esporte, 12. Fundação Vale e UNESCO.

Ao se propor uma nova forma de jogar, o que Brotto e a comunidade do Projeto Cooperação — organização criada por ele e outros facilitadores ancorados na Pedagogia da Cooperação — oferecem na verdade é um olhar fresco para questões fundamentais do nosso tempo.

[…] faz-se aqui uma provocação para ir além da polaridade do ganhar-e-perder e caminhar rumo a um novo e urgente jogo, no qual todos possam realmente ven-Ser, isto é, ser mais plenamente quem se é e, assim, poder se importar genuinamente com os outros, ao se entender que o bem-estar pessoal é totalmente interdependente do bem-estar comum.

Os jogos cooperativos, neste sentido, têm como objetivo principal o “o aprender a fazer com o outro para promover as transformações necessárias que geram o bem-estar comum”. A Pedagogia da Cooperação propõe algo semelhante, mas amplia o território ao incluir outros tipos de processos e práticas junto com os jogos. Ela também organiza e sistematiza os achados que o Projeto Cooperação vem fazendo ao longo dos anos, de modo a configurar uma nova práxis (o encaixe entre teoria e prática) compatível com uma visão de mundo cooperativa.

Quatro princípios norteiam a Pedagogia da Cooperação:

O princípio da co-existência e o aprender a conhecer

“Seja lá o que uma pessoa pensa, sente, faz ou não faz, ela afeta todos as outras e é afetada por elas, sem exceção”. Todos nós jogamos juntos o mesmo jogo-vida.

O princípio da com-vivência e o aprender a conviver

A necessidade de que todos sintam-se realmente “participantes da caminhada”, permitindo a inclusão de “ideias, de sentimentos, de visões, de sensações, de atitudes, de comportamentos, de valores das pessoas e de relações”.

O princípio da cooperação e o aprender a fazer

Aprender a fazer junto com o outro, preocupando-se com ele e partilhando recursos, pontos de vista e olhares. Esse princípio nega a crença de que os primórdios da humanidade conformaram uma história de competição; pelo contrário, culturas ancestrais em geral cultivavam posturas bastante cooperativas.

O princípio da comum-unidade e o aprender a ser

Cultivar o instinto de comunidade humano como uma potência que abre novas possibilidades de construção coletiva. Aprender a ser em comum-unidade, contrapondo uma lógica individualista.

Como?

Fonte: Projeto Cooperação.

A figura acima dá conta das 7 práticas associadas à Pedagogia da Cooperação, além de quatro posturas indissociáveis ao trabalho cooperativo: desapego, plena atenção, abertura compartilhada e integridade. O fluxo das 7 práticas pode ser aplicado a desde situações simples como um encontro de poucas horas a ações complexas de vários meses. A ideia é que o processo como um todo sirva para potencializar trabalhos eminentemente coletivos.

O com-tato é o momento do toque sutil, do reconhecimento da humanidade do outro por meio da presença física. Na Pedagogia da Cooperação, toda reunião inicia-se por meio de uma atividade de com-tato, por mais simples que seja.

O contrato é a etapa de celebração dos combinados e acordos de convivência do grupo, cujo propósito é de certa forma semelhante ao momento de planejamento de uma reunião. Todos poderão, nessa fase, manifestar suas necessidades individuais para que o encontro transcorra da melhor forma possível para todos.

As in-quieta-ações acontecem por meio de um rico processo de cocriação focado nas questões mais vivas e nos desejos de saber, de agir e de inter-agir de todo o grupo. O objetivo é “colocar na mesa” tudo que inquieta os participantes, evitando julgamentos e escutando para compreender. O trabalho com as inquietações pode ter um tema norteador (desde que faça sentido para todo o grupo) ou deixar livre para que as questões mais importantes das pessoas apareçam.

Em seguida, o momento de alianças e parcerias é crucial porque significa uma pausa no processo costumeiro de perguntar-e-responder. Aqui, as pessoas são convidadas a jogar algum jogo ou vivenciar alguma experiência que ajude a despertar nelas o espírito co-operativo — geralmente, atividades cujo objetivo seja impossível de se realizar sozinho são efetivas. A formação de alianças pode se dar também por meio de um processo de aglutinação dos participantes em torno dos temas e inquietações surgidas na etapa anterior. Essa movimentação precisa ser espontânea, evitando as imposições.

Após as alianças e parcerias, as soluções como-uns ocorrem num momento marcado pela exploração conjunta de caminhos possíveis para lidar com as inquietações. É importante que as ideias, sugestões e comentários de todos sejam considerados, de modo que o processo seja de fato cooperativo. As descobertas do grupo durante a etapa de alianças e parcerias poderão reverberar aqui, adicionando riqueza às inquietações que foram levantadas.

Os projetos de cooperação surgem como desdobramentos de todo o processo e especialmente da fase de soluções como-uns. Este é o momento de traduzir em ações as reflexões e insights do grupo, partindo do simples para o complexo e começando pequeno. A ideia é colocar a cooperação em prática no dia-a-dia de cada um.

Enfim, a etapa de celebrar o ven-Ser honra as tradições ancestrais que depositam nas celebrações grande importância para a reenergização e a síntese de aprendizados do grupo. Vários tipos de atividades podem ser úteis, desde uma festa com brincadeiras até momentos mais introspectivos e de agradecimento. Mais uma vez, todos terão voz e vez e poderão colocar seus sentimentos em relação à jornada que foi vivida coletivamente.

Tive a oportunidade de me formar na primeira turma de pós-graduação em Pedagogia da Cooperação e Metodologias Colaborativas oferecida pelo Projeto Cooperação, em 2013. Desde então, encaro a Pedagogia como uma incrível janela por meio da qual podemos acessar estados de profundo bem-estar, empatia e cuidado com o outro. Vejo-a também como um enquadramento muito efetivo para o trabalho com grupos, especialmente pela sua forte dimensão lúdica que preza o contato e a intimidade.

Por tratar de uma questão tão ampla e presente pra nós como a dualidade competição/cooperação, a Pedagogia da Cooperação tem aplicações em diversos campos e tipos de organizações. Empresas, governos, comunidades, escolas, redes intersetoriais e coletivos que experimentarem praticá-la poderão ter muitas surpresas positivas e como-uns.

Para saber mais:


Este texto faz parte da série especial do Kit Educação Fora da Caixa, que aborda diversas ferramentas educacionais inovadoras. Navegue no blog para ver tudo o que já publicamos.


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