Permacultura

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Fonte: Jardim do Mundo.

Sinergia com a natureza e autossuficiência local

A permacultura é um sistema que engloba pessoas, métodos e conceitos utilizados para criar modos de vida de pequena escala que sejam ambientalmente equilibrados e social e economicamente justos.

A palavra permacultura foi criada por David Holmgren e Bill Mollison, dois ecologistas australianos, e num primeiro momento referia-se somente a métodos de agricultura sustentável. Mais tarde, seu significado foi sendo ampliado no sentido de incluir aspectos sociais, econômicos e culturais, mas mantendo as questões basilares: a observação dos padrões da natureza e a autossuficiência local.

Por quê?

A mandala da permacultura apresenta de forma sintética suas principais diretrizes:

Fonte: Wikipédia.

Há três princípios éticos que formam a base da permacultura:

  • Cuidado com a Terra; (solos, florestas e água);
  • Cuidado com as pessoas (cuidar de si mesmo, parentes e comunidade); e
  • Partilha justa (estabelecer limites para o consumo e reprodução, e redistribuir o excedente)

A concretização desses princípios se dá por meio de uma comunidade mundialmente articulada, que transforma e desenvolve modos de vida imbuída dos três preceitos. Ao integrarem um movimento preocupado com a disseminação de uma cultura realmente sustentável (permanente), a leitura dos permacultores é de que a humanidade caminha para uma inevitável redução do consumo de energia e recursos.

Isso porque os combustíveis fósseis, os quais tiveram e continuam a ter um papel fundamental na nossa ascensão industrial e tecnológica, estão fadados ao esgotamento. Assim, torna-se urgente o estabelecimento de culturas que saibam usar com eficiência as energias renováveis, em consonância com as soluções já encontradas pela natureza.

Diversos povos da antiguidade já desenvolviam sistemas sustentáveis, e algumas populações contemporâneas ainda sabem como fazê-lo. No entanto, numa perspectiva macro, bilhões de pessoas fazem persistir um sistema incapaz de manter culturas permanentes. Neste sentido, lê-se no documento “Os Fundamentos da Permacultura” que

“essa falha dos mercados globais em transmitir os sinais sobre o esgotamento dos recursos naturais e a degradação ambiental isolou os consumidores da necessidade de desenvolvimento de estilos de vida mais auto-suficientes e menos perdulários, e anulou o empenho na busca de políticas públicas que pudessem contribuir para essas adaptações tão necessárias. A inundação de bens de consumo novos e baratos estimulou o consumo a um ponto de supersaturação, ao mesmo tempo em que medições de capital social e bem-estar continuam a cair a partir de 1970”.

A permacultura, de certo modo, vem para nos acordar da cegueira.

Como?

Flor da Permacultura. Fonte: Os Fundamentos da Permacultura.

Ao analisar a flor da permacultura, que descreve vários campos e atividades alinhadas aos princípios necessários a uma cultura sustentável, fica claro o quanto o sistema se diversificou ao longo do tempo. Ao invés de descrever todos esses itens, a ideia aqui é pincelar algumas formas de se aplicar a permacultura por meio de seus princípios éticos e de design.

Além das três diretrizes éticas — cuidado com a Terra, com as pessoas e partilha justa — , a permacultura desdobra-se em 12 princípios de design sintetizados abaixo. Para uma compreensão mais aprofundada, vale a leitura do documento “Os Fundamentos da Permacultura”, baseado nos conceitos desenvolvidos por David Holmgren.

Observe e interaja

Uma das diretrizes mais importantes da permacultura é a observação atenta da natureza, com o intuito de aprender com ela a desenhar sistemas humanos sustentáveis.

Capte e armazene energia

Economizar e utilizar os fluxos de riquezas naturais existentes de modo que não falte para as futuras gerações.

Obtenha rendimento

Garantir a autossuficiência local, inaugurando formas criativas e flexíveis de manter o sistema e capturar mais energia.

Pratique a auto-regulação e aceite feedbacks

Evitar trabalho desnecessário por meio do entendimento e utilização de mecanismos de auto-regulação naturais. As agroflorestas são um exemplo de prática baseada nesse princípio.

Use e valorize os serviços e recursos renováveis

Aprender a trabalhar com a natureza e não contra ela, reconhecendo os benefícios da utilização de recursos e processos renováveis (que são repostos naturalmente, sem a necessidade de grandes intervenções não renováveis).

Não produza desperdícios

Os desperdícios também são recursos e oportunidades, basta mudar o jeito de olhar. A minhoca é um ótimo exemplo: ela sobrevive por meio de resíduos vegetais e gera valor para todo o ecossistema.

Projete partindo dos padrões para chegar aos detalhes

Significa atentar para os traços comuns por trás dos fenômenos naturais e sociais, de modo a aprender com eles e aplicá-los a diferentes contextos. A ideia é simplificar, preocupando-se menos com os detalhes e mais com a funcionalidade do todo.

Integrar ao invés de segregar

Pensar sempre nas inter-relações entre os diferentes elementos de um sistema, e no que cada um deles poderia contribuir para todos os outros.

Use soluções pequenas e lentas

De modo oposto à lógica de mercado, esse princípio considera o desenvolvimento de sistemas com a menor escala possível, mas que ainda assim sejam eficientes para os fins que foram projetados. Também aborda a necessidade de se pensar a efetividade e a durabilidade das soluções, ao invés de ceder a alternativas mais rápidas, mas que nem sempre apresentam benefícios no longo prazo.

Use e valorize a diversidade

As diversidades natural e cultural são consideradas como resultados dinâmicos da complexidade que evolui ao longo do tempo e, por isso, devem ser valorizadas. A policultura, em oposição à monocultura, é um exemplo de arranjo agrícola que se aproveita da diversidade natural.

Use as bordas e valorize os elementos marginais

Reconhecimento de que tudo que é marginal guarda um grande valor intrínseco ao ser incluído no sistema. Valorizar os elementos que costumeiramente são renegados pode contribuir para aumentar a estabilidade e a produtividade de um sistema.

Aproveite as mudanças e responda a elas criativamente

Levar em conta as mudanças ao projetar um sistema e utilizá-las a seu favor, além de adaptar o design às transformações imprevisíveis que poderão ocorrer.


Os 12 princípios juntos conformam um olhar sistêmico que, embora seja diretamente voltado para o design de comunidades autossustentáveis, também pode ser aplicado a contextos educacionais e organizacionais.

Outras possibilidades de utilização do conhecimento da permacultura ocorrem em ações do cotidiano que todos nós podemos realizar, inclusive em áreas urbanas. O documentário Utopia no Quintal — Permacultura e Cidade oferece várias ideias nesse sentido.

Para conhecer mais e se aprofundar, algumas opções são um grupo sobre permacultura no Facebook e os cursos de certificação de design em permacultura (Permaculture Design Certificate ou PDC em inglês), oferecidos no Brasil por diversas instituições. Neste site, mantido pela Rede Permear, é possível encontrar várias delas.

A aplicação dos princípios da permacultura é uma forma de nos prepararmos para a transição climática, econômica e social que já está acontecendo e que se agravará nas próximas décadas. Para tanto será preciso, como David Holmgren diz, irmos além da sustentabilidade.

Para saber mais:


Este texto faz parte do livro Kit Educação Fora da Caixa, um kit de ferramentas para quem quer sair da caixa da educação.