A banda desenhada na primeira pessoa

Entrevista a Roberto Macedo Alves

Ilustração de Roberto Macedo Alves
Roberto Macedo Alves é licenciado em Engenharia Informática e de Computadores pelo Instituto Superior Técnico. Exerce funções de Especialista de Informática na PaGeSP (Direção Regional do Património e de Gestão dos Serviços Partilhados) e complementa a sua atividade profissional com as atividades desenvolvidas na Livraria Sétima Dimensão.
Entre as suas obras publicadas encontram-se o livro “Os Sonhos do Maravilhas” (edição comemorativa do Centenário do Club Sport Marítimo), os três primeiros volumes da coleção 'As Fantásticas Histórias da Madeira' e outras histórias curtas publicadas por editoras nacionais e internacionais.

Educatio — No seu percurso, como foi a descoberta pessoal do desenho e, em especial, da banda desenhada?

Roberto Macedo Alves — Tem piada porque quase não me lembro do início do processo de descoberta do desenho. Vejo desenhos meus em que, pela data, devia ter três, quatro anos. Já havia tentativas de contar uma história, utilizando sequências de imagens, pois às vezes vemos o mesmo boneco em várias imagens diferentes.

Quando somos crianças e nessa fase inicial da vida, todos temos vontade de criar e de desenhar; não há vergonha nenhuma em mostrar aquilo que fazemos.

Não vemos quase nenhuma criança que diga «não sei desenhar»; todas sabem e todas são muito boas a pintar e a desenhar. Só depois, quando vamos crescendo, é que vamos colocando aquelas etiquetas «ah, eu não tenho jeito» e, de repente, começamos a limitar-nos.

No início, o desenho surge quase de forma instintiva: os meus brinquedos favoritos eram sempre lápis e lápis de cor e eu ficava muito sossegado num canto. A banda desenhada (BD) surgiu e acabou por ser a forma de ver histórias ainda antes de saber ler.

Era uma forma de conseguir acompanhar narrativas. Lembro-me perfeitamente de ter vontade de aprender a ler para poder seguir aquilo que via nas revistas.

Tinha revistas que eram anteriores à minha entrada na escola e que ainda conservo com bastante carinho. Havia aquela possibilidade de seguir uma história desde os desenhos, o que tornou a banda desenhada sempre especial e muito apelativa. A vontade de contar histórias surgiu nessa altura.


O seu coração balança entre a engenharia e a arte ou há um ecletismo humanista na sua perspetiva do mundo?

Essa é uma questão curiosa porque tem que ver com aquela questão das etiquetas. Na fase inicial, nós queremos tudo e queremos fazer tudo. Depois, à medida que vamos crescendo e nos vamos especializando, parece que temos de excluir algumas das áreas só pelo facto de que não é suposto uma pessoa ter vários interesses ao mesmo tempo. Mas, às vezes, fico a pensar «porque não?»

Só temos uma vida e porque é que não hei-de experimentar com computadores e depois, ao final do dia, experimentar com desenhos e brincar com áreas técnicas e criativas ao mesmo tempo.

Até porque, no fundo, uma pode acabar por alimentar a outra, por servir de equilíbrio ao outro lado.

É um bocado como o Leonardo Da Vinci, que tanto era bom em projetos de engenharia como na parte artística. Sempre foi uma figura que me chamou a atenção, pois temos aquela ideia de que a pessoa tem de ser especialista em determinada área.

Porque é que uma pessoa não há de poder brincar e experimentar áreas diferentes?

Não digo que seja o coração a balançar de um lado para o outro, mas é aquela vontade de explorar e descobrir coisas.

No fundo, alguns destes projetos surgiram assim: «Era giro se eu fizesse alguma coisa! Mas o que é que te impede de fazer?» Se correr mal, perdemos tempo, mas não ficamos sempre remoer o facto de não ter feito. Incomoda-me mais o facto de ficar a remoer uma ideia que não foi concretizada, em vez de saber se aquilo funcionou ou não.

Ilustração de Roberto Macedo Alves

Há essa interação com a arte?

É engraçado. A arte tem aquela tendência de ver as coisas de uma forma diferente, de pensar fora da caixa e isso, às vezes, facilita a abordagem nas questões mais técnicas porque, na parte da engenharia, temos a tendência de seguir algoritmos, de seguir processos. Na parte artística, à partida não se seguem processos nem coisas lógicas.

O processo criativo mais solto beneficia porque é um pouco a mentalidade de «E se fizermos assim?».

De seguida, já estamos experimentando uma coisa diferente, que talvez uma pessoa mais cingida aos procedimentos nunca iria experimentar.


Como nasce a Nona Arte? Tem a valorização pública devida?

A Nona Arte ainda não tem, mas já tem mais do que quando eu estava na escola. Na altura, tínhamos as revistas de banda desenhada. Tínhamos os Asterix, clássicos que já tinham o merecido respeito. Tínhamos outras coisas que eram consideradas quase literatura inferior e lembro-me de ter levado vários raspanetes por estar a ler banda desenhada. Diziam-me «tens de ler livros a sério»; só que eu lia os chamados ‘livros a sério’ e não via problema em também ler banda desenhada.

O potencial narrativo era diferente e o prazer que eu tirava de uma obra de banda desenhada era diferente daquele que obtinha quando lia um livro de texto em prosa, de literatura.

Aliás, quando os recursos da banda desenhada são bem utilizados, conseguimos fazer coisas que não conseguimos fazer em nenhum outro meio.

Por exemplo, vemos que há uma interação paralela — pelo facto de serem meios visuais — entre a banda desenhada e o cinema; mas, ainda assim, a banda desenhada pode ser mais rica porque o leitor tem um controlo do tempo que não tem no cinema. No cinema, o realizador pode decidir colocar um pormenor específico numa cena e se uma pessoa reparou, reparou, mas a ação continua, não é possível puxar o filme para trás. Numa banda desenhada, é só voltar umas folhas atrás, reler e descobrir um conjunto de pormenores que o autor tinha escondido na narrativa.

Há um pormenor que abriu a minha mente para a potencialidade da banda desenhada: o facto de o autor poder escolher ou não o que mostra.

Mais importante até do que as próprias imagens da banda desenhada é o espaço entre uma vinheta e outra, aquilo que não é mostrado porque, nesse processo, a imaginação do leitor tem de trabalhar ativamente, dependendo da forma como o estruturamos.

Esse poder criativo é delicioso.

O seu processo ocorre sempre da mesma forma?

O processo criativo, por acaso, nunca é igual. As histórias, às vezes, nascem de forma diferente. As primeiras, que cheguei a fazer quando era criança, eram quase a vontade de criar as minhas próprias aventuras com personagens que não era suposto misturarem-se; mas, se eu lia, por exemplo, histórias da Disney e de super-heróis porque é que não haveria de juntar os dois universos, podendo fazê-lo? Porque não cruzar o Tio Patinhas com o Homem-Aranha e figuras do género? […]

Por vezes, surge uma ideia qualquer em que se pensa: «Isto dava uma história magnífica!»

Como encara as parcerias artísticas?

As parcerias acontecem às vezes por uma ideia qualquer. Penso «isto funcionava muito bem, desenhado mais no estilo da pessoa A, B ou C», lanço o desafio de «eu escrevo, tu desenhas» e acaba por ser muito enriquecedor.

Quando nós criamos tudo, temos o controlo absoluto sobre o universo. Isso é muito bom, mas também podemos perder a riqueza da interação com o outro criativo.

Das conversas e dos debates, acabam por surgir ideias e abordagens que nunca me teriam passado pela cabeça e que tornam isto extremamente divertido.

Nos anos 60, na Marvel, o processo criativo era bastante curioso. Nas histórias de todas aquelas personagens que se conhecem dos filmes (Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e X-Men), por regra geral, o argumentista — Stan Lee — dava um resumo ao desenhador, mas sem ser muito explícito: «é uma história para vinte páginas, vai acontecer isto, aparecem os bandidos, depois lutam…» O desenhador, com esse resumo, fazia a sua história, devolvia os desenhos ao argumentista que, só depois disso, fazia os balões [das falas]. Aquilo acabava por beneficiar de perspetivas diferentes e a história podia, ou não, ser, no fim, aquilo que se tinha pensado no início.

As parcerias artísticas são bastante interessantes, pois, por vezes, as histórias não correm na direção esperada, mas vão para um lugar muito melhor e ficam completamente diferentes.

Daí que, nos nossos livros de ‘As Fantásticas Histórias da Madeira’, tivéssemos optado pela participação de outros artistas e de outros jovens, para experimentarmos o processo e vermos até que ponto o seu contributo artístico enriquecia a ideia inicial.

Ilustração de Roberto Macedo Alves

Depois da banda desenhada franco-belga, da manga japonesa e dos comics americanos, para onde caminha a Nona Arte?

A banda desenhada agora caminha para uma desconstrução do processo normal.

Temos cada vez mais uma mistura de géneros.

Vemos autores americanos a pegar nas convenções da BD japonesa, da manga, e a tentar construir histórias que combinam as duas coisas. Vemos autores que decidem alterar um bocado as regras, brincar com as expectativas do leitor e fazer coisas completamente diferentes. São pessoas que se estão a aperceber do poder que este meio criativo tem.

Há autores premiados que agora fazem argumentos para filmes ou obras de prosa, como o Neil Gaiman. Começaram na banda desenhada precisamente por ver o potencial que tinha e que, no fundo, não se resume a sequências de desenhos em vinhetas.

Nós conseguimos fazer algo que pode deixar as pessoas a pensar. Podemos analisar conceitos filosóficos profundos a partir de uma obra bem feita de banda desenhada. Cada vez mais, estamos a fugir a esses limites da vinheta e das páginas todas organizadinhas, começamos a criar narrativas muito mais profundas e muito mais complexas, que rivalizam — e, nalguns casos, até superam — aquilo que vemos no cinema.

Acredito que estes novos autores, que beberam destas várias influências, vão conseguir juntar e aprofundar, ainda mais, o vocabulário e as ferramentas disponíveis para a criação de futuras obras de banda desenhada.


Como funciona a fusão com o digital?

Estão a ser criadas obras interessantes no digital que aproveitam o facto de não estarmos limitados à página A4 ou A3. Sabendo que o leitor dispõe da possibilidade de fazer scroll, já não há paginas limitadas. A dimensão das páginas é interessante como limite criativo porque, se tivermos uma banda desenhada bem feita, supostamente a ultima vinheta de uma página deve ser feita para que o leitor tenha vontade de virar a página e nem dê por isso. Por isso, nunca se pode ter um ponto morto na última vinheta, mas também não se pode ser tão chamativo que a pessoa se lembre de que está a ler uma obra de banda desenhada.

Na parte digital, essa fronteira não se impõe. Ganhamos uma nova dimensão na forma como se estruturaram as imagens e alguns autores têm estado já a experimentar isso.

O Scott McLoud chegou a criar obras que são mais tratados académicos do que livros sobre banda desenhada. Fez o ‘Understanding Comics’ e o ‘Making Comics’, onde aborda essa parte digital.

Já não estamos limitados à página A4. Temos, agora, uma parede infinita em que podemos acrescentar imagens, sons, animações, e que ganha uma nova dimensão.


Tem superpoderes ou assume-se como um simples ser humano?

Superpoderes, gostava de ter. Gostava de conseguir estar em vários sítios ao mesmo tempo e de fazer várias coisas em paralelo. Infelizmente, essa parte só se encontra mesmo no domínio das histórias, de modo que uma pessoa tem que se conformar com as limitações de ser um simples humano. […]

Por outro lado, as limitações também são positivas, porque acabam por ser quase desafios. […]
Ilustração de Roberto Macedo Alves

Que sugestões daria a quem se quer iniciar como desenhador ou argumentista de banda desenhada?

A primeira sugestão é, desde logo, trabalhar, fazer coisas. Vejo pessoas que, por exemplo, querem ser argumentistas, que têm ideias para histórias interessantes, mas que nunca as escrevem, porque estão a estruturar a ideia na cabeça, porque estão sempre a pesquisar… Se ficarmos pela pesquisa, estamos a perder tempo.

É preciso começar a escrever!

Já não me lembro quem dizia que «a primeira versão de tudo é uma porcaria» e é suposto que assim seja. Se nós adiarmos sempre esse primeiro passo e esse confronto com a primeira obra no papel, não vamos conseguir chegar, depois, aos níveis seguintes.

O meu primeiro conselho é mesmo escrever, desenhar. O importante é mesmo desenhar muito e gastar muito papel.

Sabemos que os nossos primeiros cem, duzentos ou mil desenhos vão ser fraquinhos e que nunca vão corresponder àquilo que queremos. Isso ainda me acontece. Às vezes, temos uma ideia para um desenho, mas aquilo que sai no papel não é tão bom como aquilo que imaginávamos. Depois vem uma segunda, uma terceira versão, mas isso é parte do processo e não tem problema nenhum. É raro isso não acontecer e o público, em geral, só precisa de ver a versão final. Se fizermos vinte ou trinta versões inferiores, podem ir para o caixote do lixo, ninguém precisa de saber, mas têm que ser feitas. Se não passarmos por essas vinte ou trinta versões mais fracas, nunca chegaremos a uma versão próxima do que idealizámos.

Desenhar sem vergonha e criar sem haver aqueles constrangimentos da arte.

Até porque, na arte, não é suposto seguirmos regras e nada impede que um artista diga «eu desenho assim.» É o estilo do artista, não temos de seguir, todos, as mesmas regras e essa flexibilidade, a nível do desenho, pode enriquecer as histórias que construímos.


Qual é o futuro da banda desenhada na Região Autónoma da Madeira?

Quando comecei este projeto da Sétima Dimensão, há uns treze ou catorze anos, nós não tínhamos muito. Os fãs de banda desenhada tinham de procurar fora e até tinham vergonha de ler em público. Lembro-me de estar na escola e ver colegas que não liam banda desenhada em público. Liam em casa, gostavam bastante, mas não podiam admitir que gostavam de ‘bonecos’.

Depois havia um conjunto de jovens criadores que também tinham muita vergonha…

Há pessoas que se expressam muito bem neste meio. Aliás, acredito que estas novas gerações, que cresceram com a comunicação visual, já têm uma maior facilidade em contar histórias com esta forma visual e narrativa. Se sentirem que a BD é uma coisa vergonhosa, perdemos o potencial criativo de milhares de histórias. Mesmo assim, nós já conseguimos que isso seja diferente e que haja algum respeito. Não é só obra nossa.

O mundo todo trata já a banda desenhada com um carinho especial. O cinema vai buscar à BD uma quantidade enorme de ideias.

Isso também tem trazido novos leitores, tem feito com que as pessoas leiam, experimentem e vejam que afinal é muito mais do que juntar imagens e textos para contar uma história.

Por isso, acredito que a banda desenhada vai crescer.

Na Madeira, temos um grupo de jovens criadores que gostam de contar histórias e de desenhar, que não têm vergonha do processo de criação. Sempre que organizamos eventos em parceria com a Secretaria Regional de Educação, temos tido um número interessante de participações, de pessoas que se divertem e que percebem o poder que têm nas mãos quando contam uma história através dos desenhos.



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