Bolo de Abacate, Matemática e Cidadania

A Educação de Adultos na Escola da Torre

O que tem uma receita de bolo de abacate que ver com a Matemática e a Cidadania? Tudo.

Quando a lógica multidisciplinar e integradora na Educação de Adultos é assumida plenamente, surgem projetos marcantes nas escolas.

Na Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos da Torre, o projeto ‘Memórias de Outrora’ levou a que uma editora publicasse o livro ‘As nossas receitas de Câmara de Lobos’, fruto do trabalho de alunos do Curso de Educação e Formação de Adultos (EFA) de nível básico de terceiro ciclo (B3B).

Estes estudantes de Câmara de Lobos fizeram a recolha das receitas na área de Cidadania e Empregabilidade; em Linguagem e Comunicação, registaram as receitas; em Tecnologias de Informação e Comunicação, formataram o texto e fizeram as fotografias; em Matemática para a Vida, calcularam as receitas para quatro pessoas.
Capa do livro editado

O Chefe Miguel Rodrigues da Escola de Hotelaria e Turismo da Madeira realizou a supervisão gastronómica desta publicação, que também deu origem a workshops sobre a temática.

Desde há seis ou sete anos, este projeto — desenvolvido em colaboração com a Casa do Povo de Câmara de Lobos — abrange inúmeras atividades ligadas à comunidade.

Os cursos EFA e a escola

Maurício Castro, Vice-Presidente da Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos da Torre, sublinha o esforço efetuado para que «os pais dos nossos meninos voltem a estudar, no sentido de melhorarem a sua escolaridade e a sua forma de encarar a própria escola». A divulgação dos cursos EFA, nas suas várias vertentes, desde o nível 2 do ensino básico até ao nível secundário, é feita também com o apoio de diversas instituições do concelho.

«Lutamos pela valorização do papel da escola.»

Faz notar que, ao trazer os pais para a escola, a importância de estudar também é transmitida aos filhos. Se os jovens estudarem no tempo próprio, não precisarão de — mais tarde, com a vida estabilizada — ter a sobrecarga de estudar durante dois anos à noite para, por exemplo, manter uma profissão, afirma.

«Quatro pessoas que operavam maquinaria pesada tiveram de fazer o segundo ciclo do ensino básico para poderem continuar a trabalhar. Houve uma mudança legal e passou a ser exigida qualificação específica.»

José Xavier Dias, Presidente da Comunidade Educativa da Escola e responsável dos cursos EFA nesta escola, considera que estes cursos estão mais vocacionados para adultos com alguma maturidade. O grande desafio é garantir a sua permanência, pois as condicionantes sociais e familiares têm impacto relevante.

Adultos de viva voz

Eis alguns testemunhos de pessoas que passaram pelos cursos EFA da Escola da Torre

Maria José Gouveia, encarregada operacional

«Sou assistente operacional, mas exerço as funções de encarregada operacional. Faço a coordenação dos restantes funcionários com os membros do Conselho Executivo da Escola da Torre.

Recomecei a estudar já depois de estar aqui na escola. Só tinha o sexto ano de escolaridade e sempre tive essa vontade.

Maria José Gouveia
O Conselho Executivo também me ajudou, nomeadamente no horário de trabalho.

Tirei o nono ano e, entretanto, mudei de funções. Depois, surgiu a oportunidade de fazer o secundário noturno. Quando acabei, pensei que tinha algo mais para aprender de útil, mesmo para o meu trabalho, e inscrevi-me num curso com dupla certificação de Técnico de Apoio à Gestão. Embora já tivesse o 12.º ano, desconhecia a parte técnica, que me interessava. Quase a finalizar o curso, estou satisfeita.»


Agostinho dos Santos, motorista aposentado

«Com os cursos EFA, fiz o segundo ciclo, o terceiro ciclo e agora estou no secundário.

Não imaginava que esta experiência fosse tão enriquecedora. Já estava aposentado, mas queria mais conhecimento.

Agostinho dos Santos
A entreajuda dos colegas de turma e o apoio dos professores deram-me entusiasmo para ir em frente; fiz o terceiro ciclo.

Aos 17 anos, o Pedro — meu colega de carteira durante estes anos — foi um apoio fundamental na minha iniciação à informática.

Embora a idade pese um bocadinho e apesar das minhas dificuldades de aprendizagem, quero levar este projeto até ao fim! Senti falta de não ter estudado quando era mais novo. Fui motorista na Rodoeste e aposentei-me cedo. Sentia falta do ritmo de trabalho e decidi estudar.

A vida é uma aprendizagem.

Enquanto estamos neste mundo, podemos dar algo mais àqueles que nos rodeiam, seja na vida do país seja onde quer que estejamos, podemos ser mais válidos. Tenho uma horta e faço apoio social ao fim de semana; em ligação com a Igreja, visito doentes e trabalho com grupos de adolescentes, à cerca de trinta anos. Melhorei a minha capacidade de serviço. Sentia essa falta, pois lidava com rapazes e raparigas que tinham mais estudos do que eu.»


Ana Isabel Sousa, auxiliar educativa

«Voltei para a escola porque melhorar a escolaridade era um sonho meu. Fiz o terceiro ciclo nos cursos EFA e depois fiz um ano de Informática. Estou no curso de nível secundário e a experiência está a ser extraordinária. As áreas que mais me cativam são a História, a Cidadania e o Português. O que mais gosto são os valores associados à civilização: os seres humanos, a ética e o respeito.

Tenho colegas de várias idades: os mais novos são a Luísa e o Pedro, que têm 19 anos; o mais velho, Agostinho, tem 61 anos.

Ana Isabel Sousa
Acabei o 9.º ano ao mesmo tempo que o meu filho, aqui na escola. Este ano vamos fazer as capas juntos, vai ser uma festa… dupla.

A nível pessoal e profissional foi excelente. Evoluí, fiquei com outras ideias e outra forma de pensar. Ganhei um pensamento mais global e aberto.

Neste momento, o meu objetivo é acabar o secundário. Vou com calma, mas gostava de estudar psicologia.»

Um percurso na Educação de Adultos

A Escola da Torre investiu, desde os seus primeiros anos, na educação de adultos. O professor José Xavier Dias relembra que esta, como a maior parte das escolas, teve cursos do ensino recorrente de segundo e de terceiro ciclos, bem como unidades capitalizáveis.

«Desde 2002, na altura da reorganização educativa e com tudo o que esta implicou, esta escola apostou no ensino recorrente e também no desenvolvimento de projetos.

Um dos primeiros projetos — ‘Nós, Pais na Escola’ — acabou por lançar as bases para os cursos EFA.

Paralelamente, o Conselho da Comunidade Educativa organizou, ao longo de anos, os encontros ‘Escola e Família’, envolvendo os encarregados de educação na vida da escola, de modo que adquirissem competências para melhor acompanharem os seus educandos.»

Os projetos ‘A Educação de Adultos nas Regiões Ultraperiféricas’ e ‘A Escola Europeia para Pais’ datam dessa época, lançados no âmbito do programa europeu ‘Aprendizagem ao Longo da Vida’ (agora, Erasmus+).

José Xavier Dias

«Em 2009, iniciámos os cursos EFA, oferecendo aos pais que já participavam nas nossas atividades um instrumento formal para completarem a sua escolaridade.» A formação contínua dos adultos prosseguiu em paralelo, com ações de formação para pais, funcionários, professores e também para a comunidade.

De 2009 a 2016, os cursos de Educação e Formação de Adultos da Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos da Torre levaram à certificação profissional de 303 adultos, em várias áreas profissionais.

A disseminação da informação

Rafael Martins, que também trabalha na Educação de Adultos, realça a importância da disseminação da informação para as aprendizagens e da formação estratégica na Escola da Torre. Faz referência à participação no projeto europeu RIFIA (Reflexão para a Intervenção na Formação e Integração de Adultos), que se baseia em três vetores: formação contínua dos docentes, cidadania/interculturalidade e metodologias inovadoras na educação de adultos.

Rafael Martins

«Durante dois anos, tivemos cinco cursos estruturados em vários países e um total de doze mobilidades disponíveis para os formadores EFA, o que lhes permitiu uma experiência europeia mais ampla.»

A disseminação da informação foi planificada. Os formadores replicaram a sua formação para os formandos, para os colegas e para a comunidade.

Salienta, em especial, a realização de três ações de formação validadas pela Direção Regional de Educação e abertas a toda a comunidade madeirense, sempre com um número considerável de participantes. A última iniciativa foi o ‘Seminário Internacional: A Educação de Adultos na Europa de Hoje’, que incluiu testemunhos relativos a sete países e às realidades regional e nacional.

Por sua vez, José Xavier Dias acrescenta que, pela disseminação, o RIFIA acabou por dar ferramentas aos alunos e por influenciar todo o seu trabalho. Em dois anos de RIFIA, ‘a interculturalidade’ foi definida como tema geral da apresentação pública dos trabalhos dos formandos do EFA, no básico e no secundário, com subtemas em cada nível de escolaridade.

No âmbito das Tecnologias de Informação e Comunicação, a Escola da Torre integrou o projeto europeu NoDigitalGap, com parceiros de outros projetos, para combater a iliteracia informática.

«Tivemos os jovens a ajudar os adultos, numa lógica intergeracional, um pouco a exemplo do que sucedeu com o Sr. Agostinho.»

O futuro próximo

No próximo ano, a Escola da Torre vai iniciar um novo projeto não formal de formação de adultos, a ‘Escola para Pais’.

Não tem a mesma lógica dos cursos EFA, pois não confere um diploma ou o reconhecimento da escolaridade, mas visa ajudar os pais que se preocupam e que querem melhorar as suas competências, assevera aquele professor.

Depois do primeiro impulso, pretende-se que os pais e encarregados de educação liderem o projeto, a exemplo do que sucede noutras escolas.

«Vamos oferecer o que os pais necessitem, em três grandes áreas: a literacia literária, a literacia informática e a criatividade (artes plásticas, drama). Pretendemos criar sinergias com os cursos EFA e desenvolver iniciativas partilhadas, a partir das pequenas experiências que fizemos este ano.»

Refere ainda que, neste momento, a oferta de educação e formação é diversificada no concelho, pelo que a participação nos cursos EFA tem-se mantido estável.

E sublinha que «segundo um estudo da Câmara Municipal de Câmara de Lobos, ainda há um grupo de adultos com baixo nível de escolaridade no município, o que nos dá margem de trabalho neste âmbito.»


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