Fazer um chá com energia gravitacional…

Entrevista ao Professor Christopher Csikszentmihalyi (M-ITI)

Professor Christopher Csikszentmihalyi, do M-ITI
Christopher Csikszentmihalyi é diretor científico e professor do Instituto para as Tecnologias Interativas da Madeira (M-ITI), sendo o primeiro titular da única Cátedra do Espaço Europeu de Investigação (EEI) em Portugal. Foi o primeiro professor convidado honorário de Investigação em Arte e Design na Parsons New School of Design e professor de Assuntos de Design de Média no Art Center College of Design. Antes, trabalhou durante dez anos no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde foi cofundador e dirigiu o Centro MIT para o Futuro dos Média Cívicos. Foi professor e geriu um grupo de investigação no Laboratório de Média do MIT, o Grupo de Cultura da Computação.

Educatio (ED)— Porque veio para a Europa e nomeadamente para a Madeira? Queria encontrar um novo local de surf ou estava à procura do “fluxo”?

Nota: Mihaly Csikszentmihalyi — pai de Christopher C.— criou o conceito psicológico de “estado de fluxo”, associado à felicidade e à realização pessoal.

Christopher Csikszentmihalyi (CC) — A minha formação é diversificada. Sou um artista, mas sempre trabalhei com tecnologias, de uma forma ou outra, e escolhi não seguir engenharia pois apercebi-me que está a produzir um determinado tipo de tecnologia e julgo que precisamos de tipos diferentes de tecnologia.

O laboratório que dirijo está a tentar chegar a novas e interessantes tecnologias que se referem ao conhecimento gerado não só pela engenharia ou pelas ciências exatas, como também pelas ciências sociais e humanas, pela arte e design ou por outras áreas da vida humana.

O M-ITI, como instituição, tem vindo a fazer um trabalho muito interessante nessa área.

Quando surgiu a proposta para ser o titular da Cátedra do Espaço Europeu da Investigação (EEI), pensei… esta é uma instituição ímpar, única e, além disso, na sua ilha e numa região autónoma, também é uma entidade com autonomia. Pareceu-me que seria um lugar aprazível para começar um novo ramo de pesquisa.


ED — Como se define profissionalmente?

CC —A minha formação é em Arte, mas, enquanto artista, construía robôs, programava computadores, fazia circuitos e coisas assim. Pode ser que isso se tenha tornado um pouco mais normal, com coisas como os fazedores (The Maker Movement) ou os laboratórios de fabricação (fabrication labs).

Está a ficar uma atividade um pouco mais popular, mas quando eu era estudante de arte, era o único na escola a fazer esse tipo de trabalho, o que me obrigou a aprendê-lo.

Obrigou-me a aprender a tecnologia, mas também a aprendê-la sem ter que absorver a ideologia que as escolas de engenharia impõem aos seus alunos.

Quando se é um engenheiro, é-se ensinado a ter certo tipo de valores, é-se ensinado a favorecer certo tipo de trabalho, com o pressuposto de que se vai acabar por trabalhar para a Airbus, os elevadores Otis ou algo parecido.

Os artistas são as pessoas mais irresponsáveis no mundo, são, intencionalmente, radicais livres.

Deste modo, aprender tecnologias nas artes permitiu-me questionar e ver os pressupostos que estão por detrás da maioria das tecnologias.

ED — Considera o M-ITI um lugar para trabalhar, um projeto de longo prazo ou outra coisa?

CC — Não, o M-ITI é uma oportunidade para construir uma instituição única na Madeira, que faz as coisas de forma diferente de todos os outros. Temos um fantástico grupo inicial de investigadores, que já estavam a fazer um trabalho interessante, e temos contratado outros professores focados num novo tipo de área, que expande o M-ITI, acrescentando ao invés de contrariar o que se fazia antes.

Estamos todos aqui, essencialmente, como “refugiados”, porque temos ideias muito diferentes sobre o que a tecnologia pode ser, e todos nós estávamos em instituições de primeira linha: a Fundação de Bruno Kessler, a Universidade de Trento, o Royal College of Art (em Londres) ou o MIT — Massachusetts Institute of Technology. […]

Consideramos isto uma oportunidade para estabelecer uma espécie de posto avançado.

O M-ITI está a fazer as coisas de forma muito diferente e creio que já estamos a ter um reconhecimento muito maior do que se estivéssemos em Berlim, Londres ou outro lugar similar.

Também estamos muito atraídos pela Madeira, por causa da sua simpática localização no Atlântico, e não estou a falar apenas sobre o clima, que é agradável.

Digo-o porque este é o lugar das primeiras plantações de açúcar na Europa, o que, naturalmente, influenciou toda a configuração da América do Sul e Central e de África — todos estes lugares foram sendo colonizados — e influenciou o que aconteceu desde então.

Por isso, estamos, de facto, a levar este tipo de relacionamento muito a sério. Neste momento, estamos a tentar criar sistemas puramente baseados em informação em África, onde as pessoas estão a discutir o que, para si, é importante valorizar numa comunidade. […]


ED — Como escolheu a sua equipa?

CC — Nós fizemos uma pesquisa internacional, em que tivemos centenas de candidatos das principais universidades do mundo e menciono apenas uma pessoa, James Auger.

Era um estudante notável do curso no Royal College of Art, praticamente a escola de design de topo no mundo.

Estava prestes a aceitar integrar esta instituição, mas conhecia o tipo de política, exatamente como eu referia com o MIT. Ele sabia que o trabalho numa instituição destas é um tipo de processo constante de desistência, para acomodar o poder de outros departamentos ou de qualquer outra coisa, e, por isso, no último minuto, trouxemo-lo para cá.

Significa que este é o programa de topo na área e que, devido a isso, conseguimos encontrar alguém que está prestes a ser professor universitário e atraí-lo aqui para o M-ITI.

Julgo que, verdadeiramente, fizemos um bom trabalho no recrutamento de algumas pessoas excelentes.

É uma mistura de pessoas da Europa, das Américas e de África, por isso estamos, de facto, a levar o papel da Madeira no desenvolvimento do Globo muito a sério, ao reunirmos aqui um grupo muito diversificado de pessoas.

Alguns elementos da equipa do M-ITI no laboratório, com protótipos de robôs

ED — Quais são os projetos principais da sua equipa?

CC — Há uma variedade de coisas em que estamos a trabalhar.

James Auger está a trabalhar na primeira coisa que viu como designer quando veio para a Madeira, o eixo Z, que é “muito generoso” na Madeira.

O eixo Z é o eixo vertical [no sistema de coordenadas cartesianas e representa a altura]. Ele está a procurar entender um pouco mais sobre armazenamento de energia e construção de baterias gravitacionais. Quer levar a irregularidade da energia solar e da energia eólica a transformar-se em algo que pode ser armazenado apenas pela gravidade.

Tal qual os carros de cesto do Monte [que usam a gravidade para deslizar].

Mas agora está apenas a usar energia solar e eu estava, gradualmente, a deixar algo cair: [ele e os seus companheiros de projeto] punham uma chaleira a ferver com base num peso que deixavam cair, muito lentamente, do segundo andar do Madeira Tecnopolo. Este processo causava que a chaleira elétrica fervesse para fazer chá.

O James é de Inglaterra, por isso, a questão parece ser de como fazer o chá…

Maurizio Teli está a trabalhar no Horizonte 2020, que é o financiamento europeu para as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação), no projeto Plataformas de Consciência Colectiva (“Collective Awareness Platforms”). Está observar como a austeridade e a crise financeira no Sul da Europa foram uma espécie de aspirina para uma variedade de práticas criativas em torno de como ganhar dinheiro, de como ajudar os seus vizinhos, de como sobreviver em tempos difíceis. Por isso, essencialmente, estas plataformas não são para dizer a forma como todos devem viver, mas sim para dizer como podemos aprender com este tipo de momento importante, aprendendo como as pessoas estão a viver.

Este projeto muito amplo abrange cinco ou seis países diferentes e tem ONG, académicos e uma variedade de outras pessoas a trabalhar nele.

Estamos a fazer um enorme trabalho que nos leva a um outro relacionamento, porque a Madeira está perto de África e da Europa Ocidental. Por isso, faremos uma grande conferência no Outono do próximo ano, designada Narrativas Estratégicas de África e a Tecnologia. Traremos estudiosos de topo sobre África para apurar que ideias tecnológicas são agora comuns nesse continente, de onde vêm essas ideias, e se são as melhores para o nosso futuro [em comum]. […]

Estas questões vão ser colocadas na conferência de uma forma muito holística — trazendo artistas, escritores, técnicos, filósofos, no fundo uma gama muito ampla de pessoas com todos os tipos de pensamento — para se conhecer a melhor forma de pensar sobre tecnologia em África. […]

Vai ser interessante e, novamente, é este tipo de papel da Madeira — no meio caminho — que estamos a levar muito a sério!

ED — Tem uma interessante abordagem humanista à robótica. O M-ITI pode fazer uma grande diferença para as pessoas na Madeira? Pode trazer um impulso social e económico para esta região?

CC — Eu acho que há, certamente, um espaço para isso. Há uma variedade de práticas atuais que tornam a construção de algo complicado muito mais fácil e dentro de um tipo de espaço em que — na ilha da Madeira — se pode ter uma empresa de produção de alta tecnologia a funcionar e a fazer coisas interessantes. Temos alguns exemplos com sucesso aqui no Tecnopolo.

Uma das menores câmaras de imagem do mundo é produzida neste campus. […]

Se a Madeira levasse isto muito a sério, poderia gerar uma qualidade internacional de força de trabalho que não apenas seria competitiva com qualquer lugar do mundo, mas mais competitiva ainda, porque as pessoas adoram viver aqui. Nós levamos isto muito a sério, pois há um tipo de indústria em grande crescimento — neste momento — que não exige, essencialmente, nenhuma infraestrutura industrial do século XX, mas que exige conhecimento.

Tenho de dizer que só descobri recentemente que a UMa (Universidade da Madeira) aceitou apenas dois estudantes universitários num programa de engenharia eletrotécnica, este ano. Julgo que é danoso para a Madeira. É mau para o futuro da Madeira que não estejamos a ver o tipo de compromisso que deveria haver.

Este verão criámos, pela primeira vez, um programa estudantil de investigação, baseado no laboratório de média que geri durante algum tempo no MIT, e onde os estudantes são pagos.

Eles aprendem a colaborar nestas equipas técnicas e aprendem um conjunto de ferramentas que estão, talvez, cinco a dez anos à frente do que, muitas vezes, está no currículo. Desta forma, tivemos 17 ou 18 alunos neste verão.

O programa foi muito bem aceite pelos estudantes e pelo corpo docente, pelo que vamos continuar a progredir.

Pelo que assisti no MIT, havia crianças em idade escolar, de idades precoces, a deslocarem-se à instituição. Havia programas de extensão no verão e durante o tempo de aulas. Havia alunos do ensino secundário a entrar em estágios. Realmente, é necessário educar as crianças desde tenra idade para que sejam competitivas numa lógica mundial do mercado de investigação.

A questão é de como, no futuro, pode uma criança daqui tornar-se competitiva com uma criança da Hungria ou com um miúdo do Norte de Inglaterra, onde há uma grande quantidade de recursos colocados na educação infantil e no ensino técnico precoce. Nós, verdadeiramente, precisamos de fazer algo ou, em caso contrário, vamos perder o próximo navio.


ED — A Madeira será por cinco ou por dez anos?

CC — Estamos a tentar o nosso melhor, para que seja por dez ou vinte anos.

Para mim, há questões em aberto sobre como, efetivamente, posso, por exemplo, aumentar o financiamento na Europa.

Depois de ter feito toda a minha carreira nos EUA, aos poucos aprendi — de forma explícita ou tacitamente — como angariar dinheiro, o que diferentes contactos significam e outras coisas deste género.

Também montámos uma equipe com algumas pessoas da Europa, algumas pessoas de fora, por isso espero que sejamos capazes de ganhar velocidade dentro de cinco anos até ao ponto em que possamos ter uma instituição de classe mundial aqui, a gerar fundos suficientes para contratar estudantes muito talentosos e estudantes de fora, construindo um programa internacional.

Chegar aqui depois da crise foi, para mim, um desafio emocionante.

O M-ITI perdeu uma grande parte do corpo docente. Quando há este tipo de dificuldade, as pessoas tendem a fechar-se sobre si mesmas. Há alguns relacionamentos que o M-ITI devia ter com outras instituições da Madeira. Penso que este tipo de instituições se fecharam, pelo que temos de as abrir de volta, dando a entender que somos melhores juntos. Há muitas coisas que precisam de ser feitas neste âmbito, mas julgo que a Madeira pode beneficiar tremendamente da economia de informação e das novas lógicas em torno dos custos de comunicação. É preciso realizar muito trabalho para fazer isso acontecer.

Durante o verão, há alguns jovens aqui no trabalho de laboratório que são tão bons ou melhores do que alguns dos que tinha no MIT.

Estou a pensar em dois em particular, o Vitor e o Fábio (se me estão a ouvir …). Eles resolviam qualquer desafio que lhes lançássemos, mas quando começaram, no verão, não conheciam a maioria das ferramentas comuns que pessoas como eles teriam de usar se estivessem na indústria. Sim, eles são jovens, mas eu diria que todos os alunos do MIT com que trabalhei não conhecia essas ferramentas. Por isso é, realmente, apenas uma questão de exposição e acesso.


Da Equipa

Sou o Victor Azevedo, investigador na Cátedra do Espaço Europeu de Investigação. Estou a trabalhar com o meu colega Vítor Hugo no projeto probots — robôs para protestos.

Victor Azevedo, investigador do M-ITI
Também somos responsáveis ​​pelo Laboratório de Prática Técnica Crítica, que possibilita criar quase tudo.

Temos acesso a máquinas automáticas que permitem criar modelos de madeira ou de metal, bem como acesso a capuzes de pintura e a todos os tipos de serras para trabalhar com madeira. Para criar os nossos projetos, temos ainda um espaço específico de eletrónica.



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