Megadados. Criatividade. Mente Humana. Economia.

Grandes questões com respostas curtas, pelo Professor Christopher Csikszentmihalyi (M-ITI)

Instituto para as Tecnologias Interativas da Madeira (M-ITI)
Christopher Csikszentmihalyi é Diretor Científico e professor do Instituto para as Tecnologias Interativas da Madeira (M-ITI), sendo o titular da única Cátedra do Espaço Europeu de Investigação (EEI) em Portugal. Foi o primeiro professor convidado honorário de Investigação em Arte e Design na Parsons New School of Design e professor de Assuntos de Design de Média no Art Center College of Design. Antes, trabalhou durante dez anos no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde foi cofundador e dirigiu o Centro MIT para o Futuro dos Média Cívicos. Foi professor e desenvolveu um grupo de pesquisa no Laboratório de Média do MIT, o Grupo de Cultura da Computação.

Educatio (ED)— Empreendedorismo e inovação em África? Com que propósito?

Christopher Csikszentmihalyi (CC) — O trabalho em África não está em tentar entender como o Norte da Europa faz, em que o cenário típico é o em que os noruegueses entram e dizem às pessoas de que modo devem fazer a sua higiene, mas em procurar criar sistemas puramente baseados em informação em África, onde as pessoas estão a discutir o que, para si, é importante valorizar numa comunidade.

Se se for para um lugar como o Uganda, tudo é impulsionado pelo desenvolvimento ou pela extração de recursos, os metais de terras raras para a “eletrónica” ou o seu desenvolvimento.

Por isso, adotamos esta abordagem, dizendo “Há outra maneira de fazer isto!”. Eu tenho uma abordagem mais orientada para os pares, que leva as pessoas mais a sério e que lhes dá um pouco mais de autonomia, gerando tecnologias interessantes como resultado. […]

Esta é uma área de grande interesse para as pessoas ao redor do mundo.

O Banco Mundial emprega, por exemplo, uma quantidade enorme de energia a impulsionar programas de empreendedorismo e inovação em África. A pergunta permanece: “Esta é, realmente, a melhor maneira de empregar essa energia?”.

Estes programas trazem muito dinheiro, mas encorajam os jovens africanos que estudam, digamos informática ou matemática, para ir e tentar criar uma empresa emergente (start-up)? Têm um modelo de Silicon Valley, na medida em que a inovação funciona em Berlim ou nos Estados Unidos, mas a questão sobre Berlim e os Estados Unidos é que, pelo menos nos EUA, Mark Zuckerberg ou Larry Page, todos eles tiveram pais da informática e famílias ricas.

Deste modo, a ideia de ir de Harvard para iniciar uma empresa não é um risco assim tão grande, quanto para um estudante de informática africano médio.

Basicamente, estes estudantes nunca tocaram num computador até começarem a sua faculdade, por isso têm menos experiência na mesma idade. Não têm uma rede de segurança social, não têm riqueza da família em que confiar. Por isso, esta é realmente uma coisa muito perigosa, porque estes são também os estudantes de um país em África, como o Uganda; talvez devessem ir trabalhar para o Governo, para o departamento de estatísticas, ou para um banco, ajudando a construir a indústria ou algo parecido.

Parte do protótipo de comunicação para uso pelas populações em África, em desenvolvimento no M-ITI

ED — A economia da informação traz um novo modelo?

CC — Julgo que não há este velho tipo de máxima de que, para se fazer alguma coisa importante, tem de se ter uma massa crítica de pessoas, por isso, se se olhar para a Microsoft, construiu um campus fora de Seattle e, se se olhar para a Boeing, também construiu fora de Seattle, um campus enorme onde faz a maioria dos aviões.

No século XX, para se construir algo, era preciso juntar muita gente, que compartilharia uma biblioteca, que compartilharia a infraestrutura, que compartilharia a produção, etc.

Cada vez mais, estamos a assistir à descida do custo das comunicações até ao chão e, deste modo, muitas coisas que antes só poderiam ser produzidas por uma empresa [podem agora ser feitas por pessoas]. A empresa iria escolher localizar-se em Berlim, Nova York ou num lugar similar porque poderia obter a melhor [força de] trabalho, poderia obter os melhores recursos.

Agora, as pessoas estão a produzir as coisas de uma maneira muito distribuída, pelo que um exemplo poderá ser o crescimento do Linux, o sistema operativo.

As pessoas tendem a associá-lo a “tecnocriativos” (gigs), mas se formos a uma página na Internet, neste momento, as possibilidades são, em mais de 95%, de estar a ser suportada numa máquina Linux com um servidor de software livre, designado de Apache. Não é que a Microsoft quisesse perder esse mercado, aliás a Microsoft queria desesperadamente manter esse mercado. A IBM queria manter esse mercado, mas não puderam.

As empresas mais poderosas do mundo não podem competir com este outro modelo de produção. [...]

Há um tipo de indústria em enorme crescimento neste momento que não requer, essencialmente, nenhuma infraestrutura industrial do século XX, mas que exige conhecimento.


ED — É possível automatizar a criatividade?

CC — Não, mas será possível em mil anos? Talvez, mas vemos pessoas a tentar fazer isso desde há muito tempo. Havia um fabricante de autómatos fenomenal chamado Vaucanson que, no século XVIII, fazia coisas em forma de animais, tentava ensinar pequenos robôs a escrever e, já se sabe, as pessoas que assistiam a isto, naquele momento, pensavam que era espetacular e o mais incrível que já tinham visto, porque nunca tinham visto uma máquina a escrever antes.

Se tiver algo como o Siri, o Alexa, os mapas da Google, ou algo parecido, e as pessoas disserem “isto é incrível”, em breve acreditará que seremos capazes de fazer isto ou aquilo.

E, todavia, há tanto sobre a criatividade humana que não entendemos ainda...

Durante muito tempo, as pessoas pensavam “Oh, o xadrez é o suprassumo da vivência humana, é um jogo tão importante que até os intelectuais jogam”. Se se pode ensinar os computadores a jogar xadrez … e se os computadores aprendem a jogar xadrez, aí percebe-se bem que, na verdade, há a comédia, há a narrativa, há como ser uma avó carinhosa. Quer dizer, há tantas outras coisas que não são analisadas [na vivência humana] ou que não são colocadas neste tipo de posição bizarra ​​em que o xadrez foi colocado, durante séculos, na Europa e, afinal, o que estamos a assistir é que os computadores estão gradualmente a invadir [este espaço].

Neste momento, pode-se ter um computador para fazer algo muito específico muito bem, mas a criatividade tem que ver com a construção de sentido e tem de se entender o todo para se ser criativo.

ED — Pode a automatização de megadados ser algo realmente importante para as pessoas, ao invés de só para as empresas?

CC — Bem, os megadados são uma coisa importante para as pessoas no sentido de que estas “são as vacas que estão a ser ordenhadas”. Nós somos todo o tipo de vitelas que estão a ser ordenhadas pela indústria ou consumidos pela indústria.

Os megadados poderiam trazer outro benefício social?

Sim, com certeza, mas teria que ser numa sociedade diferente da nossa sociedade, porque não vai acontecer de outro modo. Tenho acompanhado uma variedade de organizações e, para ser claro, os megadados são uma coleção passiva de muitas e muitas informações. Então, é algo que não será realmente possível antes.

Houve um breve momento, por volta da Segunda Guerra Mundial, em Inglaterra, em que havia um movimento apelidado de Observação em Massa, relacionado com o esforço de guerra, mas também foi uma tendência de sociólogos que registavam tudo. Foi algo de incrível e há um belo arquivo. [Imagine,] pessoas simplesmente a vaguearem com os cadernos, a escrever o que vêm, o que alguém está a fazer, e coisas deste género.

Mas, no final, a humanidade da captura da informação sempre esteve lá.

Por isso, se uma dessas pessoas da observação em massa visse algo terrível, muitas vezes deixava o seu caderno e fazia alguma coisa.

Os megadados fazem todo este ato passivamente, muitas vezes até automaticamente, no sentido da titularidade proprietária da indústria ou dos governos.

De facto, neste momento, há apenas algumas empresas que estão a trabalhar com megadados genuínos, ou um grupo de indústrias que funciona em torno delas e que, às vezes, também tem acesso aos mesmos.

Megadados não são algo que eu possa simplesmente ir para casa e produzir. Basicamente, tem que se ser o Google ou algo parecido, para o conseguir.

Por exemplo, nas Nações Unidas (ONU), há um projeto que Ban Ki-Moon começou, o “Global Pulse”, em que se tenta descobrir se se pode usar megadados para antecipar o próximo colapso financeiro.

As pessoas da ONU não conseguem, efetivamente, influenciar o próximo colapso financeiro, mas podem, preventivamente, fazer planos para esse cenário.

Percebi porque estavam a tentar fazer isso: não têm acesso aos dados, portanto, o que podem fazer é pegar nestes, olhar para algo e, depois do acontecimento, apurarem uma correlação.

Por exemplo, descobriram que as pessoas no Congo vendiam as suas bicicletas imediatamente antes de haver um novo surto de violência. Como o povo sabia que ia acontecer um surto de violência, as pessoas vendiam as suas bicicletas para comprar uma [espingarda automática] Kalashnikov; mas a ONU não tinha qualquer desses dados em tempo real, de modo que não conseguia fazer nada para o impedir [o acontecimento].

De momento, julgo que isto está, completamente, fora das mãos de alguém que tenha um conjunto diferente de valores.

Por isso, penso que a solução estará, digamos, no que as nossas novas instituições possam construir para criar uma sociedade mais justa, em que todos os dados não estejam nas mãos de um conjunto de pessoas, sem que nenhuma das capacidades esteja a ser usada para o bem social.

Professor Christopher Csikszentmihalyi, do M-ITI

ED — Chegou a uma conclusão? Que tipo de processador é a mente humana?

CC — Bem, não, eu acho que é um erro considerá-lo um processador. Quer dizer, uma das primeiras coisas que as pessoas no negócio da Inteligência Artificial fazem, porque é um negócio também, é fazer essas analogias.

As analogias são uma forma genuína de gerar conhecimento, todos nós fazemos analogias o tempo todo.

É apenas parte de como pensamos, mas existem essas analogias que têm, diria, um efeito corrosivo sobre o que se está a tentar estudar.

Como afirmou a académica Catherine Hills, «eu posso dizer que um trator e uma galinha são coisas muito diferentes, mas agora, na sua mente, “trator” e “galinha” surgem juntos». Mesmo não tendo relação entre si, relacionei-os agora apenas por os mencionar.

Julgo que isso é o que a Inteligência Artificial tem feito de forma concisa com a humanidade.

Construíram um computador, têm algo que é como um interruptor de luz, a que chamam memória. Mas agora há um monte de “interruptores de luz”. Assim, de repente, está-se a misturar algo que é uma coisa com algo que é outra muito diferente e a fazer as coisas diferentes mais simples, está-se a fazer coisas diferentes parecer menos difíceis. E a memória é, na verdade, uma coisa muito difícil.

Como sabe, tivemos essencialmente, durante uma centena de anos, pessoas a fazer analogias entre a humanidade, a criatividade, o cérebro e as máquinas.

O efeito concreto disso foi a produção de uma terrível investigação. Também houve alguma investigação interessante, muitas vezes sem usar essas analogias, mas temos agora um embaratecimento de um conjunto de coisas realmente importantes, como a memória, a criatividade e a inteligência.

Não é tanto que a tecnologia tenha criado inteligência; tudo o resto é que foi arrastado para baixo…


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