«A música é razão com emoção»

Pedro Neves, maestro em entrevista

Maestro Pedro Neves
O Conservatório — Escola Profissional das Artes da Madeira organizou a primeira edição da Orquestra de Jovens dos Conservatórios Oficiais de Música e, este ano, acolheu a décima sexta. A regência esteve a cargo do Maestro Pedro Neves.
Numa entrevista sobre educação, artes e cultura, reflete sobre o passado, o presente e o futuro da música.

A música serve propósitos intelectuais ou sensoriais?

A música serve os dois propósitos. Por um lado, um propósito intelectual, se considerarmos que a música é arte. Sendo arte, a música é para ser pensada, construída, com uma mensagem, construída no pensamento, no espírito. Tem por trás um objetivo e — por ser pensada, trabalhada — essa mensagem vai tocar as sensações, as emoções.

A música é uma espécie de razão com emoção.

É uma mistura. Num primeiro estado, a música é pensada, é intelectual, mas, numa segunda abordagem, ela vai ter que misturar esse lado intelectual com o lado emocional, dos sentidos.

Por isso, acho que abrange os dois propósitos.

Como define a área em que trabalha? Será música erudita, clássica, orquestral, de concerto ou — simplesmente — música?

Pelo princípio, seria simplesmente música, mas para distinguirmos um bocadinho todos os tipos de música e os diferentes objetivos que tem cada tipo de música, a denominação de música erudita será a mais indicada.

Dentro da música, temos de distinguir um aspeto importante.

A música de entretenimento é feita para entreter, para as pessoas estarem com um certo estado de espírito. Outra música tem que ver com a arte, que faz as pessoas pensar.

Faz as pessoas levar para casa um tipo de mensagem que perdurará no tempo. Pode-se fazer esta distinção.

Para além destes dois tipos, depois existem vários géneros: música jazz, pop, tradicional, erudita…

Neste caso, o que eu faço talvez se possa chamar de música erudita. É o mais indicado.

XIV Edição da Orquestra de Jovens dos Conservatórios Oficiais de Música, no Funchal — fotografia de Joana Sousa

A ligação entre a educação e as artes é antiga. Como entende esta relação?

A relação entre a educação e as artes, entre a educação e a cultura, é o ponto fundamental.

Neste momento, para nós, em Portugal, o que está a falhar é a relação entre as duas. Já temos um nível de evolução substancial — ainda agora, por exemplo, acabo de fazer este estágio com jovens e consegue-se perceber que o nível está em completa ascensão. Se nós compararmos o nível que tínhamos há vinte ou trinta anos, não tem nada que ver com o nível que existe hoje.

O nível dos estudantes tem subido, ao contrário da crise. É um nível altíssimo.

Quer dizer que a educação está a funcionar bem nesta área específica. Está a funcionar muito bem.

O que está a faltar é a ligação entre a educação e as artes, entre a educação e a cultura, para a formação geral das pessoas.

Isso é que é a nossa falha. É para onde temos de olhar e caminhar.

Ou seja, precisamos de ensinar a nossa cultura — e a cultura de outros povos, também — ao longo da educação da pessoa.

A cultura tem de estar na escola e tem de acompanhar o seu percurso. Não se deverá fazer uma coisa por obrigação, com uma ou duas disciplinas que passam e de que, passados uns tempos, já ninguém mais se lembra. A cultura tem de fazer parte da nossa educação. O caminho a seguir é este. É essa ligação que nos está a faltar.


Em que medida a experiência de orquestra é relevante para os jovens e que características valoriza nestes músicos em formação?

É simples.

O tocar em grupo, para os músicos, significa coisas básicas: ouvir o outro, saber qual é o seu papel (se é um papel importante ou se é um papel secundário), saber entrosar-se com o colega do lado, cumprir regras de horários.

Tudo isto é o que nós fazemos na sociedade, fora do contexto musical. Se um músico consegue fazer isto e se habitua a fazer isto em grupo, possivelmente irá ser um melhor cidadão.

Por isso, num processo de comparação entre uma coisa e outra, se a pessoa durante a sua formação consegue praticar trabalhos coletivos, neste caso da música (tocar, por exemplo, numa orquestra), tenho a certeza que a sociedade vai acabar por ser melhor e que as pessoas vão conseguir trabalhar mais para o coletivo, ter esta visão do grupo e não tanto o pensamento individual.

Valoriza a formação dos próprios músicos e mesmo das pessoas que estudam música e não vão ser músicos.

Essa é a mais-valia: aprender a viver nesta microssociedade que é a Orquestra.

Para além de que (como já se tem falado muitas vezes, embora nunca se preste muita atenção), tendo este trabalho coletivo de disciplina, de concentração (que tocar um instrumento exige), as pessoas, provavelmente, aplicá-lo-ão noutras disciplinas e serão melhores noutras áreas.

Há outro ponto importante e sobre o qual importa refletir.

A Educação poderia ser melhor se as pessoas tivessem uma prática que as obrigasse a ter alguma disciplina e alguma concentração, como no caso da música.

Quando está em orquestra, quais são as características que mais aprecia nos jovens?

Uma grande característica que têm os jovens músicos quando trabalhamos em grupo é terem a energia da juventude e, às vezes, é só saber encaminhá-la para o sítio certo.

O que mais aprecio é, com uma tenra idade (se assim se pode dizer), já haver um profissionalismo grande.

Isto no que respeita a coisas simples, como estar em silêncio no ensaio, chegar a horas, parar de tocar quando o maestro acaba para dar uma indicação, estar concentrado para ouvir o que o maestro tem a dizer ou o que os colegas, eventualmente possam sugerir.

Valorizo este tipo de atitudes e nós tentamos incuti-las nesta prática.
XIV Edição da Orquestra de Jovens dos Conservatórios Oficiais de Música, no Funchal — fotografia de Joana Sousa

Em alguns conservatórios ou academias musicais, assiste-se à formação noutras linguagens, como o jazz, ou em instrumentos tradicionais. No entanto, uma orquestra sinfónica não inclui guitarra, bandolim ou acordeão, que são instrumentos acústicos com difusão universal.

A incorporação de novas linguagens musicais ou de outros instrumentos no trabalho e na estrutura habitual de uma orquestra pode fazer sentido?

Faz todo o sentido.

O facto de não haver estes instrumentos nestas formações tradicionais é porque a evolução da música ocidental não chegou aí.

Nada impede de, a partir daqui, alguém tentar incorporar esses instrumentos na orquestra. Porque não?

É uma questão de os compositores — que realizam a composição das peças — terem abordagens diferentes. Se acham que a sua peça fica bem ou que o objetivo é ter um ensemble que tem um bandolim, por que não? Existem já no repertório de orquestra algumas peças que têm um ou outro instrumento assim.

Por exemplo, um instrumento muito popular que raramente participa em orquestra é o saxofone. Mas ocorre, porque alguns compositores acharam que era um timbre que se devia ter na orquestra.

É um dos instrumentos que raramente incorporam a orquestra. Mas julgo que é só uma opção de linguagem, não tem que ver com o que normalmente os instrumentos fazem, se estão mais ligados à música tradicional, à música popular ou à música pop.

Tem que ver com o compositor interessar-se por introduzir esses instrumentos, em primeiro, na sua linguagem e, depois, no ensemble para o qual escreve.

A utilização de um dado instrumento tem muito que ver com a vertente da composição. Como o nosso tempo é um tempo de experiências e de abrir caminhos (acho que assim se pode denominar), a tendência é para isso acontecer.

Esta procura de novos timbres, de novas cores dos instrumentos faz os compositores procurarem instrumentos que, normalmente, não fazem parte do grupo.

Isto pode ser mesmo uma coisa que nos pode distinguir nesta nossa época, às vezes um pouco conturbada, no mundo das artes e, em particular, no da música.


A evolução tem-se feito, nalguma medida, pela desconstrução dos padrões de harmonia, de melodia e até de ritmo. A música atonal é apenas um exemplo desse percurso.

Como antevê o futuro da música?

Na música, tudo tem um caminho. Esta coisa que os músicos inventaram de chamar ‘contemporânea’ à música… É um palavrão que, às vezes, mete um bocadinho de medo às pessoas.

A música contemporânea, na realidade, não existe. É só música.

Só que a música tem um percurso. O percurso tonal na música erudita, pensada, chegou a um ponto de composição em que já não havia mais sítio para ir. Já estava completamente explorado.

Isto faz com que os compositores pensem noutra forma de compor e procurem outros caminhos. Claro que aí começa a haver várias vertentes e várias formas de olhar a música.

Por isso é que, hoje, não existe um sistema tonal — como poderia haver no tempo de Mozart ou Haydn, em que as pessoas compunham com aquele sistema.

Hoje, pode haver vários caminhos para a composição. Ainda estamos à procura [de um sistema]. Muito brevemente, encontrar-se-á uma maneira de que as pessoas se possam reconhecer numa forma de composição.

Como se anda um pouco à deriva, há sempre uma vertente dos compositores que quer ir à frente e outra vertente dos compositores que quer voltar atrás, aproveitar o que se fez e moldar o sistema.

Há muito essas duas vertentes. Vamos ver até quando isto subsiste e vamos ver se se encontram e chegam a um acordo.

Depois de um período de procura, vem um período mais estável. Nesse sentido, o futuro será um pouco mais estável.

Estou sempre a falar numa perspetiva da música enquanto música pensada, escrita.

Quando eu digo que o sistema tonal acabou, não quero dizer que, hoje, não ouçamos música pop, que é feita num sistema tonal.

Não tem nada que ver, são coisas diferentes.

Aqui, trata-se de procurar outra forma. As pessoas estão tão habituadas, estão tão absorvidas ainda pelo sistema tonal (e bem, porque é o que nós ouvimos…) que, quando surge outro sistema, ocorre um choque inicial.

A pessoa precisa de uma habituação para perceber. Não é à primeira, nem à segunda.

Tem de se ir acomodando àquela nova sonoridade, àquela nova maneira de escutar a música.

Por exemplo, nós, portugueses, não temos o hábito de ouvir música indiana, que é escrita (se assim se pode dizer) numa escala diferente. A divisão dos tons é diferente (dito de uma forma simples). Para eles, é normal e, para nós, é estranho. Claro que se nos puserem a ouvir música indiana durante dez dias, a partir daí já vai ser normal. É tudo uma questão cultural, de hábitos.

Creio que a música que se faz hoje venha a ter o seu lugar num futuro próximo. Hoje ainda é um bocadinho estranha.

Nós olhamos para a música que é feita hoje ainda um bocadinho de longe, um bocadinho desconfiados… «O que é que é isto?»

A tendência, a seguir, é para estabilizar. Isto tem de se tornar estável. Não há volta a dar-lhe.


A música tem influências de outras artes e cruza-se, em certos espaços, com a poesia, a dança ou o cinema. O que se ganha com esta ligação?

Ganha-se conhecimento e aprendizagem entre as artes.

Isto não implica que a música não possa fazer o seu caminho. Porque, às vezes, o outro lado de mistura com a poesia, com a dança, com a luz e com outro tipo de sons pode indicar-nos que o caminho é só por aí: «Agora só sobrevivemos se as artes forem todas misturadas!». Acho que não.

Cada arte tem o seu percurso, mas, com a mistura, tudo ganha mais força, porque há um conhecimento que passa de umas para as outras.

Basta, por exemplo, observarmos o fenómeno da ópera, que é um fenómeno um bocadinho à parte da música só, absoluta. A ópera já mistura vários tipos de arte: o teatro, a dança, a própria representação, o cenário. Tem várias artes envolvidas. Dá para perceber que é um espetáculo forte só por si.

Ganha-se com todas as artes.

A música mistura-se com a dança, a dança com a representação, com a cena… E tudo ganha uma força maior.

Por isso, a ópera ainda é um marco. As pessoas têm muita curiosidade e ficam tocadas ao vê-la. Há ali qualquer coisa que ainda faz mexer. Acho que é essa conjunção de todas as artes.

De qualquer das maneiras, a música tem essa particularidade de ser influenciada pelas outras artes. Quando é preciso misturá-la, parece que não é preciso muito esforço. Facilmente se mistura.

Sobretudo, tem-se muito a ganhar com o conhecimento transversal entre todas as artes.


Na música pop/rock, a edição de discos com música totalmente gravada em computador tem-se vindo a vulgarizar.

Qual será o destino profissional dos músicos? O desempenho musical humano passará apenas a ser valorizado ao vivo?

São duas coisas diferentes. Uma coisa é ser feita por uma pessoa. Outra coisa é ser uma máquina que, embora tenha sido programada por uma pessoa, não deixa de ser uma máquina.

Estes dois fatores têm objetivos diferentes e dificilmente se vão anular um ao outro. Vai sempre haver diferença.

Hoje, tem de se aproveitar os dois lados.

Na música que se faz hoje, os compositores têm uma tendência grande para utilizar a eletrónica, a tecnologia. Fazem bem, porque é o que invade a nossa vida.

O trabalho feito num computador não anula o que é feito pelos músicos. Complementam-se.

É nesta visão que tem de se trabalhar e não numa visão de que um vai substituir o outro. É sempre algo de entreajuda e de complementaridade. O que nós fazemos — em princípio — nunca será feito por um computador e aquilo que um computador consegue fazer, uma pessoa não conseguirá fazer.

A entreajuda será a ideia certa, mesmo na música pop ou rock. É preciso um lado digital, eletrónico, da máquina, mas há outro lado humano que valoriza a canção. Que dificilmente vai ser feito por uma máquina.

Implica ter o ouvinte preparado para ter essa sensibilidade e para distinguir uma coisa da outra.

Se nós só estivermos preparados para ouvir música feita no computador, é claro que nos vamos habituar a isso e vamos deixar de querer ouvir uma voz.

Estou convencido de que nunca vamos ter um fado cantado por um computador.

Quero-me convencer de que isso não será possível…

XIV Edição da Orquestra Juvenil de Conservatórios Oficiais de Música MADEIRA, 2017 (página do evento no Facebook)