Pequenos de Coração Grande

Exemplos de participação social das escolas da Madeira

Comboio das Tampinhas na Escola da Nazaré

No anonimato das campanhas de solidariedade, nas visitas privadas a instituições ou na angariação de fundos para doentes incógnitos, grande parte da intervenção social das comunidades educativas ocorre fora dos olhares públicos.

As crianças e os jovens da Região Autónoma da Madeira (RAM) — com o apoio de pais, professores e funcionários — ‘fazem o bem sem olhar a quem’.

Segundo dados da Associação Portuguesa de Deficientes (Delegação da RAM) e da Associação Sem Limites, a campanha ‘Dê Uma Tampa à Indiferença’ recolheu 41 278 Kg de tampinhas de plástico durante o ano de 2016. Estima-se que 60% tenham sido enviadas por 8 infantários, 44 escolas básicas com pré-escolar e 18 escolas secundárias de todos os concelhos da RAM. O montante angariado proporciona material ortopédico, ajudas técnicas ou medicação a pessoas com necessidades especiais socialmente carenciadas. Algumas entregas de cadeiras de rodas decorrem em escolas para que as crianças e os jovens possam ver o fruto do seu esforço.

De entre os inúmeros estabelecimentos de educação e ensino com intervenção social, apresentam-se dois exemplos deste envolvimento positivo.


Escola Básica do 1.º Ciclo com Pré-Escolar e Creche da Nazaré (Funchal)

Duarte Fernandes, Diretor da Escola da Nazaré

No seu plano anual de atividades, a Escola Básica do 1.º Ciclo com Pré-Escolar da Nazaré inclui diversas atividade de cariz social. É o caso da participação no Dia Nacional do Pijama (em que crianças ajudam outras crianças), da recolha de alimentos em cooperação com a paróquia local ou da entrega de roupa usada à Cáritas.

O Diretor da Escola, Duarte Fernandes, faz ainda referência às atividades intergeracionais: «Num dia da Semana das Artes, um grupo de idosos da Casa do Povo vem à escola e vende diversas coisas, desde joeiras a carros de cana. Fazem isso com os miúdos e apresentam alguns números de teatro, melhorando a ligação entre as gerações.»

Carmo Góis, responsável pelo projeto na escola

Além destes contributos, a recolha de tampinhas pelas crianças tem sido um grande sucesso. Carmo Góis, responsável pelo projeto na escola, refere o empenho de cada sala numa disputa saudável.

«Resolvemos fazer um quadro em que cada garrafão cheio de tampas recolhidas pelas crianças, nas salas ou em casa, seria representado por um símbolo pequenino de garrafão de água. Pensávamos que isto ia correr bem, mas não tão bem assim. O entusiasmo foi tanto que os símbolos já nem no quadro cabiam.»

Do início de fevereiro até meados de março, já recolheram e entregaram mais de trezentos quilos de garrafões com tampinhas.

Dois alunos do projeto

«As famílias também são mobilizadas e já houve vários pais a trazer sacos cheios de tampinhas, que pedem em restaurantes», sublinha, acrescentando que o projeto «dinamizou não só a própria escola e os alunos, mas toda a comunidade.»

«Pretendemos continuar», assevera a educadora.

Duarte Fernandes faz notar que o trabalho em atividades festivas, como o Natal ou a Páscoa, não é separado da intervenção na componente familiar e social, realçando ainda as sensibilizações realizadas com o Centro de Saúde, envolvendo crianças, encarregados de educação e docentes.

Sobre o projeto das tampinhas, as crianças demonstram entender que o valor não está apenas na quantidade recolhida, mas também na solidariedade demonstrada.

Comboio das Tampinhas

Martim — «A escola está a fazer um concurso. Uns ficam um pouco aborrecidos porque são de turmas que não têm muitas tampas e outros ficam tão felizes que até parece que vão partir os vidros todos! [risos] Está a correr bem. Costumo, também, trazer muitas tampinhas para a escola.»

Áron — «Esta ideia da recolha das tampinhas foi muito interessante e também já parece que todos querem mais tampas do que aquilo que é mesmo preciso. Por vezes, parece que estão a fazer uma corrida, em vez de ajudar os que precisam de uma cadeira de rodas. As turmas trazem muitas tampas. Eu não trago muitas tampas porque não costumo beber muitos sumos.»


Escola Básica dos 1.º, 2.º e 3.º Ciclos com Pré-Escolar do Porto da Cruz (Machico)

Alunas e professoras do Clube Unidos Por Um Sorriso

Desde 2008, a Escola Básica do Porto da Cruz tem um clube que sensibiliza a comunidade educativa para os valores da solidariedade, da amizade e da entreajuda.

Unidos Por Um Sorriso, os professores procuram incutir valores humanos nos alunos, incrementar a sua iniciativa e a sua autonomia, bem como desenvolver a tomada de decisões justas e responsáveis pelos mesmos.

Marisol Andrade, uma das responsáveis, menciona que «o clube abrange todos os alunos, com atenção especial para os alunos com necessidades educativas especiais».

As atividades intergeracionais com o centro de dia local são «uma forma de os idosos reviverem o seu tempo de infância, de juventude, criando um laço entre as crianças e os idosos», assegura a professora.

Atividades intergeracionais

A recolha de tampinhas também é cuidada pelos alunos. «Conseguimos à volta de 30 sacos enormes», complementa.

Quando é necessário, os alunos e as suas famílias recolhem donativos para ajudar nos custos de um tratamento especial de algum aluno ou aluna doente, por vezes sob anonimato da pessoa apoiada. Os pais também ajudam, com a confeção de bolos ou monetariamente.

«Tudo o que conseguimos angariar é contado na presença dos alunos. Eles é que registam, e são eles que vão connosco ao banco fazer o depósito nas contas solidárias.»
Feirinha Solidária

A diversidade de atividades é sublinhada pela professora Felisbela Ornelas, também responsável dos Unidos Por Um Sorriso: «Quando surge uma catástrofe, seja a nível local, a nível regional ou até mesmo a nível internacional, nós também nos mobilizamos no sentido de angariar peças de vestuário ou um valor monetário ou qualquer outra coisa que seja relevante as pessoas necessitadas. São situações que surgem pontualmente, de forma emergente, e em que temos de atuar.»

Da relação com os outros clubes escolares nascem interações positivas.

O Clube de Fotografia regista muitos dos momentos solidários e o Clube das Artes também faz trabalhos para a ‘feirinha solidária’, demonstrando o espírito de entreajuda.

A interiorização de valores é um ponto central neste clube, pelo que os alunos já visitaram o Aconchego, o CAO da Quinta do Leme, a Abraço, a Acreditar, a SPAD, a Loja Social de Santana, a Casa de Saúde de Câmara Pestana — Irmãs Hospitaleiras, o Lar de Santana e o Hospício da Princesa D. Maria Amélia. Note-se que algumas destas instituições se focam no acolhimento de crianças e jovens.

Momentos especiais são os vividos nas viagens ao CAO de Machico. «Este ano, a nossa primeira atividade foi visitar os alunos especiais que já fizeram parte deste clube», relembra Marisol Andrade.

Em qualquer espaço, pode surgir a solidariedade.
Tal como nas atividades, os jovens também têm algo a dizer.

Luna — «Uma amiga falou-me do clube, achei interessante e decidi experimentar. Gostei muito, porque a professora Marisol é muito simpática e nós fazemos coisas muito interessantes. Ajudar os outros é muito importante, porque todos deviam sentir-se felizes neste mundo.»

Mariana — «O que mais gosto de fazer no nosso clube é visitar orfanatos e instituições que cuidam dos animais. Ajudar é sempre muito importante. Eu posso ajudar uma pessoa agora e essa pessoa ajudar-me amanhã.»

Filipe — «Eu sinto alegria e prazer em ajudar as pessoas, porque sei que estou a fazer uma boa ação. Ajudar faz-me sentir melhor e, ao mesmo tempo, fá-las sentir bem.»

José Pedro — «Gosto de ajudar as pessoas em várias coisas. É bom contribuir para o bem dos outros.»

Ruben — «Nunca vou esquecer o dia em que fomos ajudar as pessoas com SIDA. Levámos-lhes coisas e ajudámo-los. É importante ajudar o outro, porque toda agente tem direito a ter uma boa saúde e alegria.»

Like what you read? Give SRE . Madeira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.