A escultura Chargin Bull, the Arturo Di Modica, instalada em Wall Street. Foto: Cap’n Surly, via Creative Commons.

Por que Bernie Sanders assusta Wall Street

O discurso inflamado do senador de 73 anos escancara os privilégios que grandes corporações compram com suas gordas doações de campanha

A imprensa americana ainda tratava Bernie Sanders como o folclórico socialista que queria fazer barulho na campanha que escolheria Hillary Clinton como candidata democrata quando eu escrevi aqui, no dia 30 de abril do ano passado: “Muitos o consideram idealista demais, mas esse mesmo discurso sonhador o levou ao Senado. Não é pouca coisa. Ele é o o primeiro socialista declarado a chegar ao Congresso Americano”. Ninguém leu, mas parece que eu estava certo. :o) De lá para cá, a oratória inflamada de Sanders ganhou força. A dois dias das primeira votação primária, no Estado de Iowa, ele está empatado na liderança das pesquisas com Clinton.

O velhinho socialista deixou de ser folclórico. Virou uma pedra bruta nos refinados sapatos Testoni das grandes corporações americanas.

A força de Sanders incomoda gente poderosa porque, ao lançar candidatura, o senador assumiu o compromisso de não aceitar doações de milionários e de grandes corporações.

Os ricos riram, a princípio. Onde o velhinho socialista ia arrumar dinheiro para pagar a campanha? Em nove meses, Sanders arrecadou 77 milhões de dólares pulverizados em mais de 2,9 milhões de doações feitas apenas por pessoas físicas. O valor médio das doações: 27,81 dólares.

Sanders está sendo ouvido. E quem o escuta está tirando dinheiro do bolso para ajudá-lo a amplificar o alcance do discurso.

Mas afinal, por que um candidato ancorado em trocados doados por um bando de pobres incomodaria os poderosos do mundo corporativo?

Bernie Sanders discursa na Iowa Wesley University, nesta sexta (29/1). Foto: divulgação

Entre tantas outras razões, porque 0 candidato está abrindo os olhos dos americanos para o fato de que essa gente que calça sapatos que custam 38 mil dólares o par consegue fazer manobras dentro da lei para não pagar impostos. Num encontro com eleitores nesta sexta (29/1) na Iowa Weslyan University, Sanders disparou:

“As três corporações mais lucrativas da América não apenas não pagam imposto de renda federal, como ainda recebem incentivos do IRS*.”

E deixou circular entre a audiência a lista levantada pela organização não-governamental Citizens for Tax Justice (CTJ) com as dez corporações que legalmente mais se esquivam de pagar impostos nos Estados Unidos: General Electric, Boeing, Verizon, Bank of America, Citigroup, Pfizer, FedEx, Honeywell, Merck e Corning.

As três primeiras, somadas, registraram 102 bilhões de dólares de lucros entre 2008 e 2013. Nesse mesmo período, segundo a CTJ, elas receberam 4,1 bilhões de dólares em incentivos do IRS.

O plano de reforma tributária proposto por Sanders promete acabar com as brechas que permitem às corporações se esquivarem de pagar seus impostos.

Trocando em cifrões, não são as inclinações socialistas de Bernie Sanders que assustam os maganos de Wall Street; o que eles temem é a possibilidade de desembolsar uma parte maior dos gordos lucros para ajudar a sustentar a cara Democracia americana.

*Internal Revenue Service, a receita federal americana

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