Donald Trump comemora mais uma vitória nas primárias republicanas: ele já conquistou três, dos quatro primeiros estados. (Foto: divulgação de campanha)

Por que Donald Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos

Ou, dez razões para perder a fé na humanindade

Ninguém precisa me lembrar de que é temerário fazer previsões deste tipo. Mas este é um daqueles raros casos em que, se eu estiver errado, vou ficar mais feliz do que se estiver certo. Portanto, nada tenho a perder.

Vamos então às razões que me fazem acreditar que o próximo presidente americano vai ostentar uma rídicula franja acaju desfiada na testa (e esse é apenas o menor dos problemas dele):

1. Os americanos estão cheios dos políticos convencionais.

Em fevereiro do ano passado, enquanto os dois partidos sonhavam com uma disputa entre Jeb Bush e Hillary Clinton, os eleitores se queixavam nas redes sociais do que chamavam de dinastias. Queriam algo novo. Donald Trump, atento ao movimento, se apresentou. Nunca foi político, promete faxina na Casa Branca, diz que vai botar o “big stick” para cantar em cima dos chineses. É praticamente o Super Franja em ação. E ainda por cima, teve a vantagem de varrer a monotonia dos debates, com seus arroubos de showman. O que nos leva ao segundo motivo.

2. Trump é, de longe, o mais divertido dos candidatos

Não estou dizendo que ele não seja louco, xenófobo, sexista, racista e todos os “istas” mais que sua imaginação conseguir inventar. Mas é preciso admitir, ele é engraçado. E como as pessoas dão risada com ele, continuam assistindo, tweetando, compartilhando... E aí entra aquela palavrinha mágica para as empresas de comunicação: audiência. Em busca da audiência que ele traz, elas mais e mais o chamam para os talk shows, o colocam nas suas manchetes, aumentam o tempo de exposição da ridícula franja dele nas telas. O cara é um showman, é um careteiro, quase um palhaço de palanque. E além de tudo isso é bilionário, o que nos leva ao terceiro motivo.

3. Os americanos valorizam dinheiro e idolatram quem tem muito

Ser bilionário na América é sinônimo de competência, iniciativa, capacidade de realizar, firmeza de propósitos e coragem para tomar medidas nem sempre populares. Por essa régua, Trump tem uma vantagem enorme sobre seus concorrentes. Levantamento da revista Forbes avaliou a fortuna dele em 4,5 bilhões de dólares. É cem vezes mais rico do que Hillary Clinton, a mais rica entre os democratas, que tem a 45 milhões de dólares. Super Franja não precisa de doações dos amigos bilionários para se eleger. Uma vez eleito, estará livre, portanto, para governar para a classe média empobrecida. O que nos leva ao quarto motivo.

4. Os americanos empobreceram e querem seus empregos de volta

Uma parcela considerável da classe média desapareceu desde a Crise de 2008. Afundaram-se em dívidas depois que seus empregos foam engolidos pela recessão. Eles culpam a mão-de-obra barata na China, a mão-de-obra barata dos imigrantes ilegais e o acordo de livre comércio entre Canadá, EUA e México, o Nafta, pelo desaparecimento dos empregos. Super Franja tem solução para tudo. Vai deportar milhares de imigrantes que tiram os empregos do americano pobre; vai endurecer as relações comerciais com a China que rouba os empregos do americano pobre; vai cortar os impostos das corporações americanas para que elas tragam de volta os empregos industriais que exportaram para os miseráveis estrangeiros de outros países; vai cortar os impostos da classe média para aliviar a conta do americano pobre. Um monte de promessas de balcão de padaria, mas que podem funcionar, principalmente contra um candidato democrata que represente o establishment político. O que nos leva ao quinto motivo.

5. Hillary Clinton é uma política convencional

Hillary é o establishment político tradicional vestido de tubinho vermelho. É mulher do ex-presidente Bill Clinton, o mesmo que pediu a entrada da China na Organização Mundial do Comércio; que fez passar no Congresso Americano o Nafta; que iniciou a desregulamentação do setor financeiro (para muitos, a raiz da crise de 2008). Hillary recebe doações milionárias de Wall Street, a encarnação do mal para o americano médio empobrecido. Hillary mente, distorce, esconde, engana, muda de opinião. Está tudo lá, no YouTube, para quem quiser ver. E para piorar, está suando para conseguir a indicação democrata. Já abriu fogo pesado contra o vovô socialista Bernie Sanders. O que nos leva ao sexto motivo.

6. Hillary vai perder uma parcela dos eleitores democratas

O desempenho de Bernie Sanders mostra que quase metade do eleitorado democrata não gosta da ideia de votar em Hillary Clinton. E ela já começou a queimar os navios com os ataques a Bernie. Se exagerar, Hillary ganha a indicação partidária mas perde os eleitores do vovô socialista. Eles votarão em Trump? Claro que não. O voto nos Estados Unidos não é obrigatório. Eles simplesmente deixarão de votar. Um fenômeno bem conhecido pelo Partido Republicano. Sempre que os ultra-conservadores se sentem desrespeitados com a escolha de um candidato moderado, eles se abstêm de votar. Com base eleitoral menor, as chances de ser derrotado pelo adversário no voto popular aumentam. E quem ganha num estado, mesmo que por um voto de vantagem, leva todos os delegados do colégio eleitoral. Essa é a regra na maioria dos 50 estados americanos. E Super Franja nem precisa disputar os estados progressistas das Costas Leste e Oeste para vencer na corrida pela Casa Branca. Mas esse já é o sétimo motivo.

7. Trump só precisa retomar quatro estados dos democratas

Se repetir o desempenho de Mitt Romney na última eleição e somar a isso quatro estados do Upper Midwest em que Obama venceu e 2012, Trump conquistará 270 votos no colégio eleitoral — número mínimo necessário para sentar no Salão Oval. Os estados em questão são Ohio, Pennsylvania, Michigan e Winscosin, todos com população majoritariamente branca (acima da média nacional) e altamente sensível aos efeitos negativos da política econômica dos últimos 30 anos. É verdade que os republicanos não costumam vencer nesses estados, mas uma mudança está em curso. Pesquisas feitas por um sindicato em Pittsburg e Cleveland entre famílias de operários com até 75 mil dólares de renda anual revelaram que, entre os eleitores que já haviam decidido voto para um potencial candidato, 38% declaravam a intenção de votar em Trump. Mais do que Hillary e Sanders somados. E o apoio não vinha só de conservadores xiitas. Um em cada quatro eleitores que nas últimas eleições elegeram democratas se declararam dispostos a votar no Super Franja. Um indicativo de que algo está mudando é o fato de Ohio, Michigan e Winscosin terem elegido governadores republicanos nas últimas eleições. O que nos leva ao oitavo motivo.

8. As novas leis eleitorais dos governadores republicanos

Em 21 estados, quase todos governados por republicanos (Ohio e Winscosin entre eles), novas leis dificultam o acesso de eleitores ao voto. Basicamente elas exigem apresentação de documentos específicos com foto e reduzem o número de dias em que será possível votar. Como o voto não é obrigatório, os eleitores costumam desistir quando se deparam com filas muito grandes. Isso favoreceria os republicanos porque, em tese, eleitores de baixa renda, com mais dificuldade para conseguir certos documentos e menos disponibilidade de tempo para comparecer às sessões de votação, costuma apoiar democratas. O que explica por que apenas os democratas vêm se queixando das medidas editadas praticamente apenas por governadores republicanos. Estes, aliás, registraram um crescimento expressivo. Nos últimos sete anos, o número de estados governados pelo G.O.P. pulou de 19 para 31, impulsionado principalmente pelas enormes doações de bilionários conservadores, ente eles, os irmãos Koch. O que nos leva ao nono motivo.

9. O dinheiro dos irmãos Koch

Donos de um conglomerado de energia que fatura 153 bihões de dólares por ano, os irmãos Charles e David Koch já anunciaram a intenção de “investir” este ano 900 milhões de dólares em campanhas de candidatos que defendam os valores ultra-conservadores em que eles acreditam. A lista desses valores, acreditem, faz a TFP parecer uma célula comunista. O Super Franja, neste momento, é esquerdista demais para o gosto dos irmãos Koch. Mas não há dúvida de que o dinheiro deles vai para a campanha de Trump, numa eventual disputa contra qualquer candidato democrata. Por que na visão deles, tirar a Casa Branca do adversário é o primeiro passo para voltar a moralizá-la. E não existe momento melhor para isso do que o final do segundo mandato de um presidente. O que nos leva ao décimo motivo.

10. Os democratas estão no poder há oito anos

Parece uma bobagem, mas os americanos prezam a alternância. Depois da década de 1950, só escolheram o mesmo partido para um terceiro mandato em uma ocasião. Quando George Bush pai sucedeu Ronald Reagan. Na história do país, os republicanos tiveram mais de dois mandatos consecutivos em apenas outras três ocasiões. E os democratas em apenas uma. Isso ajudaria a explicar o entusiasmo dos eleitores republicanos, que têm comparecido às primárias até aqui em maior número do que os democratas. O que nos levaria ao inferno final, a vitória do Super Franja.

Uma razão para não perder a fé na humanidade — Há um antídoto para o caos, um único, e é o fato de Trump ser Trump. Sua eventual candidatura poderia gerar um levante de eleitores democratas ávidos por votar contra ele — mesmo que isso implicasse eleger “HilLier” Clinton.

A título de curiosidade, uma média das últimas pesquisas realizadas mostra que se a eleição fosse hoje, Hillary venceria Trump no voto popular com uma margem de apenas dois pontos percentuais. Curiosamente, ela perderia para todos os demais postulantes do Partido Republicano ainda na disputa.

Bernie Sanders bateria todos eles. Sobre Trump, especificamente, ele sustenta uma margem de 6% na média das três pesquisas mais recentes. Em uma delas, encomendada pela Fox/News, Sanders tem mais de 10% de vantagem.