Tapa na Cara

Excluindo-se assédio ou provocação, não há nada mais íntimo que um tapa na cara.

Depois que o dedo toca a garganta, o inferno parece ser a única salvação. Depois de tudo, algumas vão e vulgarizam o batom vermelho. Não que os homens tenham direito a opinar sobre a cor com que as damas se pintam, mas se morre a surpresa da cor, vira efemeridade; transforma a faísca — essa que precede um incêndio — em mera brasa de fim de carvão.

A rotina exclui o encanto da conquista. Sem essa de uma conquista por dia, ninguém tem fôlego pra isso. Manter a respiração, nesses casos, é, como diz o cantor Carlos Posada, o exercício diário da paixão. Quem não respira, faz do peito a morada do vazio. Depois do dedo na garganta, não existem amenidades. A coisa mais íntima — tapa na cara — vira, de fato, a única que existe.


Originally published at emsamaior.com on June 20, 2014.