Danilo Motta
Jul 14, 2016 · 11 min read

João Junior trabalhou no gabinete do deputado federal Jean Wyllys e participou da campanha pelo casamento civil igualitário no Brasil. Agora, ele é candidato a vereador na cidade do Rio de Janeiro, pelo PSB. Confira:

Em primeiro lugar, por que você quer ser vereador?

Durante mais de três anos eu tive uma experiência muito rica na minha vida que foi ser assessor parlamentar do único deputado federal gay assumido do país [Jean Wyllys, PSOL-RJ]. Nessa função, muito mais do que apenas assessorar meu ex-chefe eu procurei usar os espaços que conquistei como modo de melhorar concretamente a vida das pessoas. Junto com um querido colega chamado Bruno Bimbi, coordenamos a bem sucedida Campanha Pelo Casamento Civil Igualitário no Brasil. Me lembro como se fosse hoje o dia em que, respondendo ao meu convite, fiz uma reunião com a Arpen-RJ e junto com o advogado Paulo Iotti tivemos a ideia da petição que provocou o CNJ a emitir a resolução 175/2013 que regulamentou os casamentos entres pessoas do mesmo sexo no Brasil. Mais tarde criei a campanha #NossaFamiliaExiste. Antes da resolução do CNJ ajudei diversas corregedorias do país a emitirem provimentos estaduais reconhecendo os casamentos homoafetivos. Fui eu que apresentei o PPS ao advogado Paulo Iotti (não sem sofrer criticas internas por fazer isso) e eles entraram (depois que o partido o qual eu estava não ter aceitado) com a ação que hoje está no STF procurando equiparar a homofobia ao crime de racismo. Sempre procurei, antes de pensar em quem iria aparecer na TV, que o mais importante era avançar nossas bandeiras e lutas. Não tinha interesse em vir pré-candidato. Para ser bem honesto eu comecei a sondar possíveis pré-candidatos gays que eu pudesse oferecer ajuda no que fosse possível. Já havia recebido o convite, mas ponderei que se eu achasse alguém bacana eu não me importaria em apoiá-lo em vez de vir eu mesmo candidato. Mandei mensagem para um, que no Facebook parecia incrível e comprometido. Mas na primeira vez que eu pude conhecê-lo, eu perdi completamente o encantamento de que aquela pessoa pudesse de fato entender o que significa ser LGBT nessa cidade e, pior ainda, enfrentar toda sorte de adversidades na câmara de vereadores. A primeira, a segunda, a terceira impressões foram um desastre. O cara era um fake. Pensei comigo mesmo: não é possível que após todo o trauma de um Eduardo Cunha, a eleição de “postes” por interesses financeiros internacionais, e toda sorte de mazelas que ainda assolam nossa política nacional, a comunidade LGBT ainda vai cair em mais um conto do vigário projetado milimetricamente por equipes de marketing, assessorias caras de imprensa, instrumentalização econômica de militantes e outros modos de ilusionismo fetichista captando nossos anseios e sonhos para elegermos outros ventrílocos de quem não quer ou não pode aparecer. Reacendi o fogo de luta que sempre esteve em mim e, finalmente, aceitei um dos convites que me foi feito. Acredito que a política ainda é um caminho fundamental para vencermos as batalhas que travamos todos os dias. Eu sei bem o que é pegar o trem cheio todos os dias para ir estudar longe, por que no seu bairro não é possível ter ensino de qualidade. Sei o que é ter que decidir entre estudar sem luz ou ir ser avião ou vapor da boca. Conheço a Vila Aliança, o Cesarão, as Cohab de Bangu e de Realengo. Mas também sempre frequentei de cabeça erguida a Barra, o Leblon, Ipanema. Vou na 1140 e na The Week. Já peguei muito o 918, o 393, o 756, 383. Sei o que é pegar o Ramal Japeri para adiantar e descer em Deodoro para depois pegar o Santa Cruz parador. Não sou mais um que fala da pobreza e da desigualdade da cidade como quem fala de maçãs na árvore sentado na sua mansão na zona sul, falando do pobre com ares de pena. Nossa cidade ainda está sendo governada ou por pessoas torpes ou por pessoas que construíram suas carreiras políticas fazendo tão somente a gestão do discurso progressista, mas com pouco interesse real de que as demandas da população fossem efetivamente e rapidamente atendidas. Quando falamos em questões como equidade de gênero, ataque ao racismo, ampliação de direitos civis e combate a homofobia isso fica ainda mais evidente. Belos discursos nas tribunas e no youtube tem muita importância, mas sei bem que é possível fazer coisas concretas em benefício da população sem antes pensar no calculo eleitoral do que vai se fazer.

Qual a importância de termos mais LGBTs no poder público?

Fundamental, eu diria, para uma efetiva conquista de direitos, derrubada de estereótipos preconceituosos e negativos, bem como, a implementação de medidas concretas de equidade. Nós temos no Brasil grandes e importantes aliados heterossexuais. Mas, mesmo o mais empenhado aliado pode esmorecer e por conveniência política colocar nossas pautas e demandas em segundo ou terceiro plano. Temos visto isso há décadas. Muitos aliados vão até a página 02. Dali em diante nós geralmente temos que lidar sozinhos. Somos nós que somos mortos, somos nós que, ainda, nem sempre nos sentimos confortáveis em andar de mãos dadas com nossos maridos, esposas e namorados/as. Nós membros da comunidade LGBT sabemos perfeitamente o que é o frio na espinha e a duvida em termos que marcar uma consulta médica e nos debatermos com a questão se vamos precisar falar de nossa orientação sexual ou identidade de gênero. Por isso é fundamental que tenhamos membros da comunidade LGBT na linha de frente na construção de políticas públicas, formulação de leis, fiscalização do poder executivo, pressão sobre a aplicabilidade de leis, normas e a cima de tudo, mostrando que é plenamente possível ser gay e ser um legislador competente e capaz de pensar em soluções que afetem tanto a comunidade LGBT quanto a população de modo geral. Como vereador poderei pensar soluções para o transporte público, soluções para conservação e limpeza da cidade, terei que fiscalizar a aplicação dos recursos provenientes dos nossos impostos, repensar a carga tributária municipal, o papel da guarda municipal na segurança pública. É urgente articularmos modos de trazer mais investidores para a cidade, creches para as filhas e filhos das famílias trabalhadoras. E ainda ser capaz de fazer frente aos projetos nefastos e absurdos que ainda são propostos nas câmaras de vereadores, onde, camuflados sob títulos de afeito marqueteiro, buscam na verdade segregar a comunidade LGBT do restante da sociedade. Querem apagar nossa autoestima e continuarem vendendo a história da carochinha de que apenas a heterossexualidade existe ou é a única sexualidade positiva da sociedade. Representatividade importa. Com mais LGBTs assumidos nos espaços de controle ai sim, avançaremos rápido na conquista de cidades e de um país sem homofobia.

Como avalia a gestão municipal do prefeito Eduardo Paes no que diz respeito a políticas voltadas para LGBTs?

A crítica pela critica, oportunista, não me agrada. Não compactuo com a idéia de que apenas por ser de pré-candidato a vereador pelo Rio de Janeiro eu tenha que fingir que nada está bom ou nada foi feito. Não tenho feito isso e não farei. Na cidade do Rio temos visto que as ações municipais têm tido uma continuidade de crescimento. A Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS) tem tido um papel importante na conquista e consolidação de uma visibilidade midiática que, é sim, importantíssima na disputa do imaginário social sobre a homossexualidade ou transsexualidade. Por conta de sua ligação com diversos profissionais da TV a CEDS tem conseguido importantes parcerias com a, ainda, maior emissora de TV do país. Colocando sempre o tema LGBT em pauta e na maioria das vezes de forma positiva. Quando você pensa na audiência que a TV Globo tem na cidade e no modo como lidamos com os programas de TV, são inegáveis os avanços, apesar dos recuos pontuais. Algumas pessoas tentam esvaziar a importância desse trabalho. Não serei leviano em fazer isso. Contudo, a vida e o combate a LGBT-fobia não são feitos apenas de novelas e programas de TV. Eles são importantíssimos nesse processo, mas é preciso levar a prefeitura e seu posicionamento de valorização da diversidade sexual para além da Zona Sul e Centro. A cidade do Rio de Janeiro é dividida em quatro partes desiguais em relação à atenção geral do poder público: Barra da Tijuca; Leblon ao fim do Rebouças; do Rebouças até Deodoro e de Deodoro até Santa Cruz e adjacências. A CEDS, as portarias, a medidas municipais de combate a homofobia e transfobia não chegaram até Deodoro, Bento Ribeiro, quanto mais a Santa Cruz. Tenho ido muito à zona oeste, e lá, onde moram milhares de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, e muitos deles e delas não foram convidados para essa festa da visibilidade. Por que não temos um mínimo posto de representatividade da CEDS na zona oeste ou norte? Alguém que queira protocolar uma denúncia precisa pegar um trem cheio lá de Cosmos ou Ricardo de Albuquerque, depois o metrô e por fim um ônibus para finalmente chegar ao Palácio da Cidade, em Botafogo, para poder dizer que sofreu homofobia? Existe uma orientação de que as clínicas da família devam comunicar suspeitas de agressão homofóbica que cheguem aos seus conhecimentos. Isso tem sido feito? Onde estão essas informações que podem ajudar ao aperfeiçoamento das investigações dos casos de agressão? Teremos sempre que sermos agredidos do Porto Maravilha “para lá” para recebermos mais atenção? Nisso eu sou muito crítico à atual gestão. A atuação de CEDS é importante, mas ainda reflete sua equipe, e essa por sua vez, ainda, não reflete a complexidade e a diversidade do município do Rio de Janeiro. Mas podemos melhorar isso juntos.

Em seu artigo no site Gay1, você desconstrói a ideia de que Ipanema seja o epicentro LGBT da cidade. Na sua opinião, o que falta para levar dignidade, segurança e respeito aos LGBTs nas diferentes regiões da cidade?

Falta antes de qualquer coisa ver as pessoas verdadeiramente como iguais. Ainda separamos a importância das pessoas por castas. Castas raciais, socioeconômicas, etc. Não precisa ir muito longe. Basta dar uma volta na Central do Brasil. Por que aquela região é sempre deixada caótica, suja, depredada, perigosa, etc? Por que a massa de pessoas que passam ali todos os dias é composta de pessoas assalariadas, pobres e historicamente usadas como bases de enriquecimento de seus patrões. Nós ainda reproduzimos uma lógica colonialista e elitista, fetichizando lugares e pessoas que não necessariamente são acolhedores a nós. É o caso dessa exaltação hedonista da zona sul em detrimento do Bar do Hélio em Cascadura por exemplo. Citando outro exemplo: há décadas os gays lotam a Rua Farme do Amoedo [em Ipanema] no Carnaval, e todos os anos somos vítimas de agressões, assaltados, tentativas de homicídios na mesma rua durante os festejos. A polícia, quando vai, age com truculência, não para nos proteger, mas para nos dispersar, como se os errados fossemos nós de estarmos festejando em pleno Carnaval. Por outro lado, blocos e festas que acontecem nas ruas próximas, embora também tenham problemas pontuais de segurança, são, sim, mais protegidos e regulamentados pelo poder público. Parece besteira falar de Carnaval, mas é um sintoma de como a comunidade LGBT é vista de modo utilitário. Quando interessa à cidade batemos no peito e nos afirmamos como principal emissor e receptor de turistas LGBTs do mundo (isso é ótimo), mas quando não interessamos ao interesse midiático somos relegados a própria sorte. Muitos agentes do poder público ainda vêem a comunidade LGBT como um estorvo. É preciso que todos nós sejamos vistos como uma parte efetiva da cidade e que deve ser respeitada e valorizada. Essa valorização se mostra benéfica não apenas aos LGBTs, mas a toda população. A riqueza dessa cidade é sua pluralidade. Mas isso precisa se refletir em atos concretos.

Quais projetos devem ser priorizados em seu eventual mandato?

Fiquei na dúvida se deveria responder, pois tenho certeza que seremos descaradamente copiados. Aliais já estou sendo, digamos, “clonado” por ventrílocos por ai [risos]. Mas vamos lá. De modo bem objetivo na questão LGBT, entendo ser urgente pressionar para que prefeitura amplie os canais de atendimento e recebimento de denúncias de homofobia por parte da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual — CEDS; (2) fiscalização rigorosa do cumprimento da resolução que obriga os agentes públicos de saúde municipal a reportarem casos de agressão homofóbica que cheguem aos hospitais municipais e clinicas da família; (3) articularei e apoiarei a implantação da CEDS zona oeste; (4) apoio à aprovação de medidas legislativas municipais de ações nas escolas no combate ao bullying homofóbico, com capacitações aos profissionais de ensino; (5) elaboração de relatórios transparentes público periódicos que mostrem o que vem sendo feito de maneira concreta em relação a temática pela prefeitura do Rio de Janeiro; (6) trabalho em conjunto com os organizadores das paradas do orgulho LGBT para que essas sejam de fato um momento de conscientização social da população sobre a diversidade, fazendo com que a festa também seja um momento de fortalecimento da cidadania; (7) me empenharei pela ampliação urgente da atuação dos agentes municipais de saúde como instrumentos de prevenção DST/HIV, com foco na juventude gay, que vem sendo uma das grandes vítimas e epidemia; (8) defenderei dotação orçamentária para Ampliação das campanhas municipais de mídia de combate as discriminações; (9) defendo a ampliação do Projeto Damas, levando o mesmo e sua estrutura para a Zona Oeste; (10) fiscalização da efetivação do Programa de Atenção Integral à Saúde da População de Transexuais e Travestis, com a produção de relatórios públicos periódicos e disponíveis e a toda população, entre outros.

Por que a escolha pelo PSB?

Recebi convite de vários partidos para levar meu conhecimento e experiência assessorando campanhas nessas eleições. Até para um possível cargo no governo interino eu fui sondado. Mas o PSB me convidou para ser o candidato. Viram em mim um potencial. Achei isso emblemático. Não estão interessados apenas em ter um candidato LGBT como figuração, nem com o objetivo de obter voto de legenda. Alguns partidos, de todos os espectros políticos, colocam quatro ou cinco candidatos LGBTs na mesma cidade para que eles/elas fiquem se digladiando uns contra os outros, tragam votos de legenda e no final nenhum se elege. Ou para constrangê-los a abrirem mão de suas candidaturas. Decidi pelo PSB por que vi ali um interesse em acumular não apenas um debate sobre o tema na cidade, mas para servir de contraponto equilibrado. É um partido de centro-esquerda. A mim o que interessa são os avanços, as conquistas sociais concretas, me interessam as soluções que tenham impacto prático e real na vida das pessoas e não apenas a simples gestão do discurso. Além disso, o PSB é o partido que entrou com a ação que está no STF procurando derrubar a portaria da ANVISA que ainda proíbe homossexuais de doarem sangue. Como é possível em 2016 ainda termos desculpas para impedir a doação de sangue gente? Isso é um absurdo. Toda a fundamentação dessa proibição não faz mais nenhum sentido nos dias de hoje. É o eterno reforço da associação perversa entre homossexualidade e doença. Isso é inaceitável. Como alguém que já trabalhou diversas vezes em articulações para que partidos pudessem apoiar os direitos da comunidade LGBT, sei perfeitamente que qualquer outro partido poderia ter ingressado com essa ação nos últimos 10 anos. Mas nenhum se interessou em fazer. O PSB fez. Por isso eu aceitei me somar nessa luta. Doação de sangue é vida e nós podemos ampliar isso.

Empoderamento LGBT

Este espaço é dedicado a destacar a participação política de LGBTs. Fique à vontade para enviar sugestões de pauta!

Danilo Motta

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O terror da concorrência || jornalistadmotta@gmail.com

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