Eleições e empoderamento LGBT: Ivone Pita (50.005)

Há algum tempo, Ivone Pita já causa do Twitter com a campanha irônica #VemSerSapatão. Agora, ela pretende causar na Câmara de Vereadores do Rio. Ela é candidata a uma vaga pelo PSOL. Veja o nosso papo:

Qual a importância de termos LGBTs no legislativo?

Estarmos dentro de onde se discutem e se formulam as leis. Dentro da política institucionalizada, para fazermos contraponto a quem nos quer cercear direitos e nos aprisionar, invisibilizando e silenciando nossas identidades, nossos desejos e nossos afetos. Para que possamos lutar por leis que nos garantam proteção frente às discriminações, e por serviços que atendam às nossas demandas, como questões de educação, trabalho, saúde e acolhimento. E pela importância da representatividade. É importante estarmos em todos os espaços, ocuparmos, dizermos que existimos. É fundamental dizermos a nossos pares que podemos estar onde quisermos. E isso vale também para mulheres, pois não separo meu ativismo LGBT da minha militância feminista. Sou mulher feminista e lésbica, e isso é indissociável. Mulheres precisam estar na política e representar a si mesmas, sem intermediários, sem pessoas que tratem nossas demandas como secundárias. Precisamos ser nós mesmas, que vivenciamos o machismo, e tudo que isso representa, todos os dias.

Como avalia a atual gestão municipal, sob o comando do prefeito Eduardo Paes, em relação a políticas públicas para LGBTs?

Há algumas ações promovidas pela prefeitura ligadas à punição de discriminação e em relação à educação segmentada. Ou seja, o primeiro não dá conta do combate que precisamos implantar, pois não são eficazes apenas ações punitivistas, é preciso também educar e não somente através de campanhas sazonais, temporárias, como se tem feito, mas durante todo o ano, durante todo o tempo, em todos os espaços possíveis. É preciso promover uma mudança de mentalidade, uma mudança na forma de olhar e entender a outra pessoa e o seu direito como cidadã.

A Câmara Municipal do Rio é predominantemente masculina — há apenas seis mulheres atualmente. A que você atribui este fato?

Atribuo à cultura de termos majoritariamente homens em postos de comando e ocupando lugares que por muito tempo pertenceram somente a eles, o que faz com que mesmo de forma inconsciente sejam reconhecidos como os mais legítimos a assumirem determinadas posições. E pelo machismo estrutural que segrega e afasta a nós mulheres de posições sociais estratégicas. Mas nós mulheres temos lutado muito para superar essas barreiras e vamos efetivamente mudar esse quadro.

O Rio tem algumas leis municipais voltadas para LGBTs — como a Lei 2475/96, que coíbe discriminação por orientação sexual em estabelecimentos comerciais e repartições públicas. O que mais falta a Câmara implementar?

Faltam programas de conscientização específicos para diversos segmentos sociais. Programas que falem à comunidade, a pais, a professores e a todos os envolvidos no sistema educacional. Programas que abordem questões relacionadas à saúde, que tratem do que atinge cada segmento da população LGBT e que, do outro lado, sensibilize os profissionais da área de saúde.

Quais serão suas prioridades em um eventual mandato?

Eu sou mulher, sou lésbica, feminista, professora, protetora dos animais, pessoa que sofre com um sistema de transporte caro e ruim. Que vê o sofrimento de se contar com o sistema público de saúde. Há alguns anos, por exemplo, mais uma vez precisei contar com hospital público para longo tratamento de familiar e mais uma vez vi de perto sua precariedade. Minhas preocupações, portanto, são as mulheres, os LGBTs, os animais, a saúde, o transporte, a educação. É muito, eu sei, e nem falei do caos da moradia, da acessibilidade, do saneamento e tantos outros problemas, mas é que o Rio de Janeiro precisa ser todo refeito, não no sentido higienista e ainda mais segredador, mas numa perspectiva igualitária e inclusiva. E, por isso mesmo, precisamos não apenas eleger mulheres, mas mulheres feministas, progressistas, gente comprometida com o rompimento do que temos tido até aqui e que tenham compromisso com as minorias e todos os que vivem sendo empurrados à margem da sociedade.

Você foi candidata à deputada estadual nas eleições de 2014 pelo mesmo partido. Qual aprendizado fica daquela campanha que você pode aproveitar nesta?

Que precisamos muito ainda falar sobre representatividade. Precisamos explicar, falar da importância de elegermos pessoas que realmente representem as causas em que acreditamos, não somente em seus discursos, mas em suas práticas. Que é preciso chamar e convencer pessoas que sempre estiveram à margem, pois nós também podemos. Que é difícil demais vencer o poder da grana e que, por isso mesmo, é preciso que grupos ativistas abarquem campanhas, se reúnam em torno dos representantes que escolherem, lhes proporcionando encontros, caminhos, condições para se expandirem ou sempre seremos derrotados. Que é um processo solitário, que requer coragem, pela exposição e com ela o aumento dos ataques, das tentativas de desqualificação. O que torna ainda mais importante que haja sempre apoio explícito e forte aos candidatos que representam grupos marginalizados. Que precisamos nos manter em rede, fortalecendo a nós e a nossos elos, nos apoiando. Precisamos eleger os nossos. As nossas! Gostaria de concluir convocando todas as pessoas que querem mudanças e de fato serem representadas para abraçarem as campanhas das candidaturas nas quais confiam. Eleição não se dá por desejo, não acontece por geração espontânea. Se não apoiarmos e não lutarmos por quem queremos ver na Câmara, vencem os mesmos de sempre, os que tem conchavos, o poder da grana. Se você deseja ver uma mulher feminista na Câmara, é essa campanha que você deve abraçar. Se você deseja ver uma lésbica, então, essa é sua campanha, e assim por diante. Não há sentido em querer uma representatividade e trabalhar por outra ou apenas não fazer coisa alguma e se queixar depois. Vamos à luta. Não se deixe vencer. Não se deixe desanimar. Não desista da sua ação transformadora. Não abra mão da sua força.