Os 6 Grandes Desafios dos Escritores Em 2017

Alguns escritores, talvez, sequer saibam que os têm. No artigo, eu listo e comento cada um desses desafios, com base na experiência de escrever um livro inteiramente no Medium em Português.

(Este é um artigo “vivo”, uma “história em desenvolvimento”, e poderá ser atualizado durante o processo de escrita do livro Encantados!)

O melhor dos tempos, o pior dos tempos, a idade da sabedoria e da tolice, da fé e da incredulidade, da luz e das trevas, da esperança e do desespero, tínhamos tudo diante de nós, e ao mesmo tempo nada…

É mais ou menos assim, que o escritor inglês Charles Dickens (1812–1870) inicia o verdadeiro “tsunami” de “Uma história em duas cidades” (“A Tale of Two Cities”), de 1859, um romance histórico clássico, cuja trama é centrada nas paixões humanas e em especial nos temas da culpa, da vergonha e do resgate.

Quando eu decidi começar o projeto Encantados! — um livro que eu estou escrevendo atualmente, on-line, na plataforma Medium em Português — , eu não tinha a menor ideia dos desafios (as paixões, as culpas, as vergonhas, os resgates) que enfrentaria.

Aqui faz-se necessária uma explicação: muitos dos escritores contemporâneos, que vivem e produzem suas narrativas em 2017, também passam por essas dúvidas, diariamente. Muitos desses escritores, ao iniciarem seus projetos, também não fazem a mínima ideia do que lhes espera. Mesmo os escritores mais experientes.

Eu digo isso em relação aos escritores conscientes de que o mercado editorial mudou e que os leitores mudaram também (mesmo que ainda não tenham a menor ideia dos desafios complexos que enfrentarão).

Os que ainda não perceberam essas mudanças, bem, talvez esses sejam até mais felizes (apesar do imenso meteorito que vem em sua direção, prestes a destruí-los).

Caberia, repetir para eles, nesse momento, aquele velho adágio: “a ignorância é mesmo uma benção”? Talvez, mas quero lhes proporcionar o benefício da dúvida (e da salvação): mesmo eles, os escritores “ingênuos”, presos a um falso passado, onde tudo funcionava maravilhosamente bem, de uma forma ou de outra, eles também estão começando a perceber que as coisas não vão nada bem no mercado editorial.


A transitoriedade dos livros

Foi por volta de 1439, que Johannes Gutenberg (1398–1468) revolucionou a imprensa — hoje, sabemos que ele foi o segundo a usar a impressão por tipos móveis, após o chinês Bi Sheng (990–1051) no ano de 1040. Naquele momento, é pouco provável que o alemão soubesse que também estava criando um “personagem” fundamental do mercado editorial (e de outros mercados que viriam depois): o “público”.

Com o aumento da produção de livros, aumentava também o número de leitores, a circulação de ideias, criava-se, enfim, um mercado potencial e tudo o que veio depois: o livro como produto, a figura do autor, etc.

Agora, vamos dar um salto para 2017.

Vivemos uma outra revolução. A internet e as redes sociais também estão criando algo, só que não sabemos ainda exatamente o que é esse algo, mas é nítido, que impactará a forma como contamos (e lemos) histórias.

Também é correto observar que esse novo mundo digital e distribuído nos obriga a repensar o livro (conceito e formato) como dispositivo de disseminação de ideias e discursos, além de plataforma de entretenimento.

Vivemos uma era de sobrecarga de informações. O que lemos nos jornais pela manhã, já é obsoleto. Com os livros começa a acontecer o mesmo. É cada vez mais inegável o problema da “transitoriedade dos livros” que, já na década de 1970, o escritor americano Alvin Toffler (1928–2016) antecipava.

O problema já não é mais o acesso à informação, mas a sua filtragem. Ou seja, o problema é fazer a pergunta certa a um imenso banco de dados de informações à nossa disposição diariamente, em todos os lugares.

Até bem recentemente, o autor pensava apenas na distribuição de suas obras a partir do dispositivo “livro”. Hoje, a coisa mudou, porque o próprio conceito de livro está mudando.

Quando o sociólogo canadense Marshall McLuhan (1911–1980) propôs que o meio é a mensagem, ele quis mostrar que o meio é um elemento importante da comunicação e não apenas um canal de passagem ou um veículo de transmissão. O meio influencia a mensagem.

Não temos dúvida portanto de que o meio ao qual estamos expostos hoje (como escritores e como leitores), mudou. Mudará também a forma como contaremos histórias? A pergunta não é fácil de ser respondida e traz, direta ou indiretamente, uma série de desafios em sua “bagagem”.

A seguir, eu quero listar 6 grandes desafios com os quais tenho lidado, diariamente, no processo de criação de Encantados!


Os 6 grandes desafios dos escritores em 2017:

  1. A (necessária) redefinição do conceito de livro
  2. O diálogo fluente com as comunidades de leitores
  3. A escolha da plataforma editorial (digital)
  4. O tempo escasso (e a pressa) dos leitores (escassos e apressados)
  5. O estabelecimento de uma estrutura narrativa mais flexível
  6. Proporcionar ao leitor uma experiência de leitura desafiante

A seguir, eu quero tratar desses desafios, cada um deles complexo por natureza, em detalhes.

Não tenho a pretensão de esgotá-los.


A propósito, esse artigo permanecerá “aberto” e à medida que eu for descobrindo outros desafios e inquietações, eu os incluirei aqui, até o momento em que eu considerar o livro (não os desafios) “vencido”.

1. A (obrigatória) redefinição do conceito de livro (ou o “livro de Gutenberg” versus o “livro da internet”)

O escritor contemporâneo deve entender que seu livro não mais um único livro, ele é um e vários livros ao mesmo tempo. São várias as plataformas onde o seu livro poderá ser lido.

O “livro de Gutenberg”, impresso, é bidimensional (2D), é um livro escrito no plano (da Matemática). Os escritores que escrevem “livros de Gutenberg”, terão à sua frente apenas uma folha (ou tela) em branco e é isso que vai nortear tudo o que vem a partir daí. Essa característica bidimensional do “meio”, certamente, terá impacto sobre suas ideias.

Por sua vez, o “livro da internet” é tridimensional (3D), porque além do plano (2D), incorpora os hiperlinks, essa ligação direta entre as páginas que o constituem. E isso muda tudo, inclusive a forma como pensamos e narramos nossas histórias (vários inícios e finais, o escritor escolhe o caminho a percorrer).

Não são poucos os desafios do escritor contemporâneo. Em Encantados! (digo, durante o seu processo de escrita) eu quero refletir sobre alguns deles. Quero também tentar entender como as plataformas editorais digitais (o Medium, em especial) podem oferecer condições melhores para produzirmos nossas obras.

Eu não tenho dúvidas de que a tecnologia é aliada dos escritores. Ela pode nos ajudar no enfrentamento diário dos diversos desafios da criação literária e também a encontrar alternativas.

2. Escolha do tema, identificação da comunidade de leitores adequada e a necessária manutenção de diálogo com ela

Encantados! é um livro diferente. Um livro escrito tendo em mente esses novos desafios. Em sua estrutura mais “perceptível”, Encantados! é uma trilogia que trata de aspectos curiosos das vidas e das mortes (inusitadas) de alguns dos mais populares autores clássicos brasileiros.

No primeiro volume, navegamos pelas biografias de Lima Barreto, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Raul Pompeia, Gonçalves Dias e Aluísio Azevedo.

Mas, Encantados! também é um livro pensado para ser integrado às redes sociais e as suas características de plataforma de leitura. Isso, no meu entender, é aspecto fundamental nos dias de hoje.

Ainda sabemos pouco do potencial das redes sociais, mas já sabemos algo sobre o que estimula e influencia a leitura nesses ambientes que, tendem, cada vez mais a se constituírem em verdadeiras “comunidades de leitores”.

3. Selecionando a sua plataforma editorial

O bom profissional também é reconhecido pela excelência da ferramenta que ele usa.

Quando eu me decidi a usar o Medium em Português para escrever, projetar e distribuir a versão beta de Encantados!, eu já havia identificado que essa plataforma editorial digital possui diversos recursos que se adaptam bastante bem às necessidades dos escritores, editores e leitores contemporâneos.

Para um livro como Encantados!, a flexibilidade oferecida pelo Medium cai como uma luva.

Os artigos são independentes entre si, mas podem ser agrupados, agregados, de diversas formas, seja a partir de uma “Publicação”, seja a partir das tags (há outras formas).

A interface “limpa” do Medium, com poucos “elementos de distração”, também é uma característica digna de menção.

É justamente por essas características que o Medium (a plataforma, o “meio”, a “ferramenta”) tem me ajudado na criação da “mensagem” (o livro, a narrativa).

The Medium is the Message.

Encantados! é projetado para ser um livro que admite várias sessões de “leituras” (isoladas) e diversos “tipos de leitura”.

O livro é composto de vários “blocos de texto”, cada qual associado a uma categoria.

A leitura do livro poderá ser feita pelo menos de 3 formas (digo isso, do ponto de vista do autor. O leitor, claro, é sempre livre e incentivado a escolher e inventar outras):

  1. A partir de qualquer uma dessas categorias, sendo as principais: “Feed de Notícias”, “Atualização de Estado”, “Biografias”; e as secundárias: “Folclorismos”, “Encanteria”, “Memento Mori”, “Cartografias”, “Fotografias”, etc.
  2. A partir de qualquer um dos autores de sua preferência.
  3. Uma leitura linear tradicional, da primeira à última página (segundo o índice proposto pelo autor na publicação no Medium, ou, futuramente, no livro impresso e no livro digital.

4. Lidando com os leitores contemporâneos, cada vez mais apressados (e escassos)

Tempo é dinheiro. O tempo do leitor (esse bravo e corajoso leitor) anda cada vez mais escasso. Ainda mais no Brasil.

Pouco tempo se consegue reservar para o prazer da leitura nesse mundo tão atribulado e cheio de compromissos e distrações de hoje. Tudo parece requerer nossa atenção.

Por isso, eu pensei em incluir um recurso que permitisse ao leitor de Encantados! selecionar um “bloco” (trecho do livro) pelo tempo que seja necessário para a sua leitura (e que possa ser bem encaixado no tempo que o leitor tenha disponível para leitura).

Há blocos que podem ser lidos em até 2 minutos e outros que exigem até 4 minutos de leitura, por exemplo. É importante manter essas “unidades de informação” breves, sem detrimento da fluência de leitura.

Esse já será um grande desafio em si para o escritor contemporâneo.

O Medium oferece o recurso embutido de “tempo de leitura” para cada um dos artigos publicados na plataforma. Monitore e usufrua desse recurso. Esse tempo de leitura orientará seu leitor na escolha de qual artigo ler e quando lê-lo.

(Em Encantados!, esses “tempos de leitura”, por bloco, serão sempre breves, para que uma determinada ideia, conceito ou informação seja absorvida completamente pelo leitor, podendo deixar os outros blocos para uma outra oportunidade.)

Quando o livro estiver completo, eu também vou informar o tempo médio de leitura do livro completo. Essa informação, é importante para que o leitor possa planejar sua leitura. Lembrando: toda leitura é um projeto e deve ser planejada.

Por isso, o conceito de “blocos de texto” é fundamental no contexto de Encantados!

Mas, afinal de contas, que blocos são esses?

5. Estabelecimento de uma estrutura narrativa mais flexível: o conceito de “blocos de texto”

Os blocos de texto (no contexto de Encantados!) são pequenos artigos, muito breves, classificados por sua função dentro do livro. As estruturas que eles formam são flexíveis permitindo, como já disse, diversos tipos de leituras.

Os rótulos desses blocos (seus títulos) funcionam como metadados indicando um dado importante para a sua leitura. Cada bloco possui uma função bem definida na construção da narrativa.

A narrativa, por si só, me exigiria um outro artigo só para discuti-la (e eu vou escrevê-lo, mas futuramente), porque o leitor de hoje, mais exigente, não está interessado apenas na história contada, mas também na “história por detrás da história”.

Por hora, antecipo apenas que, pensando nisso, eu criei uma categoria de blocos intitulado “Atualização de estado”. Esses blocos funcionarão como uma espécie de “confessionário” do autor, o seu “fluxo de consciência”.

A seguir, eu listo cada um dos blocos e suas respectivas funções:

  • Biografias: esses blocos apresentam detalhes sobre as biografias dos autores. Podemos chamá-lo de o “sumo” da narrativa.
  • Atualização de estado: são meus comentários sobre o processo de escrita do livro.
  • Feed de notícias: é uma tentativa de imersão na época histórica em que o ponto da narrativa estiver focados naquele momento.
  • Como o menu do Medium limita o número de opções em 7, eu englobarei os blocos restantes na opção “Outras”, que listará as categorias secundárias, como “Folclorismos”, “Cartografia”, “Fotografias”, etc.

E o último (por enquanto) desafio é…

6. Como proporcionar ao leitor exigente dos dias de hoje uma experiência de leitura que o desafie?

Este talvez seja o maior dos desafios daqui para a frente. O leitor é cada vez mais exigente e livre para escolher seguir com uma leitura ou abandoná-la a qualquer momento, à medida que não se considere “desafiado”.

O leitor de Encantados! poderá escolher ler os blocos individuais, agrupados por categoria, ou a minha sugestão de sequenciamento desses blocos. Poderá também, esse leitor, escolher se mantém seu foco sobre a biografia de um determinado autor.

Neste “primeiro volume” da trilogia, eu tratarei dos seguinte autores:

  • Lima Barreto
  • Guimarães Rosa
  • Clarice Lispector
  • Raul Pompeia
  • Gonçalves Dias
  • Aluísio Azevedo.

Nos próximos volumes tratarei de outros, como Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, entre outros.

Todos esses autores tiveram vidas e mortes curiosas. Creio que o leitor se surpreenderá ao perceber que pouco sabe sobre suas biografias. E se divertira também, espero, com o “game” que eu quero lhe propor.

Sejam bem-vindos, portanto, ao mundo de Encantados!

Espero que os leitores se divirtam lendo esse livro, da mesma forma que eu tenho me divertido escrevendo-o.

Um forte abraço,

C.S. Soares
Tijuca, 24/2/2017

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