Crônicas de um pré-natal (1)

Reflexões de uma mãe de primeira viagem.

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Olho ao redor. As paredes verde claro com azulejos brancos transparecem a frieza do lugar. Cadeiras azuis meio rasgadas, com faixas listradas interditando algumas delas, não impedem que diversas gestantes se aglomerem, com seus filhos pequenos correndo pelo corredor enquanto elas debatem calorosamente quem teve o pior primeiro parto.

Sempre tive sentimentos mistos em relação a hospitais. Não posso dizer que os odeio; talvez por ter passado grande parte da minha infância entre salas de espera e internação, acho que acabei desenvolvendo uma espécie de fascinação meio mórbida por eles. Quando entro num hospital, é como se estivesse entrando num universo paralelo, cheio de pessoas apressadas vestindo branco e segurando pranchetas, sons de bipe e cheiro de álcool.

Tenho andado por diferentes hospitais nos últimos meses, em virtude do meu pré-natal de alto risco. Talvez deva agradecer esse fato especialmente à família da minha mãe, que me presenteou com uma incrível genética propensa a pressão alta. Então cá estou eu, sentada na cadeira azul meio rasgada, esperando minha vez de ser atendida pela nova médica (porque troquei tantas vezes de médico em sete meses é uma história para outro dia).

Estar grávida é a experiência mais incrível, mais estranha, mais confusa de toda a minha vida. Tenho a sensação de que esses sete meses passaram voando e ao mesmo tempo se arrastaram. O nascimento paira no horizonte como um barquinho a deriva; hora parece estar mais perto, hora mais longe.

É como estar vivendo num sonho; tudo acontece tão rápido e ao mesmo tempo tão profundamente que não parece real. As mudanças no corpo, na mente, a preocupação crescente com enxoval, com questões logísticas da organização da casa, como conciliar com o trabalho, pessoas dando opinião, vai fazer chá de bebê? Vamos amiga, faz sim por favooor, como vai ser a convivência com os irmãos, como vai ser o parto — O PARTO — ainda não dá pra saber, moça, tem que ver a evolução da criança, se vai encaixar, se vai estar muito grande, se não vai ter circular de cordão, se sua pressão vai estar controlada, se vai ser dia par ou ímpar, se o céu vai estar limpo ou nublado…

Eu não sei se vou querer ter outro filho, mas tenho certeza que não vou sentir falta da experiência de estar grávida. Tiro o chapéu pra quem amou esse momento e morre de saudade da barriga, mas infelizmente eu não fui uma dessas sortudas. Não consegui suprir a expectativa da sociedade que diz que a mãe tem que amar cada momento da maternidade, tem que incorporar o arquétipo de mãe perfeita a partir do segundo em que descobre a gravidez.

É fantástico, sim, saber que minha filha está crescendo dentro de mim, que estou sendo veículo para que uma nova vida venha ao mundo, sentir ela mexendo, imaginar como vai ser seu rostinho; mas tudo isso acaba ficando um pouco enuviado por todas as milhares de outras questões que temos que dar conta em nove meses.

Continuo esperando ser chamada pela médica (já com uma leve dor na bunda provocada pela cadeira azul) e imagino como serão esses últimos três meses. Tento não sofrer por antecedência e aproveitar a parte boa, desejando que as próximas mulheres que passarem por essa sala de espera não se pressionem — ou não se sintam tão pressionadas — quanto eu.

Espero que tenham gostado do meu primeiro texto aqui no Encontro Literário :) Deixe suas palminhas e compartilhe com uma amiga que possa se identificar!

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Uma revista aberta para escritores de diferentes plataformas e redes sociais. Queremos reunir artistas e expressar o nosso sentir em conjunto, não existe encontro de um artista só. Revista Digital Encontro Literário é um ambiente de troca e de incentivo, um lugar de conforto.

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Letícia Arcanjo

Letícia Arcanjo

Bióloga por formação, escritora por paixão.