Educar para dentro: o papel da educação no autoconhecimento

"Compreender a vida é compreender a si mesmo, este é o princípio e o fim da educação." Jiddu Krishnamurti

É curioso como as raízes das palavras carregam também raízes de reflexões importantes sobre seu campo. Conhecer a origem de uma palavra pode abrir a porta para desvendar seus conflitos mais profundos.

Recentemente, em meus estudos sobre o papel da educação, eu me vi curiosa em entender a origem da palavra "educar". Educar vem do latim educare, educere, formada pela união do prefixo ex — "fora" — e da palavra ducere — "conduzir" ou "levar". Ou seja, educar é conduzir para fora, preparar para o mundo e para a vida. Ampliar nossos olhares para além de nosso núcleo familiar.

Entender este significado foi um momento de Eureka! para mim, como se ali estivesse a origem de um incômodo que eu carrego em relação ao papel exercido pela educação contemporânea, mas que até então não havia conseguido conceituar. Foi então que percebi que meu incômodo não estava necessariamente no sistema de educação atual, mas talvez na própria concepção de educação e em sua função social.

É possível conduzir para fora sem conduzir para dentro? É possível apresentar a diversidade do mundo para as crianças sem apresentar a diversidade de seu universo interior? Como conduzir alguém para "fora" sem antes estar plenamente presente "dentro"? O que é fora e o que é dentro?

Estas questões podem parecer etéreas, mas penso que são reflexões essenciais se quisermos repensar o papel e o modelo da educação hoje. Tenho refletido que nestas questões moram os principais conflitos e desafios atuais da educação básica.

A escola tem como função social preparar as novas gerações para o mundo e para a vida, e que bom que temos a alternativa de um espaço como este. Mas o que é a nossa vida se não fruto de nossas experiências? De nossa atitude perante os fatos que se desencadeiam ao longo do tempo? De nossas relações com os encontros que temos no caminho? De nossas emoções, sensações, intuições e pensamentos? É nessa constante interação entre "dentro" e "fora" que a vida se dá.

Considerando que nossas experiências externas são frutos de nossa realidade interior, é essencial que o espaço escolar permita aos alunos o conhecimento de seu corpo, seus pensamentos e suas emoções, possibilitando assim o desenvolvimento integral do ser e a realização plena de seu potencial.

O sistema de educação contemporâneo, pautado em influências da era mecanicista industrial, em muitas situações é orientado para a formação para o trabalho e organizado de forma conteudista e padronizada. Este modelo não aborda o ser humano de forma integral, desconsidera a diversidade e unicidade de cada criança e gera conflitos internos, problemas de aprendizagem, distúrbios emocionais e stress nas crianças e adolescentes. Estes padrões mentais, físicos e emocionais desenvolvidos na infância serão carregados para toda a vida, gerando desafios futuros para o equilíbrio e felicidade destes alunos.

Muitos sábios que passaram pela história da humanidade, de Sócrates a Buda, afirmaram a importância de conhecer a si mesmo como primeiro e único passo para a compreensão do universo e da vida. É preciso refletir qual o papel da educação e da escola nesse processo. É possível facilitar o processo de auto-conhecimento dos alunos, desde o começo de sua vida?

Eu acredito que sim, não só possível como necessário! Me inspiro no trabalho e nos estudos de milhares de pessoas que já estão propondo e executando novas alternativas na educação que valorizem também o olhar interno, o desenvolvimento integral dos alunos, as habilidades socioemocionais, o auto-conhecimento e a espiritualidade.

Me coloquei o desafio de aprofundar os estudos e mapear referências inspiradoras do processo de “educar para dentro” nos próximos meses. Para não fazer isso sozinha, criei essa publicação (medium.com/enducar), onde compartilharei minhas descobertas ao longo do caminho, com a expectativa que coletivamente a gente possa discutir e ampliar nossos olhares.

Vamos juntos? Com um olho dentro e o outro fora, sempre. ;)

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