“É o desejo de regressar à ilha que me faz andar, que me faz viver.”

O testemunho da Maria — uma jovem micaelense que saiu do seu refúgio para seguir um sonho

O meu nome é Maria, tenho 23 anos e sou estudante universitária. De certa forma sou igual a tantos outros espalhados pelo mundo, mas há um pequeno pormenor, que faz uma grande diferença, e me distingue. Eu sou de São Miguel, Açores, um pequeno paraíso escondido no meio do atlântico.

Para mim voar para longe de casa foi complicado. Como se abandona, de livre vontade e bom grado, este pequeno cantinho de céu? Verdade seja dita, que não tinha outra opção, o meu grande sonho sempre foi estudar arquitetura e, para isso, a solução sempre passou por vir para Lisboa fazê-lo. De certa forma, acho que não tinha sucedido tão bem cá fora, se não viesse de onde venho. É a bagagem que trazemos. Somos criados de outra forma, e por isso, vemos o mundo de outra forma. É o que nos ajuda a sobreviver.

“O micaelense é aquele que tem o sal a correr nas veias, sente a areia preta a queimar nas solas dos pés e sempre que precisa de fugir, fecha os olhos e voa alto nas asas de um milhafre.”

É esse o truque. Esses pequenos refúgios. Mas, como se costuma dizer, o melhor de estar fora é sempre regressar a casa. Sabe tão bem regressar a casa. Poder ir ouvir o mar a bater nas rochas negras, e passear no meio de verde e vacas. Poder ir ouvir o silêncio para o pé das lagoas, e depois ir para uma tasquinha barulhenta conversar com um senhor, sobre como o tempo está a virar (sim, o mito das quatros estações num dia, é verdadeiro). Não há melhor terapia. Voltar para a família, para os amigos, para os vizinhos e para os nossos hábitos. Não há nada como a nossa casa, é verdade.

O que também é verdade é que São Miguel é bonito por ser de tão pura Natureza, por estar quase intacto e recheado do mais verde que podemos ver.

Lagoa de São Brás— São Miguel, Açores

O Homem é apenas um passageiro neste enorme ecossistema, e por isso, a sua pegada é pequena, o que implica que na minha e muitas outras profissões, não é o sítio ideal para se começar. É demasiado “pequeno”, como se diz no falar coloquial. É a triste realidade que enfrentamos nos dias de hoje, mas é também o propulsionador para outra aventura que tenho a certeza que só pode correr bem. E que se torna mais fácil quando sei que terei sempre o meu cantinho guardado nesta ilha que está para sempre marcada no meu coração. É o desejo de regressar à ilha que me faz andar, que me faz viver. E sei que, mesmo que o meu regresso definitivo não esteja próximo, o meu ultimo desejo será regressar a casa, e terminar esta bela vida, no mesmo sítio onde ela começou: naquele pedacinho de sonho, quase utópico, e passar os meus dias envolta de natureza e a retribuir tudo o que aprendi quando vivi em São Miguel.

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