Ancestralidade e modernidade: apontamentos do “ser negro” e a luta revolucionária
Vivemos hoje certamente dias intranquilos, onde vemos o cerceamento de direitos da classe trabalhadora, direitos das juventudes, das mulheres, de estudantes e de outros vários setores da população brasileira, onde ficariam incontáveis e intermináveis parágrafos na busca de listar todos eles. Enfatizo portanto, a população negra em todos esses setores. Criou-se no advento da modernização da vida, uma grande lacuna, dentro dos movimentos, dos partidos e dentro até mesmo da vida cotidiana da população negra subalternizada nas periferias, e em vários locais das grandes e modernas cidades, bem como os interiores do Brasil.
Essa lacuna, se refere à ancestralidade, ao pertencimento afro-diaspórico, ou mesmo o sentimento de coletivização da população negra. Estes não se conhecem mais, a modernização da vida cotidiana, banalizou as relações afro-ancestrais que são nítidas e perceptíveis mesmo dentro da modernidade. A filosofia da ancestralidade, tornou-se portanto, um mero acúmulo acadêmico. Essa banalização nos afasta do sentimento coletivo, e da própria organização.
Segundo Kouyaté, “A coisa mais difícil é o conhecimento de si próprio”. Isso se torna tão evidente, quanto às relações revolucionárias, que insistem em nos distanciar do desejo e luta por uma sociedade igualitária. Elas nos afastam das lideranças partidárias (quantos partidos possuem um/a presidente/a negro/a?), das lideranças sindicais (quantas/os sindicatos possuem presidentes negros/as?) etc. Se avaliarmos bem, até mesmo nossas referências insistem em nos excluir de uma história revolucionária. Quantos lembram ou se quer conheceram a “Revolução Haitiana”, onde negros/as quase no mesmo período que a Revolução Francesa, conquistaram sua liberdade e autonomia no Haiti. Quantos conhecem as revoluções africanas, as sociedades matriarcais africanas, que são revolucionárias em sua própria gênese?
A ancestralidade, a busca por um “eu histórico no passado”, vivido no presente, para se construir um futuro (Sankofa). Se tornou motivo de piadas, e ironias. Muitas/os novas/os teóricas/os buscam reacender essa chama ancestral revolucionária, mas, quase sempre se encontram o lugar de marginalização e de negação do direito à ancestralidade e ao pertencimento dentro de uma acadêmia branca, dentro de uma sociedade ideologicamente branca, mesmo que sejam elas (no caso do Brasil), majoritariamente negra. E dentro também de organizações, partidos e movimentos brancos.
A liberdade de Rafael Braga, simboliza portanto, a não mobilização de muitos movimentos porque esses não percebem, e não se fazem querer perceber, a importância da juventude negra para a revolução que tanto almejamos. Mas ressalto aqui, o que Florestan Fernandes já havia dito, o negro numa sociedade de classes nada importa, porque ele não é aceito nesta. E as palavras de Ângela Davis que coloca a população negra como central na revolução, é primordial para essa análise. Sejamos nós negras/os LGBT o centro dessa revolução, vamos nos fazer escutar a nossa própria ancestralidade, para nesse mundo moderno podermos nos sentir um. Porque eu sou, por meio de meus/minhas irmãs/os. UBUNTU!
“Viver sem história é ser uma ruína ou trazer consigo as raízes de outros… É aceitar, na maré da evolução humana, o papel anônimo de plâncton, de protozoário […] (KI-ZERBO).
Paulo Henrique Ferreira, militante do Enegrecer Ceará
Estudante de Bacharelado em Humanidades/UNILAB
