Agulhas, cartas e benzeduras

Miguelina Moreira é muito popular no Vicentina, principalmente pelas atividades que faz


Moradora do Vicentina há 34 anos, Miguelina Moreira, 64, viu, de uma hora para outra, o espaço de área verde receber casas e uma nova vizinhança. Mas além de presenciar o crescimento do bairro, Miguelina pode também ver o futuro através das cartas. “Aprendi com uma tia minha”, conta ela, enquanto se dirige até a sala de sua casa, segurando uma mesinha branca dobrável, com o caminhar lento e cansado. Ela começa a abrir as cartas, uma a uma, contando o que elas dizem.

A cartomante também benze, costura, é amante de Fuscas e torcedora do Corinthians: “Troco a novela pelo futebol”, orgulha-se. “Muitas pessoas vão até ela para fazer reparos em roupas e pedir uma benzedura, principalmente mães que desejam abençoar seus filhos.” A cartomante, costureira e benzedeira deu à luz quatro crianças, mas hoje convive com três de seus filhos, dois homens e uma mulher. “Eu perdi um filho quando ele tinha só nove anos, e foi na véspera de Natal”, ela diz, parando para respirar e conter as lágrimas que lhe enchiam os olhos e molhavam o rosto.

Miguelina conhece quase todos os moradores. Entre uma pergunta e outra, um vizinho passa na rua e grita: “Oi, Dona Miguelina!”, enquanto outro já se sente em casa ao atravessar o portão. E o carinho dos vizinhos está sempre presente. “As meninas vêm aqui e fazem faxina pra mim de graça”, conta ela se referindo a duas de suas vizinhas.

VENDEDOR, AMIGO E DISPONÍVEL

A cartomante Miguelina e o comerciante Valdomiro são moradores do bairro há mais de 30 anos Créditos: Bruna Arndt

Andando alguns passos mais à frente da casa de Dona Miguelina é possível conhecer Valdomiro Gonçalves Ricardo, ou melhor Valdo, nome pelo qual a vizinhança o conhece. Ele tem 65 anos e mora com a companheira, Maria do Nascimento Ricardo, há 42 anos no Vicentina e há 27 anos eles têm um pequeno mercado que “está sempre aberto, entre as sete e as vinte e duas”, como ele mesmo fala. O casal simples é conhecido justamente por estarem “sempre abertos”, mas mesmo a amizade com a vizinhança não os deixou longe da criminalidade que maltrata o bairro. O comerciante conta, mostrando as grades que fecham as janelas e portas do mercadinho, que já foi assaltado pelo menos três vezes.

Assim como todo bairro tem os moradores mais “famosos”, o Vicentina também tem os seus, seja por serem donos do mercadinho ou por afastarem o mal com uma bênção e ver o futuro nas cartas, mas acima de tudo pelo carinho que têm com seus vizinhos. Dona Miguelina, por exemplo, além de suas várias “profissões”, é conhecida, principalmente, pela maneira como trata aqueles que vivem nas casas vizinhas. “Eu trato todo mundo bem”, conta ela com um sorriso.

Por Júlia Boeno