Créditos: Andressa Dornoles

Quando o amor não tem medidas

Histórias como a da família Oliveira mostram o caráter superador dos moradores do Vicentina

Lorenzo observa o movimento na vila, do lado de dentro do portão de casa. Sentado sozinho, o menino de 12 anos cumprimenta com alegria os vizinhos que passam pela residência. A mãe, Norma Oliveira, limpa a casa durante a folga do trabalho de programadora em uma empresa que produz roupas de chuva. O que muitos não percebem ao observar a rotina dos dois é a dura realidade enfrentada pela família: Lorenzo tem picos de autismo e foi diagnosticado com atraso mental.

De acordo com Norma, as dificuldades tiveram início quando, com apenas 23 anos, ela resolveu sair de Cruz Alta para procurar uma vida melhor em São Leopoldo. O filho mais velho, hoje com 19 anos, nasceu pouco tempo depois da mudança. “Eu era menina do interior, sempre fui muito inocente”, narrou. Sete anos depois nasceu Lorenzo, trazendo ao lar responsabilidades diferentes das que ela estava acostumada a ter. “Enquanto tu não tem a ferida, ela não te dói”, comentou, olhando com amor para o caçula.

O autismo, transtorno de desenvolvimento que geralmente aparece nos três primeiros anos de vida, compromete as habilidades de comunicação e interação social. Foi pelo atraso e dificuldade na fala que Norma percebeu que Lorenzo precisava de ajuda. “Corri por diversas cidades e profissionais, e foi muito difícil descobrir a doença, pois ele não aparenta muitos sintomas”, esclareceu a mãe. O menino, após receber a atenção de profissionais da fonoaudiologia, já apresentou melhora, mas ainda tem problemas na dicção e na formação de frases. “É normal ele conversar com os vizinhos, mas a maior parte do tempo ele passa quietinho, no cantinho dele”, completou.

Embora tenha passado por tempos ruins, Norma se alegra com o que já foi conquistado. “Hoje temos a nossa casa, ele faz tratamento, vai à escola e participa de aulas de natação”, comemorou a mãe. Mas Lorenzo, devido às suas condições, precisa frequentar uma instituição de ensino especial, localizada em um bairro mais distante. “Tive muito medo, pois já ouvi de alunos da escola da vizinhança que sofreram preconceito lá dentro. Ele não aprende no mesmo ritmo que as outras crianças, não queria que sofresse bullying”, explicou.

Atualmente, Lorenzo é estudante da Escola Estadual Especial Aracy de Paula Hofmann. Lá, segundo Norma, existem diversos alunos com Síndrome de Down e autismo completamente alfabetizados. Seu sonho é que o filho, que aprendeu a caminhar e andar de bicicleta com tanta facilidade, também tenha a possibilidade de desenvolver a escrita e a leitura como as outras crianças. “Tem coisas que ele ainda precisa de ajuda para fazer”, comentou. Mas a dedicação e o carinho são dados aos dois filhos da mesma forma. “Trato ele normalmente. Se precisar de umas chineladas eu dou, porque ele também tem que entender que tudo tem limite”, declarou a dona de casa, com ar de brincadeira.

Torcedor do Internacional, o filho mais novo adora futebol. Como presente de aniversário, em maio, quer um uniforme novo do time e uma festa com telemensagem. “E eu vou atrás. Qual mãe não faz tudo pelo filho?”, questionou Norma, que sempre deixou claro aos dois meninos que o mais importante na vida é seguir o caminho certo, longe das drogas e do crime. Ao mais velho, Norma deseja uma boa educação e um emprego digno. Para Lorenzo, sonha que as mesmas oportunidades sejam oferecidas, em um mundo conhecido por não aceitar as diferenças.

ONDE PROCURAR AJUDA:

ASSOCIAÇÃO MANTENEDORA PANDORGA

A Pandorga é uma associação beneficente que, desde 1999, propõe-se a auxiliar a sociedade na compreensão do autismo. A instituição promove cursos, oficinas e palestras sobre os diversos aspectos do distúrbio, além de contribuir para a formação de redes e apoiar a luta pelos direitos dos autistas.

A associação trabalha com crianças, adolescentes e jovens adultos com autismo grave, oferecendo assistência a eles e às suas famílias. A sede da Pandorga localiza-se na Rua Pedro Peres, 141, Bairro Rio Branco, em São Leopoldo, e pode ser contatada através do telefone (51) 3588–7799 ou do e-mail apandorga@ terra.com.br.

APAE SÃO LEOPOLDO

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de São Leopoldo também oferece assistência aos autistas. Os programas oferecidos incluem fonoaudiologia, psicologia, neurologia, nutrição e tratamentos em diversas outras áreas.
A APAE fica na Avenida Theodomiro Porto da Fonseca, 264, no centro de São Leopoldo. É possível entrar em contato através do telefone (51) 3592–1401 ou do e-mail saoleopoldo@apaebrasil.org.br.

Por Thais Montin