Tradição gaúcha: de filha para mãe

De pai para filho ou de filho para pai? Quando o assunto é relacionado à transmissão da cultura e dos valores tradicionalistas gaúchos entre as gerações, a ordem dos fatores não altera o produto.

Foi o que aconteceu com a massoterapeuta Rosane Terezinha da Costa, 50 anos, que passou a frequentar o CTG Tapera Velha, no bairro Vicentina, em São Leopoldo, por influência de sua filha, na época com seis anos, que participava do grupo de dança mirim do Centro Tradicionalista. Hoje, Rosane, o marido, Antônio, 49 anos, e a filha Aracely, 18, participam dos grupos de dança e de outras atividades culturais promovidas pelo CTG Tapera Velha. A massoterapeuta, que também concilia a profissão com as suas funções no Departamento Cultural do Centro de Tradições, vê no CTG do Vicentina uma boa oportunidade de unir a comunidade com as famílias.

Em 2003, quando levou a filha para participar do grupo mirim pela primeira vez, Rosane não imaginava o quanto o percurso de sua casa até o CTG do bairro faria parte de sua rotina. Para ela, foi o exemplo da filha que transformou toda a família. “Meu marido antes não frequentava e nem tinha contato com nenhum Centro Tradicionalista, mas passou a ir depois que eu e minha filha começamos a conviver mais com este movimento”, conta. A coordenadora do Departamento Cultural do CTG Tapera Velha ainda lembra que a paixão da filha pelas tradições também ultrapassou as paredes de casa. “O namorado dela começou a ir às apresentações do grupo de dança primeiramente para acompanhá-la, mas hoje já participa ativamente dos eventos que o CTG promove”, ressalta Rosane.

Durante todos os anos em que frequenta o meio tradicionalista, a massoterapeuta pode constatar uma grande ascensão da participação feminina no ambiente, que antes era dominado pelos homens. Rosane remete aos filhos o motivo do crescimento do número de mulheres que integram os CTG’s. “Normalmente são os filhos que trazem as mães e os pais para acompanhar as apresentações e isso pode despertar um interesse neles pelo movimento”, conta. Ela ainda lembra que o ambiente do CTG com músicas, jantas e eventos voltados às mães, por exemplo, acaba tornando-se favorável e atrativo para o público feminino.

O VICENTINA COMO PROTAGONISTA

Há 52 anos, com a criação do CTG Tapera Velha, o Vicentina passou a ser protagonista no meio tradicionalista gaúcho, participando de eventos e dos principais concursos da área, como o Encontro de Artes e Tradições Gaúchas (Enart), realizado anualmente.

Desde então, a agenda do Centro de Tradições do Vicentina é lotada. De segunda a sábado há ensaios dos grupos de dança mirim e adulto, além de aulas de declamação de poesia e grupos de estudo sobre o Rio Grande do Sul. No domingo o Tapera Velha abre suas portas para promover curso de fandango e também ensaios do grupo de dança Xirú. Todas essas ações são feitas de forma voluntária, ou seja, todos os que cooperam na organização das jantas de sexta à noite, por exemplo, fazem o trabalho “de coração”.

“A maioria do pessoal que tem ajudado a manter o funcionamento do CTG não ganha nada por isso. A paixão pela cultura fala tão alto, que muitos abdicam de usar o tempo disponível que têm para nos auxiliar de alguma forma”, lembra Rosane. Ela também destaca que o senso de comprometimento e disciplina que envolve os colaboradores é uma das características de quem decide viver este estilo de vida.

Por Rafaella Rosar