Um carrinho cheio de esforço

Aposentado, Celso teve que voltar a trabalhar para sobreviver


A baixa, levanta, estica, joga, empurra. Esses verbos poderiam formar um melô de academia, ou, quem sabe, ser o próximo hit do verão no ritmo do arrocha. Mas na vida de Celso Clóvis Schiincke, as palavras significam uma forma sistemática de garantir o sustento. Celso, com o corpo cansado de 72 anos, trabalha todos os dias. Das seis horas da manhã até o entardecer, ele repete esses movimentos enquanto percorre as ruas do Vicentina. O trabalho consiste em recolher garrafas pets, latinhas, papelão e outros materiais que enchem um carrinho para serem revendidos.

Essa rotina começou há cerca de um ano, “para não passar fome”, já que a pensão da aposentadoria não era o suficiente para manter a família. Entre passos apressados e pequenas paradas, Celso junta o que lhe renderá quase um salário mínimo por mês. De bermuda, camisa social aberta e chinelos, ele recebe o material das mãos dos próprios vizinhos com um jeito tímido simpático. “Já deixamos tudo separado para ele. É muito bom, assim o lixo não fica espalhado pela rua”, conta Maria Ângela da Graça, dona de uma mercearia e conhecida há anos do aposentado.

Celso não vê seu exercício diário como uma contribuição para o bairro. “Tenho que trabalhar né?!”, fala. Sua “obrigação” é uma pequena ajuda para evitar a poluição que ocupa alguns terrenos baldios do Vicentina, pois mesmo com a coleta seletiva parte da população acaba descartando seu lixo em lugares não apropriados. Há 40 anos morando no bairro, o descendente de alemães e natural de Rio Pardo, está acostumado com o cenário do lugar. Ao refletir sobre o bairro, empurrando seu carrinho, não cria muitas expectativas para possíveis mudanças. “Para mim está bom, está normal! Já estou acostumado”, revela o morador sem muita expressão.

Créditos: Pâmela Oliveira

O único momento do dia em que Celso se permite uma pausa é na hora de almoçar. Porém, o caminho até os limites da Vicentina é longo. Casado e pai de três filhos, fica surpreso ao pensar na possibilidade de ter netos. “Netos? Se tenho, não sei!”, declara com um sorriso atrapalhado. Não vê o filho mais velho há 15 anos e garante que os mais novos, Júlio César de 25 e Erick com 10, não têm filhos. Com um misto de nostalgia e tristeza, ele lembra: “O Mateus foi para o Mato Grosso com a ex-mulher, nunca mais vi ele”.

Celso é discreto, reservado, não gosta de dar muitos detalhes sobre sua vida, afinal para ele, “não tem nada de interessante”. Mas a realidade acaba contrariando sua própria fala. Ele já foi caminhoneiro, motorista particular e inclusive ajudou na construção do campus São Leopoldo da Unisinos. “Cortei muito basalto para fazer corredores e escadas. Hoje, nem sei mais como é o lugar”, afirma. Morou em Lajeado, antes de vir para o Vicentina e quando chegou em 1970 no bairro, em suas palavras, tudo ainda era mato, não tinha nada. “Hoje, a realidade é diferente”, comenta ao olhar para o filho de 10 anos que segura nas mãos um tablet como brinquedo.

Celso caminha todos os dias pelo Vicentina para recolher materiais recicláveis Créditos: Pâmela Oliveira

Seu Celso, não deixa de demonstrar sua boa vontade, faz questão de oferecer sofá, bolachas e o refrigerante para quem o visita. Mesmo falando pouco, o olhar do aposentado transmite uma vida inteira de quem nunca conseguiu parar de batalhar, e a casa é um exemplo disso. Com reformas inacabadas, ela reflete o que ainda falta conquistar, mas estampa em suas paredes, quadros esperançosos. Eles trazem uma leveza ao ambiente, remetem à tranquilidade que ainda falta na vida do aposentado.

Chega a hora do almoço, mas o tempo é breve. Durante a tarde, Celso percorrerá mais ruas do bairro para fazer a coleta na companhia de seu carrinho. “O que vou fazer depois?”, repete o aposentado ao ser questionado sobre sua rotina. Abaixa, levanta, estica, joga, empurra. “Tudo de novo”, completa.

Por Karla Oliveira